Horas Ms - Gabriel Garca Mrquez

Traduo de EGITO GONALVES

Ttulo original: LA MALA HORA

Capa: FORTESPOLIO
Ilustrao da capa: CARLOS MARQUES / FORTESPLIO
Impresso e Encadernado para Crculo de Leitores
por Printer Portuguesa em Janeiro de 1999 
Nmero da edio: 4912 
Depsito legal nmero 131 016/99
ISBN 972-42- 1942-9
 

 Com um esforo solene, o padre ngel acordou. Esfregou 
os olhos com os ns dos dedos, afastou a cortina do 
mosquiteiro e permaneceu sentado na esteira lisa, por um 
momento pensativo, o tempo indispensvel para verificar que 
estava vivo e para se lembrar da data em que se encontrava e 
da sua relao com o santoral. 
Tera-feira, quatro de Outubro", pensou, pronunciando em voz 
baixa: So Francisco de Assis.
Vestiu-se sem se lavar e sem rezar. Era alto, sanguneo, 
com uma figura pacfica de boi manso, e movia-se como um boi, 
com gestos lentos e tristes. Depois de rectificar a 
abotoadura da sotaina com a ateno lnguida dos dedos com 
que se verificam as cordas de uma harpa, retirou a tranca e 
abriu a porta do ptio. Sob a chuva, os nardos trouxeram-lhe 
 memria as palavras de uma cano.
- O mar crescer com as minhas lgrimas" - suspirou.
O quarto comunicava com a igreja por meio de um corredor 
interior com vasos de flores, o cho coberto com ladrilhos 
soltos por cujas juntas comeava a crescer a erva de Outubro. 
Antes de se dirigir  igreja, o padre ngel entrou na 
retrete. Urinou com abundncia, contendo a respirao para 
no sentir o intenso cheiro amoniacal que lhe fazia saltar as 
lgrimas. Depois saiu para o corredor, recordando: Este barco 
me levar ao teu sonho. Ao passar a estreita porta da igreja 
sentiu o cheiro dos nardos pela ltima vez.
L dentro, cheirava mal. Era uma nave comprida, tambm 
atapetada com ladrilhos soltos, e com uma nica porta que 
dava para a praa. O padre ngel dirigiu-se directamente para 
a base da torre. Viu os pesos do relgio a mais de um metro 
acima da sua cabea e pensou que ainda tinha corda para uma 
semana. As melgas assaltaram-no. Esmagou uma na nuca com uma 
palmada violenta e limpou a mo na corda do sino. Logo a 
seguir ouviu, em cima, o rudo visceral da complicada 
engrenagem mecnica e, surdas, profundas, as cinco badaladas 
das cinco dentro do prprio ventre.
Esperou at ao final da ltima ressonncia. Agarrou 
ento a corda com as duas mos, enrolou-a nos pulsos, e fez 
soar os bronzes rachados com uma convico peremptria. Tinha 
feito sessenta e um anos. O exerccio dos sinos era violento 
de mais para a sua idade, mas havia convocado sempre a missa 
pessoalmente e esse esforo reconfortava-lhe o moral.
Trinidad empurrou a porta da rua enquanto os sinos 
tocavam e dirigiu-se para o canto onde tinha posto, na noite 
anterior, ratoeiras para os ratos. Encontrou um es pectculo 
que lhe causou ao mesmo tempo repugnncia e prazer: um 
pequeno massacre.
Abriu a primeira ratoeira, pegou no rato pela cauda com 
o indicador e o polegar e atirou-o para dentro de uma caixa 
de carto. O padre ngel acabou de abrir a porta que dava 
para a praa.
- Bom dia, padre - disse Trinidad.
Ele no registou a formosa voz de bartono. A praa 
desolada, as amendoeiras adormecidas sob a chuva, o burgo 
imvel no inconsolvel amanhecer de Outubro causaram-lhe uma 
sensao de desamparo. Mas quando se acostumou ao rudo da 
chuva, apercebeu-se, no fundo da praa, ntido e um pouco 
irreal, do som do clarinete de Pastor. S ento correspondeu 
ao bom-dia.
- O Pastor no estava com os da serenata - disse o 
padre.
 - No - confirmou Trinidad. Aproximou-se com a caixa dos 
ratos mortos. - Eram guitarras.
- Estiveram umas duas horas com uma canozinha 
disparatada - disse o padre. - O mar crescer com as minhas 
lgrimas." No  assim?
-  a nova cano de Pastor - disse ela. 
Imvel diante da porta, o padre padecia de um instantneo 
fascnio. Tinha ouvido durante muitos anos o clarinete de 
Pastor, que a dois quarteires dali se sentava a ensaiar, 
todos os dias s cinco horas, com o banquinho encostado  
viga do seu pombal. Era o mecanismo da povoao a funcionar 
com preciso: primeiro, as cinco badaladas das cinco; depois, 
o primeiro toque para a missa, e depois, o clarinete de 
Pastor, no ptio da sua casa, purificando com notas difanas 
e articuladas o ar carregado da porcaria das pombas.
- A msica  boa - comentou o padre -, mas a letra  um 
disparate. As palavras podem-se voltar do direito e do avesso 
e  sempre o mesmo. Este sonho me levar ao teu barco.
Deu meia volta, sorrindo do seu prprio achado, e foi 
acender o altar. Trinidad seguiu-o. Vestia uma bata branca e 
comprida, com mangas at aos punhos, e a faixa de seda azul 
de uma congregao laica. Os olhos dela eram de um negro 
intenso, sob as sobrancelhas muito cerradas.
- Estiveram toda a noite por aqui perto - disse o padre.
- Na Margot Ramrez - disse Trinidad, distrada, fazendo 
soar os ratos mortos dentro da caixa. - Mas ontem  noite 
houve coisa melhor que a serenata.
O padre parou e fixou na mulher os seus olhos de um azul 
silencioso.
- Que foi?
- Pasquins - respondeu Trinidad. 
E soltou uma gargalhada nervosa.

Trs casas adiante, Csar Montero estava a sonhar com 
elefantes. Tinha-os visto no domingo, no cinema.
A chuva havia-se precipitado meia hora antes do final, e 
agora o filme continuava no sonho.
Csar Montero voltou todo o peso do seu corpo monumental 
contra a parede, enquanto os indgenas espavoridos se 
escapavam em tropel diante dos elefantes. A esposa empurrou-o 
suavemente, mas nenhum dos dois acordou. Vamos embora", 
murmurou ele, recuperando a posio inicial. Ento acordou. 
Nesse momento soava o segundo toque para a missa.
Era um quarto com grandes espaos gradeados. A janela 
que dava para a praa, tambm gradeada, tinha uma cortina de 
cretone com flores amarelas. Na mesinha-de- cabeceira havia 
um rdio porttil, um candeeiro e um relgio de mostrador 
luminoso. No outro lado, contra a parede, um armrio enorme 
com portas de espelho. Enquanto calava as botas de montar, 
Csar Montero comeou a ouvir o clarinete de Pastor. Os 
cordes de couro cru estavam endurecidos pela lama. Esticou-
os com fora, fazendo-os passar atravs da mo fechada, mais 
spera que o couro dos cordes. Depois procurou as esporas, 
mas no as encontrou debaixo da cama. Continuou a vestir-se 
na penumbra, tentando no fazer barulho para no acordar a 
mulher. Ao abotoar a camisa olhou as horas no relgio da 
mesinha e tornou a procurar as esporas debaixo da cama. 
Primeiro procurou-as com as mos; depois ps-se de gatas e 
comeou a rastejar debaixo da cama. A mulher acordou.
- Que procuras ?
- As esporas.
- Esto penduradas atrs do armrio - disse ela.Tu mesmo 
as puseste l, no sbado.
Afastou o mosquiteiro para o lado e acendeu a luz. Ele 
sentiu-se envergonhado. Era monumental, de ombros quadrados e 
slidos, mas os movimentos eram elsticos, mesmo com as botas 
de montar, cujas solas pareciam duas bases de madeira. Tinha 
uma sade um pouco selvagem. Parecia ser de idade indefinida, 
mas pela pele do pescoo notava-se que j ultrapassara os 
cinquenta. Sentou-se na cama para colocar as esporas.
- Ainda est a chover - disse ela, sentindo que os seus 
ossos adolescentes tinham absorvido a humidade da noite. - 
Sinto-me como uma esponja.
Pequena, ossuda, de nariz comprido e adunco, tinha a 
virtude de no parecer acabada de acordar. Tentou ver a chuva 
atravs da cortina. Csar Montero acabou de ajustar as 
esporas, levantou-se e bateu vrias vezes com os taces no 
cho. A casa estremeceu com as esporas de cobre.
- O tigre engorda em Outubro - disse ele. 
Mas a esposa no o ouviu, extasiada com a melodia de Pastor. 
Quando voltou a olhar para ele, estava a pentear-se diante do 
armrio, com as pernas abertas e a cabea inclinada, pois no 
cabia nos espelhos.
Ela seguia, em voz baixa, a melodia de Pastor.
-Estiveram a ensaiar essa cano durante toda a noite - 
disse ele.
-  muito bonita - acrescentou ela.
Retirou uma fita da cabeceira da cama, apanhou o cabelo 
na nuca e suspirou, completamente acordada: Ficarei no teu 
sonho at  morte." Ele no prestou ateno. De uma gaveta do 
armrio onde tinha tambm algumas jias, um pequeno relgio 
de mulher e uma caneta de tinta permanente, retirou uma 
carteira com dinheiro. Pegou em quatro notas e voltou a pr a 
carteira no mesmo stio. Depois meteu no bolso da camisa seis 
cartuchos de espingarda.
- Se a chuva continuar, no venho no sbadodisse ele.
Ao abrir a porta do ptio, demorou um instante no 
umbral, respirando o sombrio odor de Outubro enquanto os 
olhos se habituavam  obscuridade. Ia fechar a porta quando 
no quarto soou a campainha do despertador. A esposa saltou da 
cama. Ele permaneceu em suspenso, com a mo na aldraba. 
Olhou-a ento, pela primeira vez, pensativo.
- Ontem  noite sonhei com os elefantes - disse ele.
Depois fechou a porta e foi aparelhar a mula. A chuva 
estiou antes do terceiro toque. Um vento baixo arrancou s 
amendoeiras da praa as suas ltimas folhas apodrecidas. As 
luzes pblicas apagaram-se, mas as casas continuavam 
fechadas. Csar Montero meteu a mula na cozinha e sem 
desmontar gritou  mulher que lhe trouxesse o impermevel. 
Tirou a espingarda de dois canos que levava ao ombro e 
amarrou-a na horizontal com as correias do selim. A esposa 
apareceu na cozinha com o impermevel.
- Espera que a chuva passe - disse-lhe, sem convico.
Ele vestiu o impermevel em silncio. Depois olhou para 
o ptio.
- No vai passar at Dezembro.
Ela acompanhou-o com o olhar at ao outro extremo do 
corredor. A chuva caa sobre as oxidadas lminas do telhado, 
mas ele ia partir. Esporeando a mula, teve de se dobrar no 
selim para no esbarrar na trave da porta ao sair para o 
ptio. As gotas do beiral rebentaram-lhe nas costas. Do 
porto, e sem voltar a cabea, gritou:
- At sbado.
- At sbado - disse ela.
A nica porta aberta na praa era a da igreja. Csar 
Montero olhou para cima e viu o cu espesso e baixo, a dois 
palmos da sua cabea. Benzeu-se, esporeou a mula e f-la 
girar vrias vezes sobre as patas traseiras, at que o animal 
se firmou no escorregadio do cho. Foi ento que viu o papel 
colado na porta da sua casa.
Leu-o sem desmontar. A gua tinha dissolvido a cor, mas 
o texto escrito a pincel, com maisculas mal desenhadas, 
mantinha-se suficientemente legvel. Csar Montero encostou a 
mula  parede, arrancou o papel e rasgou-o em pedaos.
Com um movimento das rdeas imprimiu  mula um trote 
curto, igual para muitas horas. Saiu da praa por
uma ruela estreita e tortuosa, com casas de adobe cujas 
portas soltavam, ao abrir, o rescaldo dos sonhos. Sentiu 
cheiro de caf. S quando deixava para trs as ltimas casas 
do povoado fez girar a mula e, com o mesmo trotezinho curto e 
regular, voltou  praa, parando diante da casa de Pastor. 
Ali apeou-se, tirou a espingarda e amarrou a mula ao esteio, 
fazendo cada gesto no seu tempo justo.
A porta estava destrancada, apenas bloqueada por baixo. 
Csar Montero entrou na penumbra da salinha. Sentiu uma nota 
aguda e depois um silncio de expectativa. Passou ao lado de 
quatro cadeiras dispostas em torno de uma mesinha com uma 
cobertura de l e um frasco com flores artificiais. Por fim 
deteve-se diante da porta do ptio, lanou para trs o 
capucho do impermevel, moveu cuidadosamente o co da 
espingarda e com voz calma, quase amvel, chamou:
- Pastor.
Pastor apareceu no vo da porta, desapertando a 
embocadura do clarinete. Era um rapaz magro, direito, com um 
bigode incipiente alinhado  tesoura. Quando viu Csar 
Montero com os taces firmados no cho de terra e a 
espingarda  altura do cinturo apontada para ele, Pastor 
abriu a boca. Mas no disse nada. Empalideceu e sorriu. Csar 
Montero apertou primeiro os taces contra o cho, depois a 
culatra, com o cotovelo contra a cadeira; a seguir apertou os 
dentes e ao mesmo tempo o gatilho. A casa estremeceu com o 
estampido, mas Csar Montero no soube se foi antes ou depois 
do abalo que viu Pastor do outro lado da porta, arrastando-se 
com uma ondulao de verme sobre um rego de minsculas penas 
ensanguentadas.

O alcaide comeava a adormecer no momento do tiro. Tinha 
passado trs noites sem dormir, atormentado por dor de 
dentes. Naquela manh, ao primeiro toque para a missa, tomou 
o oitavo analgsico. A dor cedeu.
O tamborilar da chuva no telhado de zinco ajudou-o a 
adormecer, mas a gengiva continuou a palpitar, embora sem 
dor, enquanto dormia. Quando ouviu o tiro acordou em 
sobressalto e agarrou o cinturo das cartucheiras com o 
revlver, que deixava sempre numa cadeira junto da rede, ao 
alcance da mo esquerda. Mas como s ouviu o rudo da chuva, 
pensou que teria sido um pesadelo e voltou a sentir a dor.
Tinha um pouco de febre. No espelho viu que a face 
estava inchada. Destapou uma caixinha de vaselina mentolada e 
untou a parte dolorida, tensa e por barbear. De repente 
percebeu, atravs da chuva, um rudo de vozes longnquas. 
Saiu para a varanda. Os habitantes da rua, alguns em roupa de 
dormir, corriam para a praa. Um rapaz voltou a cabea para 
ele e gritou, sem se deter e levantando os braos:
- Csar Montero matou o Pastor.
Na praa, Csar Montero dava voltas, com a espingarda 
apontada  multido. O alcaide reconheceu-o com dificuldade. 
Sacou o revlver com a mo esquerda e comeou a avanar para 
o centro da praa. As pessoas abriam-lhe passagem. Do salo 
de bilhar saiu um agente da polcia, com a espingarda 
carregada, apontada a Csar Montero. O alcaide disse-lhe, em 
voz baixa: No dispares, animal." Meteu o revlver no coldre, 
tirou a espingarda ao polcia e seguiu at ao centro da praa 
com a arma pronta a ser disparada. A multido acumulou-se 
contra as paredes.
- Csar Montero - gritou o alcaide -, d-me essa 
espingarda.
At ento, Csar Montero no o tinha visto. Voltou- se 
para ele, com um movimento brusco. O alcaide premiu levemente 
o gatilho, mas no disparou.
- Venha busc-la - gritou Csar Montero. 
O alcaide segurava a espingarda com a mo esquerda, e com a 
direita secava os olhos. Calculava cada passo, com o dedo 
tenso no gatilho e o olhar fixo em Csar Montero. De repente 
parou e comeou a falar com uma cadncia afectuosa:
- Atira a espingarda ao cho, Csar. No faas mais 
disparates.
Csar Montero retrocedeu. O alcaide continuou com o dedo 
tenso no gatilho. No se lhe moveu um s msculo do corpo at 
que Csar Montero baixou a espingarda e a deixou cair. Ento 
o alcaide reparou que estava vestido apenas com as calas do 
pijama e que, sob a chuva, estava a suar, e a gengiva tinha 
deixado de lhe doer.
As casas abriram-se. Dois polcias, armados com 
espingardas, correram para o centro da praa. A multido 
precipitou-se, atrs deles. Os agentes saltaram numa meia 
volta e gritaram com as espingardas apontadas:
- Para trs.
O alcaide gritou, com voz tranquila, sem olhar para 
ningum :
- Evacuem a praa.
A multido dispersou. O alcaide revistou Csar Montero, 
sem o obrigar a tirar o impermevel. Encontrou quatro 
cartuchos no bolso da camisa e, no bolso traseiro das calas, 
uma navalha com incrustaes de corno. Noutro bolso encontrou 
um livrinho de apontamentos, uma argola com trs chaves e 
quatro notas de cem pesos. Csar Montero deixou-se revistar, 
impassvel, com os braos abertos, movendo apenas o corpo 
para facilitar a operao. Quando terminou, o alcaide chamou 
os dois polcias, entregou-lhes as coisas e recomendou-lhes 
Csar Montero.
- Levem-no agora para o quartel. Respondem por ele.
Csar Montero despiu o impermevel. Deu-o a um dos 
polcias e caminhou no meio deles, indiferente  chuva e  
perplexidade das pessoas concentradas na praa. O alcaide 
viu-o afastar-se, pensativo. Depois voltou-se para a 
multido, fez um gesto de espantar galinhas, e gritou :
- Dispersem.
Secando a cara com o brao nu, atravessou a praa e 
entrou na casa de Pastor.
Cada numa cadeira, estava a me do morto, entre um grupo de 
mulheres que lhe abanavam os leques na cara com uma impiedosa 
diligncia. O alcaide puxou de lado uma das mulheres.
- Dem-lhe ar - disse ele.
A mulher voltou-se para o alcaide:
- Tinha acabado de sair para a missa.
- Est bem - concordou o alcaide -; mas agora deixem-na 
respirar.
Pastor estava no corredor, de barriga para baixo, contra 
o pombal, sobre um leito de penas ensanguentadas. Havia um 
cheiro intenso de excremento de pombos. Um grupo de homens 
estava a levantar o corpo quando o alcaide apareceu no 
umbral.
- Deixem - disse ele.
Os homens voltaram a colocar o cadver em cima das 
penas, na mesma posio em que o tinham encontrado, e 
retrocederam em silncio. Depois de examinar o corpo, o 
alcaide voltou-o. Houve uma disperso de penas minsculas. Na 
altura do cinto havia mais penas que tinham aderido ao sangue 
ainda morno e vivo. Afastou-as com as mos. A camisa estava 
rota e a fivela do cinto destruda. Sob a camisa viu as 
vsceras a descoberto. A ferida tinha deixado de sangrar.
- Foi com uma espingarda de matar tigres - disse um dos 
homens.
O alcaide endireitou-se. Numa trave do pombal, limpou as 
penas ensanguentadas, sem deixar de contemplar o cadver. 
Acabou de limpar a mo nas calas do pijama e disse ao grupo:
- No o tirem da.
- Vai deix-lo assim? - perguntou um deles.
-  preciso fazer a diligncia do levantamentodisse o 
alcaide.
No interior da casa comeou o pranto das mulheres. O 
alcaide abriu caminho atravs dos gritos e dos cheiros 
sufocantes que comeavam a tornar pesado o ar do aposento. Na 
porta da rua encontrou o padre ngel.
- Est morto! - exclamou o padre, perplexo.
- Como um porco - respondeu o alcaide. As casas estavam 
abertas em redor da praa. A chuva tinha parado, mas o cu 
denso flutuava por cima dos telhados, sem uma aberta para o 
sol. O padre ngel deteve o alcaide pelo brao.
- Csar Montero  um bom homem. Este deve ter sido um 
momento de desvario.
- Bem sei - disse o alcaide, impaciente. - No se 
preocupe, padre, no lhe vai acontecer nada. Entre a, que  
onde a sua presena est a ser precisa.
Afastou-se com uma certa violncia e ordenou aos 
polcias que suspendessem a guarda. A multido, at ento 
contida em respeito, precipitou-se para a casa de Pastor. O 
alcaide entrou no salo de bilhar, onde um polcia o esperava 
com uma muda de roupa limpa: o seu uniforme de tenente.
Normalmente, o estabelecimento no estava aberto quela 
hora. Naquele dia, antes das sete j estava apinhado.  volta 
das mesinhas de quatro lugares, ou encostados ao balco, 
alguns homens tomavam caf. A maioria ainda se encontrava em 
pijama e chinelos.
O alcaide despiu-se diante de todos, secou-se um pouco 
com as calas do pijama, e comeou a vestir-se em silncio, 
atento aos comentrios. Quando saiu do salo estava 
perfeitamente a par dos pormenores da ocorrncia.
- Tenham cuidado - gritou da porta; - se algum no se 
portar bem, meto-o no xadrez.
Desceu pela rua empedrada, sem cumprimentar ningum, mas 
muito atento  excitao do burgo. Era jovem, de gestos 
fceis, e em cada passo revelava o propsito de se fazer 
notar.
s sete, as lanchas que faziam o transporte de carga e 
passageiros trs vezes por semana, lanaram um apito de 
sereia, abandonando o molhe, sem que ningum lhes prestasse a 
ateno de outros dias. O alcaide desceu pela galeria onde os 
comerciantes srios comeavam a exibir as suas mercadorias 
coloridas. O doutor Octavio Giraldo, um mdico sem idade e 
com a cabea cheia de caracis luzidios, via descer as 
lanchas,  porta do seu consultrio. Tambm ele se encontrava 
de pijama e chinelos.
- Doutor - disse o alcaide -, vista-se para ir fazer a 
autpsia.
O mdico observou-o, intrigado. Revelou uma extensa 
fieira de dentes brancos e slidos.
- Ento agora fazemos autpsias - disse, acrescentando: 
- Evidentemente, isso  um grande progresso.
O alcaide tentou sorrir, mas a sensibilidade da face 
impediu-o. Tapou a boca com a mo.
- Que tem? - perguntou o mdico.
- Um filho da me de um dente.
O doutor Giraldo parecia disposto a conversar. Mas o 
alcaide tinha pressa.
No final do molhe bateu  porta de uma casa com paredes 
de cana sem reboco, cujo telhado de palma descia quase at ao 
nvel da gua. Abriu-lhe a porta uma mulher de pele 
esverdeada, grvida de sete meses. Estava descala. O alcaide 
afastou-a para o lado e entrou para a penumbra da salinha.
-Juiz - chamou.
O juiz Arcadio apareceu na porta interior, a arrastar os 
tamancos. Tinha umas calas de dril, sem correia, sustentadas 
sob o umbigo, e o torso nu.
- Prepare-se para o levantamento do cadver - disse o 
alcaide.
- E de onde saiu agora essa novidade?
O alcaide continuou at ao quarto.
- Isto  diferente - disse ele, abrindo a janela 
para purificar o ar carregado de sono. -  melhor fazer as 
coisas bem feitas. - Limpou s calas passadas a ferro a 
poeira das mos, e perguntou sem o menor indcio de sarcasmo: 
- Sabe como se faz a diligncia do levantamento ?
- Evidentemente - respondeu o juiz.
O alcaide olhou para as mos, diante da janela.
- Mande chamar o seu escrivo,para o que tiver de
ser escrito - disse ele,novamente sem qualquer inteno 
na voz. Depois voltou-se para a rapariga, com as
palmas das mos estendidas. Tinha manchas de sangue.
- Onde posso lavar-me?
- No tanque - respondeu ela.
O alcaide saiu para o ptio.A rapariga procurou na
arca uma toalha limpa e envolveu nela um sabo de cor.
Saiu para o ptio no momento em que o alcaide j 
reressava ao quarto,sacudindo as mos.
- Ia levar-lhe o sabo - disse ela.
- Assim j est bem - afirmou o alcaide. 
Voltou a olhar as palmas das mos.Pegou na toalha e secou-as
pensativo,olhando o juiz Arcadio.
penas de pombo - Estava cheio delas - acrescentou.
Sentado na cama,tomando com sorvos espaados
uma chvena de caf,esperou que o juiz acabasse de se
vestir.A rapariga seguiu-os atravs da sala.
- Enquanto no tirar esse dente,no lhe diminuir
o inchao - disse ela ao alcaide.
Este empurrou o juiz Arcadio para a rua,voltou-se
para a olhar e tocou-lhe com o indicador no avultado
ventre.
- E este inchao,quando vai diminuir?
- Falta pouco - respondeu ela.
O padre ngel no deu o seu habitual passeio vespertino. 
Depois do enterro parou para conversar numa casa dos bairros 
inferiores, e ficou por ali at ao entardecer. Sentia-se bem, 
apesar das chuvas prolongadas lhe provocarem habitualmente 
dores nas vrtebras. Quando chegou a casa j estavam acesos 
os candeeiros das ruas.
Trinidad regava as flores do corredor. O padre 
perguntou-lhe pelas hstias ainda no consagradas e ela 
respondeu que as tinha colocado no altar-mor. A exalao dos 
mosquitos envolveu-o ao acender a luz do quarto. Antes de 
fechar a porta deitou insecticida no aposento,
sem uma s trgua, espirrando por causa do cheiro. Quando 
acabou estava a suar. Trocou a sotaina negra pela branca e 
remendada que usava em privado e foi dar o toque das ave-
marias.
De regresso ao quarto, ps uma sert ao lume e comeou a 
fritar um pedao de carne, enquanto cortava uma cebola s 
rodelas. Depois colocou tudo num prato onde havia um pouco de 
mandioca e de arroz frio que tinham sobrado do almoo. Levou 
o prato para a mesa e sentou-se a comer.
Comeu de tudo ao mesmo tempo, cortando pedacinhos e 
misturando tudo no garfo com a ajuda da faca. Mastigava 
conscienciosamente, triturando com os seus dentes chumbados 
com prata at ao ltimo gro, mas com os lbios apertados. 
Enquanto o fazia, pousava o garfo e a faca na beira do prato, 
e examinava o aposento com um olhar contnuo e 
permanentemente consciente. Em frente dele estava o armrio 
com os volumosos livros do arquivo paroquial. No canto, uma 
cadeira de baloio de espaldar alto, com uma almofada cosida 
 altura da cabea. Atrs dela havia um biombo, com um 
crucifixo pendurado junto de um calendrio de propaganda de 
um xarope para a tosse. Do outro lado do biombo encontrava-se 
a cama.
Ao terminar a refeio, o padre ngel sentiu-se 
asfixiar. Tirou um pouco de doce de goiaba, encheu o copo de 
gua at aos bordos e comeu a pasta aucarada olhando o 
calendrio. Entre cada bocado bebeu um sorvo de gua, sem 
desviar a vista do calendrio. Por fim, arrotou e limpou os 
lbios com a manga. Durante dezanove anos tinha comido assim, 
sozinho no seu escritrio, repetindo cada movimento com uma 
preciso escrupulosa. Nunca sentira vergonha da sua solido.
Depois de passar o rosrio, Trinidad pediu-lhe dinheiro 
para comprar arsnico. O padre recusou-o pela terceira vez, 
argumentando que as ratoeiras colocadas eram o bastante. 
Trinidad insistiu.
-  que os ratinhos mais pequenos levam o queijo e 
evitam as ratoeiras. Por isso  melhor envenenar o queijo.
O padre admitiu que Trinidad tinha razo. Mas antes de o 
poder expressar, irrompeu na tranquilidade da igreja o 
ruidoso altifalante do cinema: no passeio em frente. Primeiro 
ouviu-se um rudo abafado. Depois o raspar da agulha no disco 
e, em seguida, um mambo que se iniciou com o som de um 
estridente trompete.
- H espectculo? - perguntou o padre. 
Trinidad disse que sim.
- Sabes o que do?
- Tarzan e a Deusa Verde - respondeu Trinidad.A mesma 
fita que no puderam acabar no domingo por causa da chuva. 
Boa para todos.
O padre ngel dirigiu-se  base da torre e deu doze 
toques espaados. Trinidad estava espantada.
- Enganou-se, padre - disse ela, agitando as mos e com 
um brilho de comoo nos olhos. -  uma fita boa para todos. 
Lembre-se que no domingo no deu nenhum toque.
- Mas  uma falta de considerao para com as pessoas 
desta terra - retorquiu o padre, secando o suor do pescoo. E 
repetiu, arquejante: - Uma falta de considerao.
Trinidad compreendeu.
- Era preciso ter visto esse enterro - disse o padre.
- Todos os homens lutavam para transportar o caixo. 
Depois despediu a rapariga, fechou a porta que dava para a 
praa deserta e apagou as luzes do templo. No corredor, de 
regresso ao quarto, deu uma palmadinha na fronte ao recordar 
que se esquecera de dar a Trinidad o dinheiro para o 
arsnico. Mas antes de chegar ao quarto j se tinha esquecido 
novamente.
Pouco depois, sentado na sua mesa de trabalho, dispunha-
se a terminar uma carta iniciada na noite anterior. Tinha 
desabotoado a sotaina at ao estmago e punha na mesa o bloco 
de papel, o tinteiro e o mata-borro, enquanto procurava os 
culos no bolso. Depois lembrou-se que os tinha deixado na 
sotaina preta que levara ao enterro e levantou-se para os ir 
buscar. Tinha relido o que escrevera na noite anterior e 
comeado um novo pargrafo, quando bateram trs pancadas na 
porta.
- Entre.
Era o dono da sala de cinema. Pequeno, plido, muito bem 
barbeado, tinha uma expresso de fatalidade. Estava vestido 
de linho branco, sem uma ndoa e calava sapatos de duas 
cores. O padre indicou que se sentasse na cadeira de baloio, 
de verga, mas ele tirou um leno do bolso das calas, 
desdobrou-o cuidadosamente, sacudiu o p do banco, e sentou-
se com as pernas abertas. O padre ngel viu ento que no era 
um revlver, mas sim uma lanterna de pilhas o que ele trazia 
no cinturo.
- s suas ordens - articulou o padre.
- Padre - disse o empresrio, quase sem alento -, 
desculpe meter-me nos seus assuntos, mas esta noite deve 
haver um engano.
O padre acenou com a cabea e esperou.
- Tarzan e a Deusa Verde  classificada como uma fita 
boa para todos - prosseguiu o empresrio. - E at o senhor o 
reconheceu no domingo.
O padre tentou interromp-lo, mas o empresrio levantou 
a mo em sinal de que ainda no tinha terminado.
- Eu aceitei a questo dos toques - disse ele porque  
verdade que h fitas imorais. Mas esta no tem nada de 
especial. Pensvamos pass-la no sbado em sesso infantil.
O padre ngel explicou-lhe ento que, efectivamente, a 
fita no tinha qualquer classificao moral na lista que 
recebia pelo correio todos os meses.
- Mas dar cinema hoje - prosseguiu -  uma falta de 
considerao, havendo aqui um morto. Isso tambm faz parte da 
moral.
O empresrio olhou para ele.
- O ano passado, a prpria polcia matou um homem dentro 
do cinema e a sesso continuou logo que retiraram o corpo.
- Agora  diferente - disse o padre -, o alcaide  
outro.
- Quando voltar a haver eleies, voltar a matana
- replicou o empresrio, exasperado. - Desde que esta terra  
terra, sucede sempre a mesma coisa.
- Veremos.
O empresrio examinou-o com um olhar infeliz. Ao voltar 
a falar, sacudindo a camisa para ventilar o peito, a voz 
tinha adquirido um fundo de splica.
-  a terceira fita boa para todos que nos  enviada 
este ano - disse ele. - No domingo ficaram por passar trs 
bobines por culpa da chuva e h muita gente que quer saber 
como  que acaba.
- Os toques foram dados - retorquiu o padre. 
O empresrio teve um suspiro de desespero. Esperou um pouco, 
olhando de frente para o sacerdote, j sem pensar em outra 
coisa seno no intenso calor daquele aposento.
- Ento, no h nada a fazer?
O padre ngel abanou a cabea.
O empresrio deu uma palmadinha nos joelhos e levantou-
se.
- Est bem - concordou. - Que se pode fazer. Dobrou 
novamente o leno, secou o suor do pescoo e examinou o lugar 
com um rigor amargo.
- Isto  um inferno - disse.
O padre acompanhou-o at  porta. Depois sentou-se a 
terminar a carta. Leu-a de novo desde o comeo e retomou o 
pargrafo interrompido. Parou a pensar. Nesse momento cessou 
a msica e uma voz impessoal anunciou: Comunica-se ao 
respeitvel pblico que a sesso desta noite foi suspensa 
porque esta empresa tambm pretende associar-se ao luto." O 
padre sorriu, reconhecendo a voz do empresrio.
O calor tornou-se mais intenso. O proco continuou a 
escrever, com pausas curtas para secar o suor e ler o j 
escrito, at preencher duas pginas. Acabava de assinar 
quando a chuva recomeou sem qualquer aviso. Um vapor de 
terra hmida penetrou no aposento. O padre ngel escreveu o 
sobrescrito, tapou o tinteiro e disps-se a dobrar a carta. 
Mas antes leu de novo o ltimo pargrafo. Ento voltou a 
destapar o tinteiro e acrescentou um ps- escrito: 
Est a chover novamente. Com este Inverno e as coisas que em 
cima te conto, creio que nos esperam dias amargos."
 
A sexta-feira amanheceu morna e seca. O juiz Arcadio, 
que se gabava de ter feito amor trs vezes por noite desde 
que o fizera pela primeira vez, rebentou naquela manh as 
cordas do mosquiteiro e caiu da cama com a sua mulher no 
momento supremo, enredados na cortina de croch.
- Deixa isso assim - murmurou ela. - Eu arranjo
depois.
Surgiram completamente nus das nebulosas confusas do 
mosquiteiro. O juiz Arcadio foi  arca buscar uns cales 
limpos. Quando voltou, a mulher estava vestida, a arranjar o 
mosquiteiro. Passou de lado, sem a olhar, e sentou-se a 
calar os sapatos do outro lado da cama, com a respirao 
ainda alterada pelo esforo amoroso. Ela perseguiu-o. Apoiou 
o ventre redondo e tenso con- tra o brao dele e procurou-lhe 
a orelha com os dentes. Ele afastou-a suavemente.
- Deixa-me, agora - disse ele.
Ela soltou um riso carregado de boa sade. Seguiu o 
marido at ao outro extremo do quarto, apontando-lhe o 
indicador aos rins. Arre, burrinho", dizia. Ele deu um salto 
e afastou-lhe as mos. Ela deixou-o em paz e tornou a rir, 
mas de repente ficou sria e gritou:
- Meu Deus !
- Que foi? - perguntou ele.
-  que a porta estava aberta de par em par - gritou. - 
Mas que grande pouca-vergonha.
Entrou no quarto de banho a rebentar de riso. O juiz Arcadio 
no esperou pelo caf. Reconfortado com a menta da pasta de 
dentes, saiu para a rua. Estava um sol de cobre. Os srios 
sentados  porta das suas lojas contemplavam o rio aprazvel. 
Ao passar diante do consultrio do doutor Giraldo raspou com 
a unha a rede metlica da porta e gritou, sem se deter:
- Doutor, qual  o melhor remdio para a dor de cabea?
O mdico respondeu, do interior da casa:
- No ter bebido na vspera.
No porto, um grupo de mulheres comentava em voz alta o 
texto de um novo pasquim colocado na noite anterior. Como o 
dia amanhecera claro e sem chuva, as mulheres que passaram 
para a missa das cinco leram-no e agora toda a gente estava 
ao corrente. O juiz Arcadio no se deteve. Sentiu-se como um 
boi com uma argola no nariz, puxado para o salo de bilhar. 
Ali pediu uma cerveja gelada e um analgsico. Acabavam de 
soar as nove e o estabelecimento j estava cheio.
- Toda a gente est com dor de cabea - disse o juiz 
Arcadio.
Levou a garrafa para uma mesa onde trs homens pareciam 
assombrados diante dos seus copos de cerveja. Sentou-se no 
lugar que estava livre.
- Continua a brincadeira? - perguntou.
- Hoje amanheceram quatro.
- Se houve um que foi lido por toda a gente - disse um 
dos homens -, foi o da Raquel Contreras.
O juiz Arcadio mastigou o analgsico e bebeu a cerveja 
pela garrafa. O primeiro sorvo repugnou-lhe, mas bem depressa 
o estmago se acostumou e ele sentiu-se novo e sem passado.
- Que dizia?
- Parvoces - respondeu o homem. - Que as viagens que 
fez este ano no foram para tratar os dentes, como ela disse, 
mas sim para abortar.
- No precisavam de ter trabalho a pr um pasquim - 
disse o juiz Arcadio. - Isso  o que toda a gente murmura.
Embora o sol quente lhe tenha dodo no fundo dos olhos 
quando saiu do estabelecimento, no sentia j o confuso mal- 
estar do amanhecer. Foi directamente para o tribunal. O 
escrivo, um velho esqulido que depenava uma galinha, 
recebeu-o com um olhar de incredulidade por cima dos aros dos 
culos.
- Que milagre !
-  preciso tratar desse caso - disse o juiz. 
O escrivo saiu para o ptio a arrastar os chinelos, e, por 
cima da cerca, deu a galinha meio depenada  cozinheira do 
hotel. Onze meses depois de ter tomado posse do cargo, o juiz 
Arcadio instalou-se no seu escritrio pela primeira vez.
O espao desordenado estava dividido em duas seces por 
uma grade de madeira. Na seco exterior havia um armrio, 
tambm de madeira, sob o quadro da Justia vendada com uma 
balana na mo. Dentro, duas velhas secretrias, uma em 
frente da outra, uma estante com livros cheios de p e a 
mquina de escrever. Na parede, por cima da escrivaninha do 
juiz, um crucifixo de cobre. Na parede fronteira, uma 
litografia emoldurada: um homem sorridente, gordo e careca, 
com o peito atravessado pela faixa presidencial. Por baixo, 
uma legenda dourada: Paz e Justia." A litografia era a nica 
coisa nova no escritrio.
O escrivo embuou-se com um leno e ps-se a sacudir o 
p das secretrias com um espanador de penas.
- Se no se tapar o nariz, fica-se com catarro - disse 
ele.
O conselho no foi atendido. O juiz Arcadio inclinou-se 
para trs na cadeira giratria, esticando as pernas para 
experimentar as molas.
- Segura-se? - perguntou.
O escrivo acenou afirmativamente com a cabea.
- Quando mataram o juiz Vilela - disse ele - as molas 
saltaram; mas agora j est composta. - E sem
deixar cair o leno que lhe tapava a boca e o nariz, 
acrescentou: - O prprio alcaide a mandou compor quando mudou 
o Governo e comearam a aparecer imvestigadores especiais por 
todos os lados.
- O alcaide quer que o servio funcione - disse o juiz.
Abriu a gaveta do meio, tirou um molho de chaves e foi 
esvaziando as gavetas, uma atrs da outra. Estavam cheias de 
papis. Examinou-os superficialmente, erguendo- os com o 
indicador para estar certo de nada haver ali que lhe chamasse 
a ateno. Depois fechou as gavetas e ordenou os utenslios 
de escrita: um tinteiro de cristal com um recipiente vermelho 
e outro azul e uma caneta para cada recipiente, com a 
respectiva cor. A tinta tinha secado.
- O senhor juiz caiu nas graas do alcaide - disse o 
escrivo.
Movendo-se na cadeira, o juiz perseguiu-o com um olhar 
sombrio, enquanto limpava a tampa da secretria. O outro 
contemplou-o como se tivesse o propsito de nunca o esquecer 
sob aquela luz, naquele instante e naquela posio, e disse 
apontando com o indicador.
- Como o senhor est agora, nem mais nem menos, estava o 
juiz Vilela quando o furaram a tiro.
O juiz tocou na fronte as veias pronunciadas. Voltava a 
dor de cabea.
- Eu estava ali - prosseguiu o escrivo, apontando para 
a mquina de escrever, enquanto passava para o exterior da 
grade. Sem interromper o relato, apoiou-se no corrimo com a 
caneta apontada como uma espingarda contra o juiz Arcadio. 
Parecia um salteador de bancos numa fita de cow-boys. - Os 
trs polcias puseram-se assim. O juiz Vilela mal chegou a 
v-los e ergueu os braos, dizendo muito devagar: No me 
matem. Mas logo a seguir a cadeira saltou para um lado e ele 
para o outro, cosido a chumbo.
O juiz Arcadio apertou o crnio com as mos. Sentia o 
crebro a palpitar. O escrivo tirou o leno que o embuava e 
pendurou o espanador atrs da porta.
- E tudo isso por ter dito, durante uma borracheira, que 
estava aqui para garantir a pureza do sufrgiodisse ele. 
Ficou como que suspenso, olhando o juiz Arcadio que se dobrou 
em cima da secretria com as mos no estmago. 
- Sente-se mal?
O juiz disse que sim. Falou-lhe da noite anterior e 
pediu que lhe trouxesse do salo um analgsico e duas 
cervejas geladas. Quando terminou a primeira cerveja, o juiz 
Arcadio no encontrou no seu corao o menor indcio de 
remorso. Estava lcido.
O escrivo sentou-se diante da mquina de escrever.
- Que fazemos agora? - perguntou.
- Nada - respondeu o juiz.
- Ento, se me d licena, vou procurar a Maria para a 
ajudar a depenar as galinhas.
O juiz ops-se:
- Este  um lugar para administrar justia e no para 
depenar galinhas. - Examinou o seu subalterno de alto a 
baixo, com ar de comiserao, acrescentando:Alm disso, tem 
de deixar em casa esses chinelos e vir para o trabalho com 
sapatos.
Com a aproximao do meio-dia, o calor tornou-se mais 
intenso. Quando bateram as doze, o juiz Arcadio tinha bebido 
uma dzia de cervejas. Navegava nas recordaes. Com uma 
ansiedade sonolenta falava de um passado sem privaes, com 
longos domingos de mar e mulatas insaciveis que faziam amor 
em p, atrs do porto das arrecadaes. A vida era assim, 
ento, dizia, fazendo estalar o polegar e o indicador, 
perante o manso espanto do escrivo que o ouvia sem dizer 
nada, aprovando com a cabea. O juiz Arcadio sentia-se 
embotado, mas cada vez mais vivo nas recordaes.
Quando soou a uma hora na torre, o escrivo deu mostras 
de impacincia.
- A sopa arrefece - disse ele.
O juiz no lhe deu trguas.
- Nem sempre se encontra um homem de talento por estas 
terras - afirmou o juiz, e o escrivo agradeceu-lhe, esgotado 
pelo calor, mudando de posio na cadeira.
Era uma sexta-feira interminvel. Sob as ardentes 
lminas do telhado, os dois homens conversaram ainda mais uma 
boa meia hora enquanto a aldeia se cozinhava no caldo da 
sesta. No extremo do esgotamento, o escrivo fez ento uma 
referncia aos pasquins. O juiz Arcadio encolheu os ombros.
- Tambm tu ests pendente desse pentelho - disse ele, 
tratando-o por tu pela primeira vez.
O escrivo no tinha vontade de prosseguir a conversa, 
extenuado pela fome e pelo calor, mas no acreditou que os 
pasquins fossem um pentelho.
- J causaram o primeiro morto - disse o escrivo.
- Se as coisas continuam assim teremos uma m poca.
- E contou a histria de uma terra que tinha sido liquidada 
numa semana pelos pasquins. Os habitantes acabaram por se 
matar uns aos outros. Os sobreviventes desenterraram e 
levaram consigo os ossos dos seus mortos para estarem certos 
de que nunca mais voltariam.
O juiz ouviu-o com expresso de sarcasmo, desabotoando a 
camisa lentamente enquanto o outro falava. Pensou que o seu 
escrivo tinha tendncia para as histrias de terror.
- Este  um caso extremamente simples de romance 
policial - disse o juiz.
O subalterno acenou com a cabea. O juiz Arcadio contou 
que pertencera, na Universidade, a uma organizao dedicada a 
decifrar enigmas policiais. Cada um dos membros lia um 
romance de mistrio at uma pgina determinada, e aos sbados 
reuniam-se para decifrar o enigma.
- No falhei uma nica vez - disse o juiz. - 
Evidentemente, era favorecido pelo meu conhecimento dos 
clssicos, que tinham descoberto uma lgica da vida capaz de 
penetrar qualquer mistrio. - Apresentou um enigma: um homem 
inscreve-se num hotel s dez da noite, sobe ao seu quarto, e 
na manh seguinte a criada que lhe leva o caf encontra-o 
morto e apodrecido na cama. A autpsia demonstra que o 
hspede que chegara na noite anterior est morto desde h 
oito dias.
O escrivo manifestou-se com um longo rudo de articulaes.
- O que quer dizer que quando chegou ao hotel j tinha sete 
dias de morto - disse o escrivo.
- O conto foi escrito h doze anos - afirmou o
 juiz Arcadio,passando por cima da interrupo - a chave 
tinha sido dada por Heraclito,cinco sculos antes de Cristo.
	
Disps-se a revel-la,mas o escrivo estava exasperado.
- Nunca,desde que o mundo  mundo,se soube quem coloca os 
pasquims - sentenciou com uma latente agressividade.
O juiz Arcadio contemplou-o com os olhos torcidos
e afirmou :
- Aposto que vou descobrir.
- Est apostado.

Rebeca de Ass afogava-se no escaldante quarto da 
casa em frente, a cabea afundada na almofada, tentando 
dormir uma sesta impossvel. Tinha folhas fumadas coladas s 
fontes.
- Roberto - disse ela, dirigindo-se ao marido - no 
abres essa janela. morreremos de calor.
Roberto Ass abriu a janela no momento em que o juiz 
Arcadio abandonava o tribunal.
- Tenta dormir - suplicou  exuberante mulher que jazia 
com os braos abertos sob o dossel de croch cor-de-rosa, 
completamente nua dentro de uma leve camisa de nylon. - 
Prometo-te que no torno a lembrar-me de nada.
Soltou um suspiro.
Roberto Ass, que passara a noite a dar voltas no 
quarto, acendendo um cigarro com a ponta de outro sem poder 
dormir, tinha estado prestes a surpreender, naquela 
madrugada, o autor dos pasquins. Ouvira na frente da sua casa 
o rudo do papel e o repetido roar das mos alisando-o na 
parede. Mas compreendeu o que se passava tarde de mais e o 
pasquim j tinha sido colocado. Quando abriu a janela, a 
praa encontrava-se deserta.
Desde aquele momento at s duas da tarde, quando
prometeu  mulher que no voltaria a lembrar-se do pasquim, 
ela tinha esgotado todas as formas de persuaso para tentar 
apazigu-lo. Props por fim uma frmula desesperada: como 
prova final da sua inocncia, oferecia confessar-se ao padre 
ngel em voz alta e na presena do marido. O simples 
oferecimento daquela humilhao tinha valido a pena. Apesar 
de confuso, ele no se atreveu a dar o passo seguinte e 
capitulou.
-  sempre melhor dizer as coisas - disse ela, sem abrir 
os olhos. - Teria sido um desastre se tivesses ficado 
embuchado, sem desabafar.
Ele ajustou a porta ao sair. Na penumbra da ampla casa, 
completamente fechada, notou o zumbido do ventilador 
elctrico da sua me, que fazia a sesta na casa vizinha. 
Serviu-se de um copo de limonada no frigorfico, sob o olhar 
sonolento da cozinheira negra.
Com o seu fresco ar jovial, a empregada perguntou-lhe se 
queria almoar. Ele destapou a panela. Uma tartaruga inteira 
flutuava de patas para o ar na gua a ferver. Pela primeira 
vez no estremeceu com a ideia de que o animal tinha sido 
lanado vivo na panela, e de que o seu corao continuaria a 
bater quando o levassem es quartejado para a mesa.
- No tenho fome - disse ele, colocando novamente a 
tampa. E acrescentou da porta: - A senhora tambm no vai 
almoar. Passou todo o dia com dor de cabea.
As duas casas comunicavam por meio de um corredor 
de mosaico verde de onde se podia ver o galinheiro de rede de 
arame ao fundo do ptio comum. Na parte do corredor que 
correspondia  sua me, havia vrias gaiolas de pssaros 
penduradas no beiral, e muitos vasos com flores e cores 
intensas.
Na espreguiadeira onde acabava de fazer a sesta, a sua 
filha de sete anos recebeu-o com uma saudao lamentosa. 
Ainda tinha a trama do lenol impressa na face.
- Vo dar as trs - anunciou ele em voz baixa. E 
acrescentou melancolicamente: - Tenta reparar nas coisas.
- Sonhei com um gato de vidro - disse a criana. 
Ele no conseguiu reprimir um leve estremecimento.
- Como era?
- Todo de vidro - respondeu a criana, tentando dar 
forma com as mos ao animal do sonho. - Como um pssaro de 
vidro, mas um gato.
Ele achou-se perdido, em pleno sol, numa cidade 
estranha.
- Esquece - murmurou. - Uma coisa assim no vale a pena. 
- Nesse momento viu a me na porta do quarto e sentiu-se 
resgatado. - Ests melhor - afirmou.
A viva de Ass devolveu-lhe uma expresso amarga.
- Cada dia estou melhor para votar - queixou-se, fazendo 
um rolo com a cabeleira abundante, cor de ferro. 
Saiu para o corredor para mudar a gua das gaiolas.
Roberto Ass deixou-se cair na espreguiadeira onde a 
filha tinha dormido. Com as mos apoiadas na nuca seguiu com 
os seus olhos murchos a ossuda mulher vestida de negro que 
conversava em voz baixa com os pssaros. Mergulhavam na gua 
fresca, salpicando com o seu alegre esvoaar o rosto da 
mulher. Quando acabou o trabalho nas gaiolas, a viva de Ass 
envolveu o filho num halo de incerteza.
- Pensava que estavas no monte - disse ela.
- No fui - respondeu ele. - Tinha algumas coisas a 
fazer.
- E j no irs at segunda-feira.
Ele confirmou, com os olhos. Uma criada negra, descala, 
atravessou a sala com a menina para a levar  escola. A viva 
de Ass permaneceu no corredor at que elas saram. Depois 
fez um sinal ao filho e este seguiu-a at ao amplo quarto 
onde zumbia o ventilador elctrico. Ela deixou- se cair numa 
escalavrada cadeira de balouo, de cip, em frente do 
ventilador, com um ar de extremo esgotamento. Nas paredes, 
branqueadas com cal, pendiam fotografias de meninos antigos, 
em molduras de cobre. Roberto Ass estendeu-se na sumptuosa 
cama, que parecia um trono, onde tinham morrido, decrpitos e 
de mau humor, alguns dos meninos das fotografias, inclusive o 
seu prprio pai, no passado Dezembro.
- Que est a acontecer? - quis saber a viva.
- Acreditas no que dizem as pessoas? - perguntou ele, 
por sua vez.
- Na minha idade acredita-se em tudo - respondeu a 
viva. E perguntou com indolncia: 
- O que  que dizem?
- Que a Rebeca Isabel no  minha filha. 
A viva comeou a mover-se lentamente.
- Tem o nariz dos Ass - disse ela. Depois de pensar um 
momento perguntou, distrada: - Quem disse isso? - 
Roberto Ass mordiscou as unhas.
- Puseram um pasquim.
S ento a viva compreendeu que as olheiras do filho 
no eram o sedimento de uma longa insnia.
- Os pasquins no so as pessoas - sentenciou.
- Mas s dizem o que as pessoas j andam a dizer
- respondeu Roberto Ass -, embora o interessado no o saiba.
Ela, no entanto, sabia tudo o que o povoado tinha dito 
da sua famlia durante muitos anos. Numa casa como a sua, 
cheia de criadas, afilhadas e protegidas de todas as idades, 
era impossvel fechar-se no quarto sem que at a a 
perseguissem os rudos da rua. Os turbulentos Ass, 
fundadores do burgo quando no eram mais do que porqueiros, 
pareciam ter o sangue doce para a murmurao.
- Nem tudo o que se diz  verdade - disse ela -,
mesmo que o interessado o saiba.
- Toda a gente sabe que Rosario de Montero se deitava com 
Pastor - afirmou ele.- Era para ela a sua ltima cano.
- Toda a gente o dizia,mas ningum o soube com toda a certeza 
- retorquiu a viva.- Em troca, agora sabe-se que a cano 
era para Margot Ramrez.Iam-se casar e s ela e a me dele o 
sabiam.Mais lhes valia no terem guardado to ciosamente o 
nico segredo que se conseguiu manter nesta terra.
Roberto Ass olhou a me com uma vivacidade dramtica.
- Houve um momento,esta manh,em que acreditei que ia morrer 
- disse ele. 
A viva no pareceu comovida.
- Os Ass so ciumentos - sentenciou.- Essa foi
a maior desgraa desta casa.
Mantiveram-se longo tempo em silncio.Eram quase
quatro horas e tinha comeado a abrandar o calor.	
Quando Roberto Ass desligou o ventilador elctrico,
toda a casa despertava cheia de vozes de mulher e cantos
de pssaros.
- Chega-me esse frasquinho que est em cima da
mesinha-de-cabeceira - disse a viva.
Tomou dois comprimidos cinzentos e redondos como duas prolas 
artificiais e devolveu o frasco ao filho, dizendo :
- Toma dois; vo ajudar-te a adormecer.- Ele tomou-os com a 
gua que a me tinha deixado no copo,e encostou a cabea na 
almofada.	
A viva suspirou e fez um silncio pensativo.Depois, falando, 
como sempre,genericamente sobre o povoado quando pensava na 
meia dzia de famlias que constituam a sua classe,disse:
- O mal disto tudo  que as mulheres tm de ficar	
sozinhas em casa enquanto os homens andam pelo monte!
Roberto Ass comeava a adormecer. A viva olhou-lhe o queixo 
por barbear, o longo nariz de cartilagens angulosas, e pensou 
no seu falecido marido.
Adalberto Ass tambm tinha conhecido o desespero. Era 
um gigante bravio que em toda a sua vida havia posto um 
colarinho de celulide uma s vez, durante quinze minutos, 
para tirar aquele retrato que lhe sobrevivera na mesinha-de-
cabeceira. Dizia-se dele que tinha assassinado naquele mesmo 
quarto um homem que encontrou deitado com a esposa e o havia 
enterrado clandestinamente no ptio. A verdade era bem 
diferente: Adalberto Ass tinha matado com um tiro de 
espingarda um homem que surpreendera a masturbar-se na trave 
do quarto, com os olhos postos na sua esposa enquanto esta 
mudava de roupa. Tinha morrido quarenta anos mais tarde sem 
ter podido rectificar a lenda.

O padre ngel subiu a empinada escada de degraus 
separados. No segundo andar, ao fundo do corredor com 
espingardas e cartucheiras penduradas na parede, um polcia 
lia, deitado num catre de campanha. Estava to absorto na 
leitura que no reparou na presena do padre seno quando lhe 
ouviu a saudao. Enrolou a revista e sentou-se no catre.
- Que est a ler? - perguntou o padre ngel.
O polcia mostrou-lhe a revista.
- Terry e os Piratas.
O padre examinou com um olhar prolongado as trs celas 
de cimento armado, sem janelas, fechadas do lado do corredor 
com grossas barras de ferro. Na cela do meio, outro polcia 
dormia em cales, deitado numa rede. O padre ngel perguntou 
por Csar Montero.
- Est a - disse o guarda, apontando uma porta fechada. 
-  o quarto do comandante.
- Posso falar com ele?
- Est incomunicvel - disse o polcia. 
O padre ngel no insistiu. Perguntou se o preso estava bem.O 
outro respondeu que lhe tinham destinado o melhor aposento do 
quartel,com boa luz e gua corrente,mas que no comia h 
vinte e quatro horas.Tinha recusado os alimentos que o 
alcaide encomendara no hotel.
- Tem medo de ser envenenado - concluiu o polcia.
- Deviam trazer-lhe a comida de casa - disse o padre.
- No quer que incomodem a mulher.
O padre,como que a falar consigo mesmo,murmurou :
- Falarei disso tudo com o alcaide.- Tentou prosseguir 
at ao fundo do corredor,onde o alcaide tinha mandado 
construir o seu escritrio blindado.
- No est - disse o polcia.- H dois dias que
est em casa,com dores de dentes.
O padre ngel foi visit-lo.Estava prostrado na rede,junto de 
uma cadeira onde havia um copo com gua e sal,uma caixa de 
analgsicos e o cinturo com o revlver.A face continuava 
inchada.O padre ngel trouxe uma cadeira at junto da rede.
- Tem de tirar esse dente - disse o padre.
O alcaide cuspiu gua salgada para uma bacia.
- Isso  muito fcil de dizer - respondeu,ainda
com a cabea inclinada sobre a bacia. 
O padre ngel compreendeu.Disse em voz muito baixa:
- Se me autoriza,eu falo com o dentista.- Inspirou 
profundamente e atreveu-se a acrescentar: -  um
homem compreensivo.
- Como uma mula - disse o alcaide.- Teria de o
quebrar a tiro e ento estaramos na mesma.
O padre ngel seguiu-o com o olhar at  bacia de
lavar as mos.O alcaide abriu a torneira,ps a cara 
inchada debaixo do jorro de gua fresca e manteve-a assim
um instante,com uma expresso de xtase.Depois mastigou 
um analgsico e bebeu gua da torneira,servindo-se das mos.
- A srio - insistiu o padre -, posso falar com o dentista.
O alcaide fez um gesto de impacincia.
- Faa o que quiser, padre.
Deitou-se de barriga para o ar na rede, com os olhos 
fechados e as mos na nuca, respirando num ritmo de clera. A 
dor comeou a ceder. Quando voltou a abrir os olhos, o padre 
ngel contemplava-o em silncio, sentado junto da rede.
- Que o traz por estas terras? - perguntou o alcaide.
- Csar Montero - respondeu o padre, sem prembulos. - 
Aquele homem precisa de se confessar.
- Encontra-se incomunicvel - disse o alcaide. Amanh, 
depois das diligncias preliminares, poder confess-lo. Ser 
despachado na segunda-feira.
-J est preso h quarenta e oito horas - retorquiu o 
padre.
- E eu estou h duas semanas com esta dor de dentes - 
disse o alcaide.
No quarto escuro comeavam a zumbir as melgas. O padre 
ngel olhou pela janela e viu uma nuvem intensamente rosada a 
flutuar por cima do rio.
- E o problema da comida? - perguntou. 
O alcaide saiu da rede para fechar a porta da varanda.
- Eu fiz o meu dever - disse ele. - Ele no quer que 
incomodem a esposa nem recebeu a comida do hotel.
Comeou a fumigar insecticida em todo o quarto. O padre 
Angel procurou um leno no bolso para no espirrar, mas em 
vez do leno encontrou uma carta amarrotada. 
- Ai!, exclamou, tentando alisar a carta com os dedos. 
O alcaide interrompeu a fumigao. O padre tapou o nariz, mas 
foi um gesto intil: espirrou duas vezes.
- Espirre, padre - disse-lhe o alcaide. E sublinhou com 
um sorriso: - Estamos numa democracia.
O padre ngel tambm sorriu. Disse, mostrando o 
sobrescrito fechado :
- Esqueci-me de pr esta carta no correio. 
Encontrou o leno na manga e limpou o nariz irritado pelo 
inseeticida. Continuava a pensar em Csar Montero.
-  como se o tivessem a po e gua - disse o padre.
- Se  isto que ele quer - retorquiu o alcaide -, no 
podemos meter-lhe a comida na boca  fora.
- O que mais me preocupa  a sua conscinciarespondeu o 
padre.
Sem tirar o leno do nariz, seguiu o alcaide com a vista 
atravs do quarto at ele acabar de espalhar o insecticida.
- Deve ter a conscincia pouco tranquila, se teme que o 
envenenem - afirmou o alcaide colocando a bomba-insecticida 
no cho.
- Ele sabe que toda a gente gostava de Pastordisse o 
padre.
- Tambm gostavam todos de Csar Montero - replicou o 
alcaide.
- Mas d-se a casualidade de que quem est morto  o 
Pastor.
O padre contemplou a carta. A luz tornou-se cor de 
malva.
- Pastor - murmurou. - No teve tempo de se confessar.
O alcaide acendeu a luz antes de voltar a deitar-se na 
rede.
- Amanh estarei melhor - disse ele. - Depois da 
diligncia pode confess-lo. Acha bem?
O padre ngel estava de acordo.
-  s para a tranquilidade da conscincia - insistiu. 
Levantou-se com um movimento solene. Recomendou ao alcaide 
que no tomasse muitos analgsicos, e o alcaide correspondeu 
recomendando-lhe que no esquecesse a carta.
- E outra coisa, padre - disse o alcaide. - Apesar de 
tudo, fale l com o tira-dentes. - Olhou o padre que comeava 
a descer a escada, e acrescentou outra vez, sorridente: - 
Tudo isso contribui para a consolidao da paz.

Sentado  porta do seu gabinete, o encarregado dos 
correios via morrer a tarde. Quando o padre Angel lhe deu a 
carta, entrou na sala, humedeceu com a lngua um selo de 
quinze centavos, para o correio areo e a sobretaxa para 
construes. Continuou a remexer na gaveta da secretria. 
Quando as luzes da rua se acenderam, o padre colocou vrias 
moedas em cima do balco e saiu sem se despedir.
O encarregado continuou a verificar o contedo da 
gaveta. Um momento depois, cansado de revolver papis, 
escreveu com tinta num canto do sobrescrito: No h selos de 
cinco." Assinou e ps o carimbo do correio.

Naquela noite, depois do rosrio, o padre ngel 
encontrou um rato morto a flutuar na pia da gua benta. 
Trinidad estava a montar as ratoeiras no baptistrio. O padre 
agarrou o animal pela ponta da cauda.
- Vais provocar uma desgraa - disse ele a Trini dad, 
movendo diante dela o rato morto. - No sabes que alguns 
fiis engarrafam a gua benta para a dar a beber aos seus 
doentes?
- E isso que tem? - perguntou Trinidad.
- Como, que tem? - replicou o padre. - Nada mais nada 
menos que os doentes irem beber gua com arsnico.
Trinidad f-lo lembrar-se de que ainda no lhe tinha 
dado o dinheiro para o arsnico. 
- gesso, disse, e revelou a frmula: tinha posto gesso nos 
cantos da igreja; o rato comeu-o e depois, desesperado com a 
sede, tinha ido beber  pia. A gua solidificou-lhe o gesso 
no estmago.
- De qualquer modo - disse o padre -  melhor que venhas 
buscar as moedas para o arsnico. No quero mais ratos mortos 
a boiarem na gua benta.
Na sacristia, esperava-o uma comisso de senhoras
catlicas, encabeadas por Rebeca de Ass. Depois de
dar a Trinidad o dinheiro para o veneno, o padre fez um
comentrio sobre o calor do lugar e sentou-se  sua mesa de 
trabalho, frente s trs damas que aguardavam em
silncio.
- Estou s vossas ordens,respeitveis senhoras.
Elas entreolharam-se. Rebeca de Ass abriu ento um
leque com uma paisagem japonesa pintada, e disse sem
mistrio :
-  por causa da questo dos pasquins,padre.
Com uma voz sinuosa,como teria contado uma lenda infantil, 
exps o alarme do povo. Disse que embora a
morte de Pastor se devesse interpretar como uma coisa	
absolutamente pessoal, as famlias respeitveis sentiam-se 
obrigadas a ficar preocupadas com os pasquins.
Apoiada no cabo da sua sombrinha,Adalgisa Montoya,a mais 
velha das trs,foi mais explcita:
-Ns,as senhoras catlicas,resolvemos tomar a
peito este assunto.
O padre ngel reflectiu durante um curto momento.
Rebeca de Ass imspirou profundamente,e o padre perguntou a 
si mesmo como era possvel aquela mulher exalar um perfume 
to quente.Era esplndida e floral, de uma brancura 
deslumbrante e uma sade apaixonada.
O padre falou,com o olhar fixo num ponto indefinido:	
- O meu parecer  que no devemos prestar ateno	 voz do 
escndalo.Devemos colocar-nos acima dos seus procedimentos e 
continuar a observar a lei de Deus, como at agora.
Adalgisa Montoya aprovou com um movimento de
cabea.Mas as outras no estiveram de acordo: parecia-lhes 
que esta calamidade poderia vir a provocar consequncias 
funestas".Nesse momento,o altifalante do cinema tossiu.O 
padre ngel deu uma palmadinha na fronte.
-Desculpem - disse ele enquanto procurava na
gaveta a lista da censura catlica.- Qual  a fita de
hoje?
- Piratas do Espao - respondeu Rebeca de Ass.
-  um filme de guerra.
O padre ngel procurou, por ordem alfabtica, murmurando 
fragmentos de ttulos, enquanto percorria com o indicador a 
longa lista classificada. Parou ao voltar a folha.
- Piratas do Espao.
Moveu o indicador horizontalmente para procurar a 
classificao moral, no momento em que ouviu a voz do 
empresrio em vez do disco esperado. Anunciava a suspenso do 
espectculo por causa do mau tempo. Uma das mulheres explicou 
que o empresrio tinha tomado aquela atitude porque o pblico 
exigia a devoluo do dinheiro dos bilhetes se a chuva 
interrompesse a projeco antes do intervalo.
-  pena - disse o padre ngel. - Era bom para todos. - 
Fechou o caderno e prosseguiu: - Como estava a dizer-lhes, 
este povo  cumpridor. H dezanove anos, quando me entregaram 
a parquia, havia onze concubinatos pblicos de famlias 
importantes. Hoje s resta um, e espero que por pouco tempo.
- No  por ns - disse Rebeca de Ass. - Mas essa pobre 
gente...
- No h qualquer motivo para preocupao - disse o 
padre, indiferente  interrupo. -  preciso ver como esta 
terra mudou. Naquele tempo, uma bailarina russa deu aqui um 
espectculo s para homens e no final vendeu em leilo todas 
as roupas e adereos que trazia no corpo.
Adalgisa Montoya interrompeu-o:
- Isso  verdade.
Realmente, ela recordava o escndalo como lhe tinha sido 
contado: quando a bailarina ficou completamente nua, um velho 
comeou a gritar na galeria, e, subindo para o ltimo degrau, 
comeou a mijar em cima do pblico. Tinham-lhe contado que os 
outros, seguindo-lhe o exemplo, haviam acabado por mijar uns 
nos outros no meio de uma gritaria infernal.
- Actualmente - prosseguiu o padre -, est provado que esta 
terra  a mais cumpridora de toda a comunidade catlica.
Insistiu na sua tese. Referiu alguns momentos difceis 
da sua luta contra as debilidades e fraquezas do gnero 
humano, at que as senhoras catlicas deixaram de lhe prestar 
ateno, agoniadas com o calor. Rebeca de Ass abriu de novo 
o leque, e ento o padre ngel descobriu onde se encontrava a 
fonte da sua fragncia. O cheiro a sndalo cristalizou-se no 
torpor da sala. O padre extraiu o leno da manga e levou-o ao 
nariz para no espirrar.
- Ao mesmo tempo - continuou - o nosso templo  o mais 
pobre da comunidade catlica. Os sinos esto rachados e as 
naves cheias de ratos, porque a vida se me gastou a impor a 
moral e os bons costumes. - Desabotoou o colarinho. - O 
trabalho material, qualquer jovem o pode fazer - disse, 
levantando-se. - Em troca  necessria uma tenacidade de 
muitos anos e uma velha experincia para reconstruir a moral.
Rebeca de Ass levantou a sua mo transparente, com a 
aliana matrimonial esmagada por um anel de esmeraldas :
- Digo o mesmo. Ns pensmos que esses pasquins fariam 
com que o seu trabalho fosse perdido.
A nica mulher que ento permanecera em silncio, 
aproveitou a pausa para intervir.
- Alm do mais, pensamos que o pas se encontra em 
recuperao e que esta actual calamidade pode constituir um 
srio inconveniente.
O padre ngel procurou um abano no armrio e comeou a 
abanar-se parcimoniosamente.
- Uma coisa no tem que ver com a outra - disse ele. - 
Atravessmos um momento poltico difcil, mas a moral 
familiar manteve-se intacta. - Olhou de frente as trs 
mulheres. - Dentro de poucos anos irei ao nncio apostlico 
dizer que lhe entrego esta terra exemplar. Agora s falta que 
ele envie para aqui um pastor jovem e empreendedor para 
construir a maior igreja da comunidade. - Fez uma reverncia 
lnguida e exclamou:Poderei ento ir morrer em paz no ptio 
dos meus antepassados.
As senhoras protestaram. Adalgisa Montoya expressou o 
pensamento geral:
- Esta  como se fosse a sua terra, padre. E queremos 
que fique aqui at ao ltimo instante. .
- Se se trata de construir uma nova igreja - disse 
Rebeca de Ass -, podemos comear a campanha desde j.
- Tudo a seu tempo - replicou o padre ngel. De pois, 
noutro tom, acrescentou: - No quero, evidentemente, chegar a 
velho  frente de nenhuma parquia. No quero que me acontea 
o mesmo que ao manso Antonio Isabel del Santssimo Sacramento 
del Altar Castaneda Y Montero, que informou o bispo de que na 
sua parquia estava a cair uma chuva de pssaros mortos. O 
inquiridor enviado pelo bispo encontrou-o na praa da aldeia 
a brincar com as crianas aos polcias e ladres.
As senhoras exprimiram a sua perplexidade.
- Quem era?
- O proco que me sucedeu em Macondo - respondeu o padre 
Angel. - Tinha cem anos.

O Inverno, cuja inclemncia tinha sido prevista desde os 
ltimos dias de Setembro, implantou o seu rigor naquele fim- 
de-semana. O alcaide passou o domingo a mastigar analgsicos 
deitado na rede, enquanto o rio, sado do leito, causava 
estragos nos bairros mais baixos.
Na primeira trgua da chuva, quando a segunda-feira 
amanheceu, o povoado gastou vrias horas para se 
restabelecer. O salo de bilhar e a barbearia abriram muito 
cedo, mas a maioria das casas permaneceu fechada at s onze 
horas. O senhor Carmichael foi o primeiro a quem se ofereceu 
a oportunidade de estremecer perante o espectculo dos homens 
que transportavam as suas casas para os terrenos mais altos. 
Grupos buliosos tinham desenterrado as vigas de suporte e 
transportavam inteiras as casas simples feitas de materiais 
leves e telhados de palma.
Abrigado debaixo do beiral da barbearia, com o guarda-
chuva aberto, o senhor Carmichael contemplava a laboriosa 
manobra quando o barbeiro o tirou da sua abstraco.
- Devem ter estado  espera que estiasse - disse o 
barbeiro.
- No vai estiar nestes dois dias - retorquiu o senhor 
Carmichael, fechando o guarda-chuva. - Esto a os meus calos 
a avisar-me.
Os homens que transportavam as casas, mergulhados
na lama at aos tornozelos, passaram, tropeando contra as 
paredes da barbearia. O senhor Carmichael viu pela janela o 
desmantelado interior, um quarto inteiramente despojado da 
sua intimidade, e sentiu-se invadido por uma sensao de 
desastre.
Pareciam seis da manh, mas o seu estmago dava-lhe 
indicao de que ia bater o meio- dia. O srio Moiss 
convidou-o a sentar-se na sua loja, esperando que passasse a 
chuva. O senhor Carmichael repetiu o prognstico de que no 
estaria nas prximas vimte e quatro horas. Hesitou antes de 
saltar o passeio da casa contgua. Um grupo de rapazinhos que 
brincava s guerras atirou uma bola de terra enlameada que se 
esmagou na parede, a poucos metros das suas calas acabadas 
de passar a ferro. O srio Elas saiu da loja com uma escova 
na mo, ameaando os rapazinhos com uma lgebra de rabe e 
castelhano.
Os meninos saltaram de contentes:
- Turco nojento!
O senhor Carmichael verificou que a sua roupa estava 
intacta. Ento fechou o guarda-chuva e entrou na barbearia, 
indo directamente para a cadeira.
- Eu sempre disse que o senhor  um homem prudente - 
afirmou o barbeiro.
Amarrou-lhe uma toalha ao pescoo. O senhor Car michael 
aspirou o odor da alfazema que lhe provocava o mesmo mal-
estar que os vapores glaciais do gabinete do dentista. O 
barbeiro comeou por acertar na nuca o recorte do cabelo. 
Impaciente, o senhor Carmichael procurou com o olhar alguma 
coisa para ler.
- No h jornais?
- J s restam no pas os jornais do Governo e esses no 
entram neste estabelecimento enquanto eu for vivo.
O senhor Carmichael conformou-se com a ideia de 
contemplar os seus sapatos, at que o barbeiro lhe perguntou 
pela viva de Montiel. Vimha de casa dela. Era o 
administrador dos negcios da viva desde que morrera Don 
Chepe Montiel, de quem fora contabilista durante muitos anos.
- L est - disse o senhor Carmichael.
- Uma pessoa mata-se a trabalhar - murmurou o barbeiro, 
como que falando consigo mesmo - e ela sozinha com terras que 
no se atravessam em cinco dias a cavalo. Deve ser dona de 
uns dez municpios.
- De trs - corrigiu o senhor Carmichael. E acrescentou, 
convicto: - E a melhor mulher do mundo.
O barbeiro moveu-se em direco ao toucador para limpar 
o pente. O senhor Carmichael viu-lhe a cara de cabrito 
reflectida no espelho, e compreendeu uma vez mais a razo por 
que no gostava dele. O barbeiro falou, olhando a imagem.
- Lindo negcio: o meu partido est no poder, a Polcia 
ameaa de morte os meus adversrios polticos, e eu compro as 
terras deles e o gado ao preo que eu mesmo proponho.
O senhor Carmichael baixou a cabea. O barbeiro aplicou-
se novamente no corte de cabelo.
- Quando as eleies acabam sou dono de trs municpios, 
no tenho competidores, e de passagem continuo com o peclio 
na manga, embora mude o Governo. Por isso digo: melhor 
negcio do que esse, nem o de fabricar notas falsas.
- Jos Montiel era rico muito antes de terem comeado as 
lutas polticas - afirmou o senhor Carmichael.
- Sentado em cales - disse o barbeiro -  porta de um 
armazm de arroz. A histria reza que calou o seu primeiro 
par de sapatos aos nove anos.
- E mesmo que assim fosse - admitiu o senhor Carmichael 
-, a viva no teve nada a ver com os negcios de Montiel.
- Fez vista grossa - disse o barbeiro.
O senhor Carmichael levantou a cabea. Tornou mais 
folgada a toalha no pescoo, para activar a circulao.
- Por isso preferi sempre que o cabelo me fosse cortado 
pela minha mulher - protestou. - No me leva nada e por 
acrscimo no me fala de poltica.
O barbeiro continuou a trabalhar, agora em silncio,
empurrando-lhe a cabea para diante. Por vezes fazia soar as 
tesouras no ar para descarregar um excesso de virtuosismo. O 
senhor Carmichael ouviu gritos na rua. Olhou pelo espelho: 
crianas e mulheres passavam diante da porta com os mveis e 
utenslios das casas transportadas. Comentou com rancor:
- A misria est a comer-nos e vocs a tratar de manter 
os dios polticos. H mais de um ano que acabou a 
perseguio e ainda se fala do mesmo.
- O abandono a que nos votaram tambm  perseguio - 
disse o barbeiro.
- Mas no nos do pauladas - protestou o senhor 
Carmichael.
- Abandonarem-nos ao deus-dar tambm  uma maneira de 
nos darem pauladas.
O senhor Carmichael exasperou-se:
- Isso  literatura de cordel.
O barbeiro manteve-se em silncio. Fez espuma numa 
tacinha e passou-a com o pincel na nuca do senhor Carmichael.
- , que a necessidade de falar rebenta - desculpou-se. 
- Nem todos os dias se encontra um homem imparcial.
- Com onze filhos para alimentar no h homem que no 
seja imparcial - disse o senhor Carmichael.
-  verdade - concordou o barbeiro.
Fez cantar a navalha na palma da mo. Barbeou a nuca em 
silncio, limpando o sabo com os dedos, e limpando depois os 
dedos nas calas. Por fim passou na pele da nuca uma pedra de 
alume. Terminou a tarefa em silncio.
Quando abotoava o colarinho, o senhor Carmichael viu o 
aviso pregado na parede do fundo: ? proibido falar de 
poltica." Sacudiu as pontas de cabelos dos om bros, pendurou 
o guarda-chuva no brao e perguntou, apontando para o aviso:
- Porque no o tira dali?
- Aquilo no  consigo - disse o barbeiro. - J estamos 
de acordo que o senhor  um homem imparcial.
O senhor Carmichael no hesitou, desta vez, em saltar o 
passeio. O barbeiro ficou a olh-lo at que ele dobrou a 
esquina. Depois extasiou-se a ver o rio turvo e ameaador. A 
chuva tinha parado, mas por cima do povoado, imvel, 
mantinha-se uma nuvem carregada. Um pouco antes da uma hora 
entrou na barbearia o srio Moiss, lamentando-se que o 
cabelo lhe casse tanto no crnio e, em troca, lhe crescesse 
na nuca com extraordinria rapidez.
O srio cortava o cabelo todas as segundas-feiras. 
Normalmente dobrava a cabea com uma espcie de fatalismo e 
ressonava em rabe enquanto o barbeiro falava em voz alta 
consigo mesmo. Naquela segunda-feira, no entanto, acordou em 
sobressalto  primeira pergunta.
- Sabe quem esteve aqui?
- Carmichael - respondeu o srio.
- O desgraado do negro Carmichael - confirmou o 
barbeiro, como se tivesse soletrado a frase. - Detesto essa 
espcie de homens.
- Carmichael no  um homem - disse o srio Moiss. - 
Deve haver uns trs anos que no compra um par de sapatos. 
Mas, em poltica, faz o que se deve fazer: leva a 
contabilidade com os olhos fechados.
Apoiou a barba no peito para ressonar de novo, mas o 
barbeiro plantou-se diante dele com os braos cruzados, 
dizendo :
- Diga-me uma coisa, turco de merda: ao fim e ao cabo de 
que lado est?
- Estou comigo - respondeu o srio, inaltervel.
- Faz mal - disse o barbeiro. - Pelo menos no devia 
esquecer as quatro costelas que partiram ao filho do seu 
compatriota Elas, por conta de Don Chepe Montiel.
- Elas tem to mau feitio que o filho lhe saiu poltico 
- disse o srio. - Mas agora o rapaz est a danar o samba no 
Brasil e Chepe Montiel est morto.

Antes de abandonar o quarto, desarmado pelas longas 
noites de sofrimento, o alcaide barbeou-se do lado
direito e deixou no esquerdo a barba de oito dias. Vestiu 
depois o uniforme lavado, calou as botas de charo e desceu 
para almoar no hotel aproveitando a trgua da chuva.
No estava ningum na sala de jantar. O alcaide abriu 
caminho atravs das mesinhas de quatro lugares e sentou-se no 
lugar mais discreto, no fundo da sala.
- Mscaras - chamou.
Veio  sala uma rapariga muito jovem, com vestido curto 
e ajustado e seios como pedras. O alcaide pediu o almoo sem 
a olhar. No regresso  cozinha, a rapariga ligou o aparelho 
de rdio colocado numa prateleira no fundo da sala. Ouviu-se 
um boletim noticioso, com citaes do discurso pronunciado na 
noite anterior pelo presidente da Repblica, e depois uma 
lista de novos artigos sujeitos  proibio de importao.  
medida que a voz do locutor enchia o ambiente, o calor 
tornou-se mais intenso. Quando a rapariga voltou com a sopa, 
o alcaide tentava conter o suor abanando-se com o bon.
- A mim, o rdio tambm me faz suar - disse a rapariga.
O alcaide comeou a comer a sopa. Tinha pensado sempre 
que aquele hotel solitrio, sustentado por caixeiros-
viajantes ocasionais, era um lugar diferente do resto da 
aldeia. Na realidade, era anterior  aldeia. Na sua 
escalavrada e ampla varanda de madeira, os comerciantes que 
vinham do interior para comprar a colheita de arroz passavam 
a noite a jogar cartas, esperando a frescura da madrugada 
para poderem dormir. O prprio coronel Aureliano Buenda, que 
ia discutir em Macondo os termos da capitulao da ltima 
guerra civil, dormiu uma noite naquela varanda, numa poca em 
que no havia povoaes em muitas lguas em redor. Era ento 
a mesma casa com paredes de madeira e telhado de zinco, com a 
mesma sala de jantar e as mesmas divisrias de carto nos 
quartos, apenas sem luz elctrica nem sanitrios. Um velho 
caixeiro-viajante contava que at ao incio do sculo havia 
uma coleco de mscaras penduradas na sala  disposio dos 
clientes, e que, utilizando-as, os hspedes, mascarados, 
faziam as suas necessidades no ptio, diante de toda a gente.
O alcaide teve de desabotoar o colarinho para acabar a 
sopa. Depois do noticirio, o rdio transmitiu anncios em 
verso. Depois um bolero sentimental. Um homem de voz 
mentolada, morto de amor, tinha decidido dar a volta ao mundo 
em perseguio de uma mulher. O alcaide prestou ateno  
msica, enquanto esperava o resto da comida, at que viu 
passar diante do hotel dois meninos com duas cadeiras e um 
bero. Atrs, duas mulheres e um homem com panelas, 
alguidares e peas de mobilirio. Saiu  porta, gritando:
- Onde  que roubaram essas tralhas?
As mulheres pararam. O homem explicou que estavam a 
mudar a casa para terrenos mais altos. O alcaide perguntou 
para onde a tinham levado e o homem apontou para sul com o 
chapu.
- L para cima, para um terreno que Don Sabas nos alugou 
por trinta pesos.
O alcaide examinou os mveis. Um misturador 
desarticulado, panelas em mau estado: coisas de gente pobre. 
Reflectiu um momento. Finalmente disse:
- Levem essas coisas e todos os vossos pertences para 
aquele terreno que est desocupado, junto do cemitrio.
O homem ficou espantado.
- So terrenos do municpio - disse o alcaide - e no 
lhes vo custar nada. O municpio oferece. - Depois 
dirigindo-se s mulheres, acrescentou: - E digam a Don Sabas 
que eu mando dizer que no seja ladro.
Acabou o almoo sem saborear os alimentos. Depois 
acendeu um cigarro. Acendeu outro com a ponta do primeiro e 
esteve muito tempo pensativo, com os cotovelos apoiados na 
mesa, enquanto o rdio moa boleros sentimentais.
- Em que pensa? - perguntou a rapariga, ao levantar os 
pratos vazios.
O alcaide no pestanejou:
- Nessa pobre gente.
Ps o bon e atravessou a sala. Voltando-se, ao chegar  
porta, disse:
-  preciso transformar esta terra num espao decente.
Uma sangrenta luta de ces interrompeu-lhe a passagem ao 
voltar a esquina. Viu um novelo de costelas e patas num 
torvelinho de uivos, e depois uns dentes com plo e um co a 
arrastar uma pata, com o rabo entre as pernas. O alcaide 
passou de lado e continuou pelo passeio at ao comando da 
Polcia.
Uma mulher gritava no calabouo, enquanto o guarda fazia 
a sesta, deitado de bruos, num catre. O alcaide deu um 
pontap na perna do catre. O guarda acordou em sobressalto.
- Quem ? - perguntou o alcaide.
O guarda ps-se em sentido.
- A mulher que punha os pasquins.
O alcaide desatou a vociferar contra os seus 
subalternos. Queria saber quem prendera a mulher e por ordem 
de quem a tinham metido no calabouo. Os agentes deram-lhe 
uma explicao dispendiosa.
- Quando a prenderam?
Tinham-na encarcerado durante a noite de sbado.
- Pois ela sai e entra um de vocs - gritou o alcaide. - 
Essa mulher dormiu no calabouo e a terra apareceu esta manh 
cheia de papis.
To depressa como se abriu a pesada porta de ferro, uma 
mulher de idade madura, de ossos pronunciados e com um puxo 
monumental seguro por uma peineta, saiu do calabouo aos 
gritos.
- Vai pr caraho - disse-lhe o alcaide. A mulher soltou 
o cabelo, sacudiu vrias vezes a cabeleira longa e abundante, 
e desceu a escada como um tiro, gritando: Puta, puta." O 
alcaide inclinou-se por cima do varandim e gritou com todo o 
poder da sua voz, para que o ouvissem no s a mulher e os 
seus agentes, mas tambm toda a povoao:
- E no continuem a foder-me com os papelinhos.

Embora a chuvinha persistisse, o padre ngel saiu para 
dar o seu passeio da tarde. Ainda era cedo para o encontro 
com o alcaide, de modo que foi at  zona das inundaes. S 
encontrou o cadver de um gato a flutuar entre as flores.
No regresso, a tarde comeou a secar. Tornou-se intensa 
e brilhante. Uma barcaa coberta de tela asfltica descia o 
rio espesso e imvel. De uma casa meio destruda saiu uma 
criana a gritar que tinha encontrado o mar dentro de uma 
concha. O padre ngel aproximou a concha do ouvido. Com 
efeito, ali estava o mar.
A mulher do juiz Arcadio estava sentada  porta de casa, 
como que em xtase, com os braos cruzados no ventre, de 
olhos fixos na barcaa. Trs casas mais adiante comeavam os 
armazns, os mostrurios de quinquilharias e os srios 
impvidos sentados s portas. A tarde morria em nuvens cor-
de-rosa intenso e no alvoroo dos papagaios e dos micos da 
margem oposta.
As casas comeavam a abrir-se. Sob as sujas amendoeiras 
da praa, rodeando os carrinhos de refrescos ou nos bancos de 
granito carcomidos, os homens reuniam-se para conversar. O 
padre ngel pensava que todas as tardes, nesse momento, a 
terra sofria o milagre da transfigurao.
- Padre, lembra-se dos prisioneiros dos campos de 
concentrao?
O padre ngel no viu o doutor Giraldo, mas imaginou-o a 
sorrir atrs da janela iluminada. No se lembrava, 
honestamente, das fotografias, mas estava certo de um dia as 
ter visto.
-Venha at  sala de espera - disse o mdico. 
O padre ngel empurrou a porta de rede de arame. Estendida 
numa esteira estava uma criatura de sexo indefinido, apenas 
os ossos forrados com uma pele amarelada. Dois homens e uma 
mulher esperavam, sentados contra o biombo. O padre no 
sentiu nenhum cheiro, mas pensou que aquele ser devia exalar 
um fedor imenso.
- Quem ? - perguntou.
- O meu filho - respondeu a mulher. E acrescentou, 
como se estivesse a desculpar-se: - Tem h dois anos uma 
caganeirinha de sangue.
O doente moveu os olhos na direco da porta, sem 
mover a cabea. O padre sentiu uma piedade aterrorizada.
- E que lhe fizeram? - perguntou.
- Faz tempo que lhe estamos a dar banana 
verderespondeu a mulher -, mas no a quer, apesar de ser um 
petisco to bom.
- Tm de o levar, para que se confesse - disse o 
padre.
Mas disse-o sem convico. Fechou a porta 
cuidadosamente e raspou com a unha a rede da janela, 
aproximando a cara para ver o mdico no interior. O doutor 
estava a triturar algo num almofariz.
- Que tem ele? - perguntou o padre.
- Ainda no o examimei - respondeu o mdico, 
comentando, pensativo: - So coisas que acontecem s pessoas 
pela vontade de Deus, padre.
O padre ngel passou por alto o comentrio:
- Nenhum dos mortos que vi na minha vida parecia 
to morto quanto esse rapaz.
Despediu-se. No havia embarcaes no porto. Comeava a 
escurecer. O padre ngel compreendeu que a sua disposio se 
tinha alterado com a vista do doente.
Reparou subitamente que estava atrasado para o encontro 
e apressou o passo para a esquadra da Polcia.
O alcaide estava derrubado numa cadeira, com a 
cabea entre as mos.
- Boa tarde - disse o padre, muito devagar. 
O alcaide levantou a cabea e o padre estremeceu perante 
aqueles olhos avermelhados pelo desespero. Tinha uma face 
fresca e barbeada, mas a outra era uma selva mergulhada numa 
pomada cor de cinza. Exclamou, com um queixume surdo:
- Padre,vou dar um tiro em mim mesmo.
O padre ngel sentiu uma verdadeira consternao.
- Est a intoxicar-se com tanto analgsico - disse
ele.
O alcaide foi a arrastar os ps at  parede,e com o
cabelo agarrado com as duas mos bateu violentamente
com a cabea contra as tbuas.O padre nunca tinha 
testemunhado tanta dor.
- Tome mais dois comprimidos - disse ele,propondo 
conscientemente um remdio para a sua prpria perturbao.- 
Com mais dois ainda no morrer.
No s o era realmente,como tinha plena conscincia de ser 
desajeitado perante a dor humana.Procurou os analgsicos com 
o olhar,no espao vazio da sala.Encostados contra a parede 
havia meia dzia de tamboretes de couro,um armrio de vidro 
cheio de papis poeirentos e uma litografia do presidente da 
Repblica,pendurada num prego.Dos analgsicos,s restavam 
embalagens vazias espalhadas pelo cho.
- Onde esto? - perguntou,desesperado.
-J no me fazem efeito - respondeu o alcaide.
O proco aproximou-se,repetindo:
- Diga-me onde esto.- 
O alcaide teve um estremeo violento e o padre viu uma cara 
enorme e monstruosa a poucos centmetros dos seus olhos.
- Caramba - gritou o alcaide.- J disse que no
me fodam.
Ergueu um dos tamboretes por cima da cabea e lanou-o 
com toda a fora contra o armrio de vidro.
O padre s compreendeu o que acontecera depois do
instantneo granizo de vidro,quando o alcaide comeou
a surgir como uma serena apario entre a nvoa de
poeira.Nesse momento havia um silncio perfeito.
- Tenente - murmurou o padre.
Na porta do corredor estavam os polcias com as 
espingardas aperradas.O alcaide olhou-os sem ver,respirando 
como um gato,e eles baixaram as armas,mas permaneceram 
imveis junto da porta.O padre ngel conduziu o alcaide pelo 
brao at  cadeira de dobrar.
- Onde esto os analgsicos? - insistiu. 
O alcaide fechou os olhos e lanou a cabea para trs :
- No tomo mais porcarias. Os ouvidos zumbem-me e os 
ossos do crnio esto a adormecer. - Na curta trgua da dor 
voltou a cabea para o padre e perguntou:
- Falou com o tira-dentes?
O padre acenou afirmativamente, em silncio. Pela 
expresso que se seguiu quela resposta, o alcaide percebeu o 
resultado da entrevista.
- Porque no vai falar com o doutor Giraldo? props o 
padre. - H mdicos que arrancam dentes.
O alcaide demorou a responder.
- Ele dir que no tem pinas - disse. E acrescentou: - 
 uma conspirao.
Aproveitou a trgua para repousar um pouco daquela tarde 
implacvel. Quando abriu os olhos, o quarto estava na 
penumbra. Disse, sem ver o padre ngel:
- Vinha por causa do Csar Montero? - No ouviu qualquer 
resposta. - Com esta dor no pude fazer nada - prosseguiu. 
Levantou-se para acender a luz e a primeira vaga de insectos 
entrou pela varanda. O padre Angel sofreu o sobressalto da 
hora.
- O tempo vai passando - afirmou o padre.
- De qualquer maneira, na quarta-feira ter que ser 
enviado - disse o alcaide. - Amanh arranja-se o que tiver de 
se arranjar, e confessa-o  tarde.
- A que horas?
- s quatro.
- Mesmo que esteja a chover?
O alcaide descarregou num nico olhar toda a impacincia 
reprimida em duas semanas de sofrimento.
- Mesmo que o mundo esteja a acabar, padre.
A dor tinha-se tornado invulnervel aos analgsicos. O 
alcaide pendurou a rede na varanda do seu quarto, tentando 
dormir na frescura da primeira noite. Mas antes das oito 
sucumbiu de novo ao desespero e desceu  praa que estava sob 
o letargo de uma densa onda de calor.
Depois de vaguear pelos arredores sem encontrar a 
inspirao de que necessitava para se sobrepor  dor, entrou 
no cinema. Foi um erro. O zumbir dos avies de combate 
aumentou a intensidade da dor. Abandonou o cinema e foi  
farmcia, no momento em que Don Lalo Moscote se dispunha a 
fechar as portas.
- D-me o mais forte que tenha contra a dor de dentes.
O farmacutico examinou-lhe a boca com uma expresso de 
assombro. Depois foi at ao fundo do estabelecimento, 
passando por uma dupla fila de armrios com portas de vidro 
completamente cheios de frasquinhos de cermica, cada um com 
o nome do produto gravado em letras azuis. Ao v-lo de 
costas, o alcaide compreendeu que aquele homem de nuca rolia 
e rosada podia estar a viver um instante de felicidade. 
Conhecia-o. Estava instalado em dois quartos no fundo da 
farmcia, e a esposa, uma mulher muito gorda, encontrava-se 
paraltica havia muitos anos.
Don Lalo Moscote voltou ao balco com um frasquinho de 
loua sem etiqueta. Ao tirar a tampa, o frasco libertou um 
perfume de ervas doces.
- O que  isso?
O farmacutico mergulhou os dedos entre as sementes 
secas do frasco.
- Mastruo - respondeu. - Mastigue-o bem e engula a 
saliva pouco a pouco: no h nada melhor para a secreo. - 
Ps vrias sementes na palma da mo e disse, olhando o 
alcaide por cima dos culos: - Abra a boca.
O alcaide esquivou-se. Fez girar o frasco para se 
convencer de que nada havia escrito, e voltou a fixar o olhar 
no farmacutico.
- D-me qualquer coisa estrangeira - pediu.
- Isto  melhor do que qualquer coisa estrangeira
- disse Don Lalo Moscote. - Est garantido por trs mil anos 
de sabedoria popular.
Comeou a envolver as sementes num pedacinho de jornal. 
No parecia um pai de famlia, embrulhando o mastruo com a 
habilidade afectuosa com que se faz um papagaio de papel para 
as crianas. Quando levantou a cabea tinha comeado a 
sorrir.
- Porque no o tira?
O alcaide no respondeu. Pagou com uma nota e saiu da 
farmcia sem esperar o troco.
J passava da meia-noite e continuava a rebolar-se na 
rede sem se atrever a mastigar as sementes. Por volta das 
onze da manh, o pico culminante do calor, tinha- se 
precipitado um aguaceiro que se transformou depois numa 
chuvinha tnue. Esgotado pela febre, tremendo no suor 
pegajoso e gelado, o alcaide deitou-se de bruos na rede, 
abriu a boca e comeou a rezar mentalmente. Rezou a fundo, 
com os msculos tensos no espasmo final, mas consciente de 
que quanto mais lutava para conseguir o contacto com Deus, 
mais a dor o empurrava no sentido contrrio. Ento calou as 
botas e a gabardina e foi at ao comando da Polcia.
Irrompeu, vociferando. Enredados numa mistura de sono e 
pesadelo, os agentes atropelaram-se no corredor, na 
escurido, em busca das armas. Quando se acenderam as luzes 
estavam meio vestidos,  espera das ordens.
- Gonzlez, Rovira, Peralta - gritou o alcaide.
Os trs nomeados destacaram-se do grupo e rodearam o 
tenente. No havia uma razo visvel que justificasse a 
seleco: eram trs mestios vulgares. Um deles, de feies 
infantis, de cabea rapada, estava em camisola interior de 
flanela. Os outros dois vestiam a mesma camisola debaixo do 
dlman desabotoado.
No receberam uma ordem precisa. Saltando os degraus 
quatro a quatro atrs do alcaide, saram do edifcio em fila 
indiana; atravessaram a rua sem se preocuparem com a chuvinha 
e pararam diante do consultrio do dentista. Com duas cargas 
destruram a porta  coronhada.
J se encontravam no interior da casa,quando as luzes
da entrada se acenderam.Um homem pequeno e calvo,
com os tendes  flor da pele,apareceu em cuecas na
porta do fundo,tentando enfiar um roupo.No primeiro 
momento ficou paralisado,com um brao no ar e a
boca aberta,como no instantneo de um fotgrafo.Depois deu um 
salto para trs e chocou com a mulher que saa do quarto em 
camisa de dormir.
- Quietos - gritou o alcaide.
A mulher fez Ai!" com a mo na boca e retrocedeu,
entrando no quarto.O dentista dirigiu-se  entrada,
apertando o cordo do roupo e s ento reconheceu os
trs polcias que lhe apontavam as espingardas,e o 
alcaide que gotejava gua por todo o corpo,tranquilo,com
as mos nos bolsos da gabardina.
- Se a senhora sair do quarto,h ordem para lhe
darem um tiro - disse o tenente.
O dentista agarrou o fecho da porta,dizendo para
dentro: Ouviste?" e ajustou com um gesto meticuloso
a porta do quarto.Depois dirigiu-se ao 
consultrio,vigiado atravs do descolorido mobilirio de 
verga pelos olhos fumados das espingardas.Dois agentes 
adiantaram-se,entrando  frente dele: um deles acendeu a luz;
o outro foi directamente  mesa de trabalho e tirou um
revlver da gaveta.
- Deve haver outro - disse o alcaide.
Tinha entrado em ltimo lugar,atrs do dentista.Os
dois polcias fizeram uma revista conscienciosa e 
rpida,
enquanto o terceiro guardava a porta.Voltaram em cima
da mesa a caixa dos instrumentos,dispersaram pelo cho
moldes de gesso,dentaduras postias por acabar,dentes
soltos e envoltrios de ouro; esvaziaram os frascos de
loua do armrio e estriparam com cortes rpidos a 
almofada da cadeira giratria e o assento de molas.
-  um trinta e oito de cano comprido - precisou
o alcaide,e dirigindo-se ao dentista: -  melhor que
diga de uma vez onde est.No vimos dispostos a destruir 
a casa.- Atrs dos culos com aro de ouro,os olhos pequenos e 
apagados do dentista no revelaram nada.
- Por mim no h problema - respondeu o dentista, 
de um modo repousado -; podem continuar a destruir o que 
quiserem, se isso lhes d na gana.
O alcaide reflectiu. Depois de examinar uma vez 
mais o gabinete feito com tbuas sem serem aplainadas, 
avanou para a cadeira dando ordens cortantes aos seus 
agentes. Colocou um na porta da rua, outro na entrada do 
consultrio, e o terceiro junto da janela. Quando se acomodou 
na cadeira, s ento desabotoando o impermevel molhado, 
sentiu-se rodeado de metais frios. As pirou profundamente o 
ar impregnado de creosoto e apoiou a cabea, tentando regular 
a respirao. O dentista apanhou do cho alguns instrumentos 
e p-los a ferver numa caarola.
Permaneceu de costas para o alcaide, contemplando o 
lume azul com a mesma expresso que teria se estivesse 
sozinho no gabinete. Quando a gua ferveu, envolveu o cabo da 
caarola num papel e levou-a para a cadeira. A passagem 
estava obstruda por um dos polcias. O dentista baixou a 
caarola para poder ver o alcaide por cima do fumo e disse:
- Ordene a este assassino que se ponha onde no 
estorve.
A um sinal do alcaide, o agente afastou-se da 
janela para libertar a passagem para a cadeira. Rodou um 
assento contra a parede e sentou-se com as pernas abertas, a 
espingarda atravessada nas coxas, sem descurar a vigilncia. 
O dentista acendeu a lmpada. Deslumbrado pela claridade 
repentina, o alcaide fechou os olhos e abriu a boca. A dor 
tinha cessado.
O dentista localizou o dente culpado, afastando com o 
indicador a face inflamada e orientando a lmpada mvel com a 
outra mo, completamente insensvel  respirao ansiosa do 
paciente. Depois enrolou a manga at ao cotovelo e disps-se 
a arrancar o dente. O alcaide agarrou-o pelo pulso e ordenou:
- Anestesia.
Os olhares deles encontraram-se pela primeira vez.
- Vocs matam sem anestesia - retorquiu ento o 
dentista, com voz muito calma.
O alcaide no notou na mo que apertava o gatilho nenhum 
esforo para se libertar.
- D-me a anestesia - ameaou. 
O polcia colocado no canto moveu o cano para eles e ambos 
perceberam o rudo da espingarda a ser montada.
- Suponha que no h - disse o dentista. 
O alcaide soltou o pulso do outro.
- Tem de haver - respondeu, examinando com um interesse 
desconsolado as coisas espalhadas pelo cho. 
O dentista olhou-o com uma ateno compassiva. Depois 
empurrou-lhe a cabea para a almofada e, dando pela primeira 
vez mostras de impacincia, disse:
- Deixe de ser medroso, tenente; com esse abcesso no h 
anestesia que valha.
Passado o momento mais terrvel da sua vida, o alcaide 
afrouxou a tenso muscular e permaneceu exausto na cadeira, 
enquanto as manchas escuras pintadas pela humidade no tecto 
liso se lhe fixavam na memria at  morte. Sentiu o dentista 
lavar as mos na bacia. Sentiu-o repor no seu lugar as 
gavetas da mesa e recolher em silncio alguns dos objectos 
espalhados no cho.
- Rovira - chamou o alcaide. - Diga a Gonzlez que entre 
e apanhem as coisas do cho at deixar tudo como encontraram.
Os homens executaram a ordem. O dentista prensou o 
algodo com as pinas, empapou-o num lquido cor de ferro e 
colocou-o no abcesso. O alcaide sentiu uma sensao de ardor 
superficial. Depois de o dentista lhe fechar a boca, 
continuou com a vista fixa no tecto, pendente do rudo que os 
agentes faziam ao tentarem reconstituir de memria a ordem 
minuciosa do consultrio. A torre badalou as duas horas. Um 
alcaravo, com um minuto de atraso, repetiu a hora no 
murmrio da chuvinha. Um momento depois, sabendo que tinham
terminado, o alcaide ordenou por gestos, aos seus homens, que 
regressassem ao comando.
O dentista tinha permanecido junto da cadeira durante 
todo o tempo. Quando os outros saram, retirou o tampo da 
gengiva, explorando depois com a lmpada o interior da boca. 
Voltou a ajustar as mandbulas e afastou a luz. Tudo tinha 
terminado. No abafado consultrio ficava ento essa estranha 
insipidez que s conhecem os arrumadores de um teatro depois 
da sada do ltimo actor.
- Mal-agradecido - disse o alcaide.
O dentista meteu as mos nos bolsos do roupo e deu um 
passo atrs para o deixar passar.
- Havia ordem de arrasar a casa - prosseguiu o alcaide, 
procurando-o com o olhar atrs do cone de luz.
- Havia instrues precisas para encontrar armas e munies e 
documentos com os pormenores de uma conspirao nacional. - 
Fixou no dentista os olhos ainda hmidos e acrescentou: - Eu 
achei que fazia bem desobedecendo s ordens, mas estava 
enganado. Agora as coisas mudam, a oposio tem garantias e 
toda a gente vive em paz, mas voc continua a pensar como um 
conspirador. - O dentista secou com a manga a almofada da 
cadeira e verificou que no tinha sido destruda.A sua 
atitude prejudica a terra - prosseguiu o alcaide, apontando a 
almofada, sem se preocupar com o olhar apreensivo que o 
dentista dirigiu  sua boca. - Agora tem o municpio de pagar 
todas estas tralhas, alm do conserto da porta da rua. Um 
dinheiro, tudo por causa da sua m vontade.
- No se esquea de bochechar com gua de alforva
- disse o dentista.
 
O juiz Arcadio consultou o dicionrio da estao do 
telgrafo, pois no seu faltavam algumas pginas. No ficou 
muito esclarecido: Nome de um sapateiro de Roma, famoso pelas 
stiras que compunha contra toda a gente", e outras precises 
sem importncia. Com a mesma justia histrica, pensou, uma 
injria annima posta na porta de uma casa podia chamar-se 
marfrio'. Durante os dois minutos que empregou na consulta 
experimentou, pela primeira vez em muito tempo, a 
tranquilidade do dever cumprido.
O telegrafista viu-o colocar o dicionrio na estante, 
entre as esquecidas ordens de servio e disposies acerca 
dos correios e telgrafos, e cortou a transmisso de um 
telegrama com uma advertncia enrgica. Depois aproximou-se a 
baralhar os naipes, disposto a repetir o truque da moda: a 
adivinhao das trs cartas. Mas o juiz Arcadio no lhe deu 
ateno. Agora estou muito ocupado, desculpou-se. Saiu para a 
rua abrasadora, perseguido pela confusa certeza de que eram 
apenas onze horas e aquela tera-feira ainda lhe reservava 
muitas horas para gastar.

i Marfrio: nome dado em Roma a uma esttua antiga que os 
satiristas italianos utilizavam para fixar epigramas, 
panfletos, etc., que respondiam normalmente a outros afixados 
em outra esttua chamada Pasquino (de onde o nome de 
pasquins). A esttua encontrada  entrada do frum de Marte, 
encontra-se hoje no ptio do Capitlio. (N. do T.)
No seu gabinete esperava-o o alcaide com um problema moral. 
Em consequncia das ltimas eleies, a Polcia tinha 
destrudo as cdulas eleitorais do partido da oposio. A 
maioria dos habitantes do lugar no possua agora 
instrumentos de identificao.
- Essa gente que est a transferir para o alto as suas 
casas - concluiu o alcaide com os braos abertos, nem sequer 
sabe como se chama.
O juiz Arcadio compreendeu que atrs daqueles braos 
abertos existia uma aflio sincera. Mas o problema do 
alcaide era simples: bastaria solicitar a nomeao de um 
oficial de registo civil. O escrivo acabou por simplificar o 
problema:
- Basta apenas mand-lo chamar - disse ele. - Est 
nomeado talvez h um ano.
O alcaide lembrou-se. Meses antes, quando a nomeao do 
conservador do registo civil lhe havia sido comunicada, tinha 
feito um telefonema interurbano para per guntar como o devia 
receber e tinham-lhe respondido: A tiro." Agora havia ordens 
diferentes. Voltou-se para o escrivo, com as mos nos 
bolsos, e disse-lhe:
- Escreva a carta.
O rudo do teclado produziu na sala um ambiente de 
dinamismo que se repercutiu na conscincia do juiz Arcadio. 
Achou-se vazio. Tirou do bolso da camisa um ci garro que 
esfregou entre a palma das mos antes de o acender. Depois 
empurrou as costas do assento para trs at ao limite das 
molas; naquela posio surpreendeu-o a certeza definitiva de 
que estava a viver um minuto da sua vida.
Preparou a frase antes de a pronunciar:
- Eu, no seu lugar, nomearia tambm um delegado do 
Ministrio Pblico.
Ao contrrio do que esperava, o alcaide no lhe 
respondeu imediatamente. Olhou o relgio, mas no viu as 
horas. Conformou-se com a certeza de que ainda faltava muito 
tempo para o almoo. Quando falou, f-lo sem entusiasmo: no 
conhecia o procedimento necessrio para uma tal nomeao.
- O funcionrio deveria ser nomeado pelo conselho
municipal - explicou o juiz Arcadio. - Como agora
no h conselho municipal,o regime de estado de 
stio confere-lhe autorizao para o nomear.
O alcaide ouviu,enquanto assinava a carta sem a ler.
Depois teve um comentrio entusiasmado,mas o escrivo fez uma 
observao de carcter tico relativa ao procedimento 
preconizado pelo seu superior.O juiz Arcadio insistiu: era um 
procedimento de emergncia sob um regime de emergncia.
- Parece-me bem - disse o alcaide.
Tirou o bon para se abanar e o juiz Arcadio 
observou a marca em crculo impressa na fronte.Pelo modo
de se abanar considerou que o alcaide no tinha ainda
deixado de pensar.Libertou a comprida cinza do cigarro
com a longa e curvada unha do mendinho e esperou.
- Lembra-se de algum candidato? - perguntou o
alcaide.
Era evidente que se dirigia ao escrivo.
- Um candidato - repetiu o juiz,fechando os
olhos.
- Eu,no seu lugar,nomearia um homem honesto
- disse o escrivo.
O juiz reparou na impertinncia.
- Isso  mais do que evidente - afirmou olhando 
alternadamente para os dois homens.
- Por exemplo - quis saber o alcaide.
- De momento,no me lembro de ningum - respondeu o 
juiz,pensativo.
dirigia-se para a porta.
- Pense nisso - disse ele.- Quando sairmos do
problema das inundaes,resolveremos esse caso.-
O escrivo manteve-se inclinado sobre a mquina at
deixar de ouvir os passos do alcaide.
- Est doido! - exclamou o escrivo.- H ano e
meio que rebentaram  coronhada a cabea do 
anterior
delegado,e agora anda  procura de um candidato 
para
lhe oferecer o lugar.
O juiz Arcadio levantou-se num salto e disse:
- Vou-me embora. No quero que me estragues o almoo com 
as tuas narrativas terroristas.
Saiu. Na composio do meio-dia havia um elemento 
aziago. O escrivo registou-o com a sua sensibilidade para a 
superstio. Quando ps o cadeado na porta pareceu- lhe estar 
a praticar um acto proibido. Fugiu dali. Na porta do 
telgrafo alcanou o juiz Arcadio que estava interessado em 
averiguar se o truque dos naipes era de algum modo aplicvel 
ao jogo do pquer. O telegrafista negou-se a revelar o 
segredo. Ia at ao limite de repetir o truque indefinidamente 
para oferecer ao juiz a possibilidade de descobrir a chave. O 
escrivo observou igualmente a manobra. No final considerou 
ter chegado a uma concluso. O juiz, em troca, nem sequer 
olhou para as trs cartas. Sabia que eram as mesmas que tinha 
escolhido ao acaso e que o telegrafista lhe devolvia sem 
sequer as ter visto.
-  uma questo de magia - disse o telegrafista. O juiz 
Arcadio s pensava ento no esforo de atravessar a rua. 
Quando se resignou a caminhar, agarrou o escrivo pelo brao, 
obrigando-o a mergulhar com ele na atmosfera de vidro 
fundido. O escrivo explicou-lhe ento a chave do truque. Era 
to simples que o juiz Arcadio se sentiu ofendido. Fizeram em 
silncio um trecho do caminho.
- Naturalmente - disse de sbito o juiz com um rancor 
gratuito - voc no averiguou os dados.
O escrivo demorou um instante  procura do sentido da 
frase.
-  muito difcil - concordou por fim. - A maioria dos 
pasquins so arrancados antes do amanhecer.
- Esse  outro truque que no entendo - admitiu o juiz 
Arcadio. - Um pasquim que ningum l no me tiraria o sono.
- Esse  o caso - disse o escrivo, parando, porque 
tinha chegado a casa. - O que tira o sono no so os 
pasquins, mas sim o medo dos pasquins.
Apesar de se encontrarem incompletos,o juiz Arcadio quis 
conhecer os dados recolhidos pelo funcionrio.
Anotou os casos,com datas e nomes: onze em sete dias.
No havia qualquer relao entre os onze homens.Os
que tinham visto os pasquins concordavam que estavam escritos 
a pincel,em tinta azul e com letras de imprensa, maisculas e 
minsculas,como se fossem escritas por uma criana.A 
ortografia era to absurda que os erros pareciam 
deliberados.No revelavam qualquer segredo; nada se dizia 
neles que no fosse j do domnio pblico desde h algum 
tempo.Tinha feito todas as consideraes possveis quando o 
srio Moiss o chamou da loja.
- Tem um peso?
O juiz Arcadio no compreendeu.Mas voltou os
 	bolsos do avesso: vinte e cinco centavos e uma moeda
norte-americana que usava desde a Universidade como
amuleto.O srio Moiss pegou nos vinte e cinco centavos.
- Leve o que quiser e paga quando quiser - disse o 
srio fazendo tilintar as moedas na gaveta vazia. - No quero 
que chegue o meio-dia sem abenoar o nome de Deus.
Desse modo, ao bater das doze badaladas, o juiz 
Arcadio entrou em casa carregado de prendas para a mulher. 
Sentou-se na cama para mudar de sapatos enquanto ela envolvia 
o corpo num corte de seda estampada. Imaginou a sua 
aparncia, depois do parto, com o vestido novo. Ela deu-lhe 
um beijo no nariz. Ele tentou esquivar-se, mas ela caiu em 
cima dele, de bruos, na cama. Permaneceram imveis. O juiz 
Arcadio passou-lhe a mo nas costas, sentindo o calor do 
ventre volumoso, at perceber a palpitao dos rins. Ela 
levantou a cabea. Murmurou, com os dentes apertados:
- Espera que eu feche a porta.

O alcaide esperou at acabarem de instalar a ltima 
casa. Em vinte horas tinham construdo uma rua nova, larga e 
trrea, que terminava subitamente na parede do
cemitrio. Depois de ajudar a colocar os mveis, trabalhando 
lado a lado com os proprietrios, o alcaide entrou, 
asfixiando-se, na cozinha mais prxima. A sopa fervia num 
fogo de pedras, improvisado no cho. Destapou a panela de 
barro e aspirou por um momento a fumarada. Do outro lado do 
lume, uma mulher enxuta de olhos grandes e aprazveis olhava-
o em silncio.
- Almoa-se? - inquiriu o alcaide.
A mulher no respondeu. Sem ser convidado, o 
alcaide serviu-se de um prato de sopa. A mulher foi ento ao 
quarto buscar um banco e p-lo diante da mesa para que o 
alcaide se sentasse. Enquanto comia a sopa, examinou o ptio 
com uma espcie de terror reverencial. Ontem, aquilo era um 
terreno vazio. Agora havia roupa a secar e dois porcos a 
revolverem-se na lama.
- At podem semear - disse o alcaide. A mulher respondeu 
sem levantar a cabea: 
- Os porcos comem tudo. - Depois serviu no
mesmo prato um pedao de carne apenas fervido em gua e 
sal, dois pedaos de piro e meia banana verde, levando-o 
para a mesa. De um modo ostensivo, ps naquele acto de 
generosidade toda a indiferena de que era capaz. O alcaide, 
sorrindo, procurou com os seus os olhos da mulher.
- H para todos - disse ele.
- Queira Deus que lhe cause indigesto - comentou a 
mulher, sem o olhar.
Ele passou por alto a m vontade. Dedicou- se por 
inteiro ao almoo, sem se preocupar com os jorros de suor que 
lhe desciam pelo peito. Quando acabou, a mulher pegou no 
prato vazio, sempre sem olhar.
- At quando vo continuar assim? - perguntou o 
alcaide.
A mulher falou, sem que a sua expresso aprazvel se  
alterasse:
- At que ressuscitem os mortos que nos mataram.
- Agora  diferente - explicou o alcaide. - O novo 
Governo preocupa-se com o bem-estar dos cidados. Vocs, em 
troca...
A mulher interrompeu-o.
- So os mesmos, com as mesmas...
- Um bairro como este, assim construdo em vinte e 
quatro horas, era uma coisa que no se via antes - insistiu o 
alcaide. - Estamos a tentar criar um ambiente decente.
A mulher apanhou a roupa lavada do arame e levou-a para 
o quarto. O alcaide seguiu-a com o olhar at lhe ouvir a 
resposta:
- Este era um povo decente, antes de vocs virem. 
No esperou pelo caf.
- Ingratos - disse ele. - Estamos a oferecer-lhes terra 
e ainda se queixam.
A mulher no replicou. Mas quando o alcaide atravessou a 
cozinha em direco  rua, murmurou inclinada para o fogo:
- Aqui vai ser pior. Lembrar-nos-emos mais de vocs 
com os mortos mesmo ao lado.
O alcaide tentou fazer uma sesta enquanto chegavam as 
lanchas. Mas no resistiu ao calor. O inchao da face tinha 
comeado a ceder. No entanto, no se sentia bem. Seguiu o 
curso imperceptvel do rio durante duas horas, ouvindo o som 
de uma cigarra dentro do quarto. No pensava em nada. Quando 
ouviu o motor das lanchas, despiu-se, secou o suor com uma 
toalha e mudou de uniforme. Depois procurou a cigarra, 
agarrou-a com o polegar e o indicador e saiu para a rua. Da 
multido que esperava as lanchas surgiu um menino limpo, bem 
vestido, que lhe impediu a passagem com uma metralhadora de 
plstico. O alcaide deu-lhe a cigarra.
Um momento depois, sentado no armazm do srio 
Moiss, observou a manobra das lanchas. O porto ferveu 
durante dez minutos. O alcaide sentiu o estmago pesado e uma 
leve dor de cabea e recordou a m vontade da mulher. Depois 
tranquilizou-se, vendo os passageiros que atravessavam a 
plataforma de madeira e estiravam os msculos depois de oito 
horas de inactividade.
- A mesma rotina - disse o alcaide.
O srio Moiss f-lo reparar numa novidade: estava a 
chegar um circo. O alcaide admitiu ser verdade, embora no 
pudesse saber bem porqu. Talvez por um monto de estacas e 
panos coloridos amontoados no tejadilho da lancha, e por duas 
mulheres exactamente iguais enfiadas em roupas floridas e 
idnticas, como se fossem uma mesma pessoa repetida.
- Vamos pelo menos ter um circo - murmurou. 
O srio Moiss falou de feras e malabaristas. Mas o alcaide 
tinha outro modo de pensar no circo. Com as pernas esticadas, 
olhou a biqueira das botas.
- A terra progride - disse ele.
O srio Moiss parou de se abanar.
- Sabe quanto vendi hoje? - perguntou. 
O alcaide no arriscou qualquer nmero e aguardou a resposta. 
- Vinte e cinco centavos - acrescentou o srio.
Nesse momento o alcaide viu o telegrafista a abrir o 
saco do correio para entregar a correspondncia ao doutor 
Giraldo. Chamou-o. O correio oficial vinha num so brescrito 
diferente. Quebrou os lacres e verificou que se tratava de 
comunicaes de rotina e folhas impressas com propaganda do 
regime. Quando acabou de ler, o molhe estava transformado: 
embalagens de mercadorias, gaiolas de galinhas e os 
enigmticos artefactos do circo. Comeava a entardecer. 
Suspirou.
- Vinte e cinco centavos!
- Vinte e cinco centavos - repetiu o srio com voz 
slida, quase sem alento.
O doutor Giraldo observou at ao final a descarga das 
lanchas. Foi ele quem chamou a ateno do alcaide para uma 
mulher vigorosa, de aparncia hiertica, com vrios jogos de 
pulseiras em ambos os braos. Parecia esperar o Messias 
debaixo de uma sombrinha colorida. O alcaide no se deteve a 
pensar na recm-chegada.
- Deve ser a domadora - disse ele.
- De certo modo tem razo - concordou o doutor Giraldo, 
mordendo as palavras com a sua dupla fieira de pedras 
afiadas. -  a sogra de Csar Montero.
O alcaide prosseguiu caminho. Olhou o relgio: quatro menos 
vinte e cinco. Na porta do quartel da Polcia, o planto 
informou-o de que o padre ngel o tinha esperado meia hora e 
voltaria s quatro.
Novamente na rua, sem saber o que fazer, viu o dentista 
na janela do consultrio e aproximou-se para lhe pedir lume. 
O dentista deu-lhe lume, observando-lhe a face ainda inchada.
-J estou bem - disse o alcaide.
Abriu a boca. O dentista olhou.
-Tem vrios dentes a precisar de serem chumbados.
O alcaide ajustou o revlver no cinto.
- Virei c um dia destes - decidiu. 
O dentista no mudou de expresso.
- Venha quando quiser, pode ser que se cumpram os meus 
desejos de que morra em minha casa.
O alcaide deu-lhe uma palmada no ombro.
- No se cumpriro - comentou, bem-disposto, concluindo 
com os braos abertos: - Os meus dentes esto acima dos 
partidos.

- Ento no te casas?
A mulher do juiz Arcadio abriu as pernas.
-Nem esperanas disso, padre - respondeu.E ainda menos 
agora que lhe vou parir um rapaz.
O padre ngel desviou a vista para o rio. Uma vaca 
afogada, enorme, descia pelo fio da corrente, com vrias 
galinhas em cima.
- Mas ser um filho ilegtimo - disse o padre ngel.
- No lhe importa - respondeu ela. - Agora sou bem 
tratada por ele. Se o obrigo a casar comigo, depois sente-se 
amarrado e vinga-se em mim.
Tinha tirado os tamancos e falava com os joelhos 
separados, os dedos dos ps acavalitados no travesso do 
tamborete. Tinha o leque no regao e os braos cruzados no 
ventre volumoso.
- Nem esperanas, padre - repetiu, pois o padre ngel 
permanecia em silncio. - Don Sabas comprou-me por duzentos 
pesos, chupou-me o suco durante trs meses e lanou-me  rua 
depois sem um alfinete. Se Arcadio no me recolhe, teria 
morrido de fome. - Olhou o padre pela primeira vez: - Ou 
seria obrigada a ir para puta.
O padre ngel andava h seis meses a insistir.
- Deves obrig-lo a casar e a constituir um lar - 
disse ele. - Assim como vivem agora, no s ests numa 
condio insegura, como constituem um mau exemplo para a 
terra.
-  melhor fazer as coisas francamente - retorquiu 
ela. - Outros fazem o mesmo, mas com as luzes apagadas. No 
tem lido os pasquins?
- So calnias - respondeu o padre. - Tens de 
regularizar a situao e pr-te ao abrigo da maledicncia.
- Eu? - exclamou ela. - No tenho de me pr ao abrigo de 
nada porque fao toda a minha vida  luz do dia. A prova  
que ningum gasta o seu tempo a pr-me um pasquim, e em troca 
todos os decentes da praa tm sido empapelados.
- s uma tola - disse o padre -, mas Deus deu-te a 
sorte de conseguir um homem que te estima. Por isso mesmo 
deves casar e formalizar o teu lar.
- Eu no entendo nada dessas coisas - retorquiu ela 
-, mas de qualquer modo, assim como estou, tenho onde dormir 
e no me falta o comer.
- E se ele te abandona?
Ela mordeu os lbios. Sorriu enigmaticamente ao 
responder:
- No me abandona, padre. Sei o que estou a dizer. 
Mesmo dessa vez, o padre ngel no se deu por vencido. 
Recomendou-lhe que pelo menos assistisse  missa. Ela 
respondeu que o faria um dia destes, e o padre continuou o 
seu passeio  espera da hora de se encontrar com o alcaide. 
Um dos srios f-lo observar o bom tempo, mas ele no prestou 
ateno. Interessou-se pelos pormenores do circo que 
descarregava as suas feras ansiosas na tarde brilhante. 
Esteve ali at s quatro horas.  O alcaide despedia-se do 
dentista quando viu o padre ngel aproximar-se.
- Pontuais - disse ele apertando-lhe a mo.Pontuais, apesar 
de no estar a chover. - Resolvido a subir a ngreme escada 
do quartel, o padre ngel replicou:
- Nem o mundo estar a acabar.
Dois minutos depois foi levado at Csar Montero. 
Enquanto durou a confisso, o alcaide esteve sentado no 
corredor. Lembrou-se do circo, de uma mulher agarrada pelos 
dentes a uma barra, a cinco metros de altura e de um homem 
com um uniforme azul, bordado a ouro, rufando numa caixa. 
Meia hora mais tarde, o padre ngel saiu da cela onde se 
encontrava Csar Montero.
- Pronto? - perguntou o alcaide.
O padre ngel examinou-o com rancor.
- Esto a cometer um crime - disse ele. - Esse 
homem est h mais de cinco dias sem comer. S a sua 
constituio fsica lhe permitiu sobreviver.
-  a sua vontade - argumentou o alcaide, tranquilamente.
- Isso no  verdade - disse o padre, imprimindo  
voz uma serena energia. - O senhor deu ordens para no lhe 
darem de comer.
O alcaide apontou-lhe o indicador.
- Cuidado, padre, est a violar o segredo da 
confisso.
- Isto no faz parte da confisso - retorquiu o padre.
O alcaide levantou-se.
- No tome isso a peito - disse ele rindo. - Se 
isso o preocupa tanto, agora mesmo lhe damos remdio.
- Chamou um agente e deu ordem para encomendarem
comida no hotel e a levarem a Csar Montero. - Que
lhe mandem um frango inteiro, bem gordo, com um prato de 
papas e uma taa de salada - disse e acrescentou, dirigindo-
se ao padre: - Tudo por conta do municpio, padre. Para que 
veja como as coisas mudaram.
O padre ngel baixou a cabea.
- Quando o despacha?
- As lanchas saem amanh - disse o alcaide. - Se 
at esta noite der ouvidos  razo, parte amanh mesmo. S 
tem que aceitar que lhe estou a fazer um favor.
- Um favor um pouco caro - admitiu o padre.
- No h favor que no custe dinheiro a quem o tem 
- disse o alcaide. 
Fixou os olhos nos difanos olhos azuis do padre ngel, e 
acrescentou: 
- Espero que o tenha feito compreender tudo isso.
O padre ngel no respondeu. Desceu a escada e 
despediu-se no patamar com um rudo surdo. O alcaide 
atravessou o corredor e entrou sem bater na cela de Csar 
Montero. Era um aposento simples: uma cama de ferro e um 
lavatrio. Csar Montero, com a mesma roupa com que tinha 
sado de casa na tera-feira anterior, com a barba por fazer, 
estava deitado em cima da cama. No moveu sequer os olhos 
quando o alcaide entrou.
-J que puseste em ordem as contas com Deus - disse o 
alcaide -, nada mais justo que agora as resolvas comigo. - 
Levou uma cadeira at  cama e sentou-se ao contrrio, com o 
peito encostado s costas de verga. Csar Montero concentrou 
a ateno nas vigas do tecto. No parecia preocupado, apesar 
de se advertirem nas comissuras dos lbios os estragos de uma 
longa conversa consigo mesmo. - Tu e eu no precisamos de 
estar com rodeios - ouviu o alcaide dizer-lhe. - Amanh vais-
te embora. Se tiveres sorte, vir um investigador especial 
dentro de trs ou quatro meses. Ns teremos o dever de o 
informar. Na lancha da semana seguinte, ele regressar  
convencido de que fizeste um disparate. - Fez uma
pausa, mas Csar Montero continuou imperturbvel.Depois, 
entre advogados e tribunais, arrancar-te-o pelo menos vinte 
mil pesos. Ou mais, se o investigador especial se encarregar 
de lhes dizer que s milionrio. 
Csar Montero voltou a cabea para ele. Foi um movimento 
quase imperceptvel, que no entanto fez ranger as molas da 
cama.
- Com isso tudo - prosseguiu o alcaide, com voz de 
conselheiro espiritual -, em voltas e papeladas perders dois 
anos, e ainda assim se tiveres sorte.
Sentiu-se examinado desde a biqueira das botas. Quando o 
olhar de Csar Montero chegou at aos olhos dele, o alcaide 
ainda no tinha acabado de falar:
- Tudo o que tens, deve-lo a mim. Havia ordens para 
acabar contigo. Havia ordens para te assassinarem numa 
emboscada e confiscarem as tuas reses para que o Governo 
tivesse com que subsidiar as enormes despesas das eleies em 
toda a regio. Sabes que outros o fizeram, em outros 
municpios. Em troca, aqui ns desobedecemos s ordens.
Nesse momento percebeu o primeiro sinal de que Csar 
Montero estava a pensar. Abriu as pernas. Com os braos 
apoiados no espaldar da cadeira respondeu a uma acusao no 
formulada em voz alta pelo seu interlocutor:
- Nem um centavo do que pagaste pela tua vida foi para 
mim. Tudo foi gasto na organizao das eleies. Agora o novo 
Governo decidiu que deve haver paz e garantias para todos e 
eu continuo a vegetar com o meu ordenado enquanto tu nadas em 
dinheiro. Fizeste um bom negcio.
Csar Montero iniciou o laborioso processo de se 
levantar. Quando ficou de p, o alcaide viu-se a si mesmo: 
minsculo e triste perante uma besta monumental. Houve uma 
espcie de fervor no olhar com que o seguiu at  janela.
- O melhor negcio da tua vida - murmurou o alcaide.
A janela dava para o rio. Csar Montero no o 
reconheceu. Viu-se numa terra diferente, diante de um rio.
- Estou a tentar ajudar-te - ouviu dizer nas suas 
costas. - Todos ns sabemos que foi uma questo de honra, mas 
vai dar-te muito trabalho provar isso. Fizeste a asneira de 
rasgar o pasquim.
Nesse momento uma baforada nauseabunda invadiu o quarto.
- A vaca morta - disse o alcaide - deve ter ancorado em 
qualquer parte.
Csar Montero permaneceu  janela, indiferente ao odor 
da putrefaco. No havia ningum na rua. No molhe, estavam 
trs lanchas fundeadas, cuja tripulao estava a pendurar as 
redes para dormir. No dia seguinte, s sete da manh, a vista 
seria diferente: durante meia hora o porto estaria em 
ebulio, esperando que embarcassem o preso. Csar Montero 
suspirou. Meteu as mos nos bolsos e, com ar resoluto, mas 
sem se apressar, resumiu o seu pensamento em duas palavras:
- Quanto ?
A resposta foi imediata:
- Cinco mil pesos, em carneiros de um ano.
- E mais cinco carneiros - disse Csar Montero -, para 
que eu seja enviado esta mesma noite, depois do cinema, numa 
lancha expresso.
 
A lancha apitou, deu a volta no meio do rio, e a 
multido concentrada no cais e as mulheres nas janelas viram 
Rosario de Montero pela ltima vez, junto da sua me, sentada 
no mesmo ba de folheta com que tinha ali desembarcado sete 
anos antes. Barbeando-se na janela do consultrio, o doutor 
Giraldo teve a impresso de que aquela era, de certo modo, 
uma viagem de regresso  realidade.
O doutor Giraldo tinha-a visto na tarde da sua chegada, 
com o seu esqulido uniforme de normalista e os seus sapatos 
de homem, averiguando no porto quem lhe cobrava menos para 
levar o ba at  escola. Parecia disposta a envelhecer sem 
ambies naquela pequena terra cujo nome vira escrito pela 
primeira vez - conforme ela mesma contava - no papel que 
tirou de um chapu quando sorteavam seis postos disponveis 
entre onze candidatos. Instalou-se num quartinho da escola, 
com uma cama de ferro e um lavatrio, dedicando-se nas horas 
livres a bordar toalhas enquanto cozia as papas de milho no 
fogareiro de petrleo. Nesse mesmo ano, pelo Natal, conheceu 
Montero numa festa escolar. Era um solteiro bisonho de 
origem obscura, enriquecido com a extraco de madeiras, que 
vivia na selva virgem entre ces montesinhos e s aparecia na 
terra ocasionalmente sempre sem se barbear, com botas de 
taces ferrados e uma espingarda de dois canos. Foi como se 
tivesse tirado mais uma vez, do chapu, o papel premiado, 
pensava o doutor Giraldo com a barba cheia de espuma, quando 
uma baforada nauseabunda o tirou das suas recordaes.
Um bando de galinceos dispersou-se na margem oposta, 
espantados pela corrente criada pela lancha. O odor da 
podrido permaneceu um momento por cima do cais, moveu-se na 
brisa matinal e entrou at ao fundo das casas.
- Ainda a est, porra! - exclamou o alcaide na varanda 
do seu quarto, vendo a disperso dos galinceos.
- Puta de vaca!
Tapou o nariz com o leno, entrou no quarto e fechou a 
porta da varanda. O cheiro persistia no interior. Sem tirar o 
bon, pendurou o espelho num prego e iniciou uma trabalhosa 
tentativa de barbear a face ainda um pouco inflamada. Um 
momento depois o empresrio do circo bateu  porta.
O alcaide mandou-o sentar-se, observando-o pelo espelho 
enquanto fazia a barba. Tinha uma camisa de quadrados 
escuros, calas de montar com polainas e uma chibata com que 
batia sistematicamente no joelho.
-J me fizeram a primeira queixa de si - disse o 
alcaide, acabando de rapar com a navalha os vestgios de duas 
semanas de desespero. - Mesmo ontem  noite.
- Qual foi a queixa?
- Que esto a mandar os rapazes roubar gatos.
- Isso no  verdade - disse o empresrio -; compramos a 
peso qualquer gato que nos levem sem perguntar de onde veio, 
para alimentar as feras.
- Do-nos vivos ?
- Ah, no - protestou o empresrio. - Isso despertaria o 
instinto de crueldade das feras.
Depois de se lavar, o alcaide voltou-se para ele 
esfregando a cara com a toalha. At ento no havia reparado 
que tinha anis com pedras coloridas em quase todos os dedos.
- Pois vai ter de inventar qualquer outra coisadisse. - 
Apanhem caimes, se quiserem, ou aproveitem
o peixe que se perde neste tempo. Gatos vivos, nem de 
brincadeira.
O empresrio encolheu os ombros e seguiu o alcaide at  
rua. Grupos de homens conversavam no cais, apesar do mau 
cheiro da vaca atascada nos silvados da margem oposta.
- Maricas - gritou o alcaide. - Em vez de estarem por a 
a bisbilhotar como mulheres, j deviam ter organizado um 
grupo para libertar aquela vaca.
Alguns homens rodearam-no.
- Cinquenta pesos - props o alcaide -, quele que me 
trouxer, antes de uma hora, os cornos daquela vaca.
Uma desordem de vozes estalou no extremo do cais. Alguns 
homens tinham ouvido a oferta do alcaide e saltavam para as 
canoas, gritando desafios recprocos enquanto soltavam as 
amarras.
- Cem pesos - dobrou o alcaide entusiasmado.Cinquenta 
por cada corno.
Levou o empresrio at  extremidade do molhe. Ambos 
esperaram que as primeiras embarcaes chegassem s dunas da 
outra margem. O alcaide voltou-se ento para o empresrio, 
sorrindo.
- Esta  uma terra feliz - disse ele. O empresrio 
concordou com a cabea. - O que nos falta so coisas como 
esta - prosseguiu o alcaide. - As pessoas pensam demasiados 
disparates por falta de ocupao. 
Pouco a pouco um grupo de crianas tinha-se formado em torno 
deles.
- A est o circo - disse o empresrio.
O alcaide arrastava-o pelo brao para a praa.
- E o que fazem? - perguntou.
- Fazemos de tudo - respondeu o empresrio.Temos um 
espectculo muito completo para crianas e adultos.
- Isso no basta - disse o alcaide. -  preciso, alm 
disso, que o ponham ao alcance de todos.
- Tambm temos isso em conta - retorquiu o empresrio.
Foram juntos at um espao baldio, atrs do cinema, onde 
tinham comeado a montar o grande toldo. Homens e mulheres de 
aspecto taciturno despejavam os enormes males, chapeados de 
lato, tirando deles trastes diversos e panos coloridos. 
Quando seguiu o empresrio atravs do amontoado de seres 
humanos e de trastes heterogneos, apertando a mo a todos, o 
alcaide sentiu-se em ambiente de naufrgio. Uma mulher 
robusta, de gestos resolutos e dentadura amplamente 
aurificada, examinou-lhe a mo depois de a apertar.
- H algo de estranho no teu futuro - disse ela. 
O alcaide retirou a mo, sem poder reprimir um momentneo 
sentimento de depresso. O empresrio deu  mulher, com a 
chibata, uma pancadinha no brao.
- Deixa o tenente em paz - disse-lhe sem se deter, 
empurrando o alcaide para o fundo do terreno onde se 
encontravam as feras. - O senhor acredita nisso?perguntou.
- Depende - respondeu o alcaide.
- A mim no conseguiram convencer-me - disse o 
empresrio. - Quando se anda nestas coisas, uma pessoa acaba 
por no acreditar seno na vontade humana.
O alcaide contemplou os animais adormecidos pelo calor. 
As jaulas exalavam um vapor azedo e quente e havia uma 
espcie de angstia sem esperana na respirao pausada dos 
animais. O empresrio acariciou com a chibata o nariz de um 
leopardo que se torceu num estremecimento lamentoso.
- Como  que se chama? - perguntou o alcaide.
- Aristteles.
- Refiro-me  mulher - esclareceu o alcaide.
- Ah - fez o empresrio -; chamamos-lhe Casandra, 
espelho do futuro.
O alcaide revelou uma expresso desolada.
- Gostaria de me deitar com ela - disse.
- Tudo  possvel - respondeu o empresrio.

A viva de Montiel abriu as cortinas do quarto, 
murmurando: Coitados dos homens." Ps em ordem a mesinha-de- 
cabeceira, guardou na gaveta o rosrio e o livro de oraes e 
limpou as solas das suas chinelas cor de malva na pele de 
tigre estendida aos ps da cama. Depois deu uma volta 
completa no quarto para fechar  chave o toucador, as trs 
portas do armrio da roupa e um outro, quadrado, em cima do 
qual havia um So Rafael de gesso. Por fim fechou a porta do 
quarto.
Enquanto descia a ampla escada de azulejos com 
labirintos gravados, pensava no estranho destino de Rosario 
de Montero. Quando a viu dobrar a esquina do porto, com a sua 
aplicada compostura de escolar a quem ensinaram a no voltar 
a cabea, a viva de Montiel, assomada s grades da sua 
varanda, pressentiu que alguma coisa que havia muito comeara 
a acabar, tinha finalmente terminado.
No patamar da escada, veio-lhe ao encontro o fedor do 
seu ptio de feira rural. A um lado da varanda havia um 
andaime com queijos envoltos em folhas novas; mais alm, numa 
galeria exterior, havia sacos de sal arrumados e odres de 
mel, e ao fundo do ptio um estbulo com mulas, cavalos e 
selins pendurados nas traves. A casa estava impregnada com um 
persistente cheiro de besta de carga, misturado com um outro 
de couros curtidos e moenda de cana.
No escritrio, a viva deu os bons-dias ao senhor 
Carmichael, que separava maos de notas na secretria 
enquanto verificava as quantias no livro de contas. Ao abrir 
a janela que dava para o rio, a luz das nove entrou na sala 
carregada de adornos baratos, com grandes cadeires forrados 
a cinzento e um retrato ampliado de Jos Montiel com uma fita 
negra na moldura. A viva reconheceu o cheiro da podrido 
antes de ver as embarcaes nas dunas da margem oposta.
- Que se passa no outro lado? - perguntou.
- Esto a tentar retirar uma vaca morta - respondeu o 
senhor Carmichael.
- Ento era isso - comentou a viva. - Sonhei toda a noite 
com este cheiro. - Olhou o senhor Carmichael atento ao 
trabalho e acrescentou: - Agora s nos falta o dilvio.
O senhor Carmichael falou sem levantar a cabea:
- Comeou h quinze dias.
-  verdade - admitiu a viva -; agora chegamos ao 
fim. S falta deitarmo-nos numa sepultura debaixo do cu 
aberto e aguardar a morte. - O senhor Carmichael ouvia-a sem 
interromper as suas contas. - H anos queixvamo-nos de que 
nada acontecia nesta terra
- prosseguiu a viva. - De repente comeou a tragdia, 
como se Deus tivesse resolvido que aconteceriam todas juntas 
as coisas que durante anos deixaram de acontecer.
No cofre, o senhor Carmichael voltou-se para a 
olhar e viu-a de cotovelos no peitoril, com os olhos fixos na 
margem oposta. Trazia um vestido negro com mangas at aos 
punhos e mordiscava as unhas.
- Quando passarem as chuvas, as coisas vo melhorar 
- disse o senhor Carmichael.
- No vo melhorar nada - prognosticou a viva.
- As desgraas nunca vm desacompanhadas. No viu a 
Rosario Montero?
O senhor Carmichael tinha-a visto.
- Tudo isto  um escndalo sem motivo - disse ele.
- Se dermos ouvidos aos pasquins, acabaremos loucos.
- Os pasquins - suspirou a viva.
- A mim, j me puseram o meu - disse o senhor 
Carmichael.
Ela aproximou-se com uma expresso de assombro.
- Ao senhor?
- A mim - confirmou o senhor Carmichael. Puseram-mo 
bem grande e bem completo no sbado da semana passada. 
Parecia um anncio de cinema.
A viva sentou-se numa cadeira, frente  secretria.
-  uma infmia! - exclamou. - No h nada a dizer 
de uma famlia como a sua. - O senhor Carmichael no estava 
alarmado.
- Como a minha mulher  branca, os filhos vieram-nos de todas 
as cores - explicou. - Imagine: so onze.
- Evidentemente - disse a viva.
- Pois o pasquim dizia que eu sou pai somente dos filhos 
negros. E dava a lista dos pais dos outros. At enredaram 
nisso Don Chepe Montiel, que descanse em paz.
- O meu marido!
- O seu e os de mais quatro senhoras - disse o senhor 
Carmichael.
A viva comeou a soluar.
- Felizmente as minhas filhas esto longe. Dizem que no 
querem voltar a este pas selvagem onde assassinam os 
estudantes em plena rua, e eu respondo que tm razo, que 
fiquem em Paris para sempre.
O senhor Carmichael deu meia volta  cadeira, 
compreendendo que o embaraoso episdio de todos os dias 
tinha novamente comeado.
- A senhora no tem que se preocupar - disse ele.
- Pelo contrrio - soluou a viva. - Sou a primeira que 
deveria ter empacotado os trastes e sado daqui, mesmo 
perdendo estas terras e estas tarefas de todos os dias que 
tanto tm a ver com a desgraa. No, senhor Carmichael: no 
quero bacias de ouro para cuspir sangue.
O senhor Carmichael tentou consol-la.
- A senhora tem de enfrentar a suas responsabilidades - 
disse. - No se pode atirar uma fortuna pela janela fora.
- O dinheiro  o artifcio do diabo - protestou a viva.
- Mas, neste caso,  tambm o resultado do trabalho duro 
de Don Chepe Montiel.
A viva mordeu os dedos.
- O senhor sabe que no  verdade - replicou ela.
-  dinheiro mal ganho e o primeiro a pag-lo ao morrer sem 
confisso foi o prprio Jos Montiel.
No era a primeira vez que o afirmava.
- A culpa, naturalmente,  desse criminoso - exclamou 
ela, apontando o alcaide que passava no passeio oposto, 
levando pelo brao o empresrio do circo.Mas  a mim que 
corresponde a expiao.
O senhor Carmichael deixou-a sozinha. Meteu numa caixa 
de carto os maos de notas apertados com elsticos e, da 
porta do ptio, chamou os pees por ordem alfabtica.
Enquanto os homens recebiam a paga da quarta- feira, a 
viva de Montiel sentia-os passar sem corresponder s 
saudaes. Vivia sozinha na sombria casa de nove quartos onde 
morrera a Mam Grande e que Jos Montiel tinha comprado sem 
supor que a sua viva teria de sobreviver nela em solido, 
at  morte. De noite, en quanto percorria com o insuflador 
de insecticida os aposentos vazios, encontrava-se com a Mam 
Grande a matar piolhos nos corredores e perguntava-lhe: 
- Quando morrerei? 
Mas aquela comunicao feliz com o Alm apenas tinha 
conseguido aumentar as suas incertezas, porque as respostas, 
como as de todos os mortos, eram disparatadas e 
contraditrias.
Pouco depois das onze, a viva viu, atravs das 
lgrimas, o padre ngel atravessar a praa.
- Padre, padre - chamou, sentindo que com aquele apelo 
estava a dar um passo final. 
Mas o padre Angel no a ouviu. Tinha batido  porta da viva 
de Ass, no passeio em frente, e a porta abrira-se de um modo 
discreto para lhe dar passagem.
No corredor invadido pelo canto dos pssaros, a viva de 
Ass jazia numa cadeira de lona, desdobrvel, com a cara 
coberta por um leno embebido em gua de Florida. Pela 
maneira de bater  porta, ela soube que era o padre ngel, 
mas prolongou o alvio momentneo at ouvir-lhe a voz. 
Libertou ento o rosto devastado pela insnia.
- Desculpe, padre - disse. - No o esperava to cedo.
O padre ngel ignorava que tinha sido chamado para almoar. 
Desculpou-se, um pouco ofuscado, dizendo que tambm ele tinha 
passado a manh com dores de cabea e havia preferido 
atravessar a praa antes de comear o calor.
- No importa - disse a viva. - S quis dizer que me 
encontra feita um trapo.
O padre tirou do bolso um brevirio com a encadernao 
desconjuntada.
- Se quiser, pode continuar a repousar um momento mais 
enquanto eu rezo - disse ele, mas a viva ops-se.
-J me sinto melhor - disse ela.
Caminhou at ao extremo do corredor, com os olhos 
fechados, e no regresso estendeu o leno perfumado com 
delicado gesto no brao da cadeira. Quando se sentou diante 
do padre ngel, parecia vrios anos mais nova.
- Padre - disse ento, sem dramatismo -, necessito da 
sua ajuda.
O padre ngel guardou o brevirio no bolso.
- Estou s suas ordens.
- Trata-se outra vez de Roberto Ass.
Contrariando a sua promessa de esquecer o pasquim, 
Roberto Ass tinha-se despedido no dia anterior at sbado, e 
havia regressado intempestivamente a casa naquela mesma 
noite. Desde a chegada at ao amanhecer, quando a fadiga o 
venceu, tinha estado sentado na obscuridade do quarto, 
esperando o suposto amante da mulher.
O padre ngel ouviu-a, perplexo.
- Isso no tem fundamento - disse ele.
- No conhece os Ass, padre - replicou a viva.
- Tm o inferno na imaginao.
- Rebeca, conhece o meu ponto de vista acerca dos 
pasquins - disse o padre. - Mas se achar bem, posso falar 
igualmente com Roberto Ass.
- De maneira nenhuma - protestou a viva. - Isso seria 
atiar a fogueira. Em troca, se o senhor se referisse aos 
pasquins no sermo de domingo, estou certa de que Roberto 
Ass se sentiria chamado  reflexo.
O padre ngel abriu os braos.
- Impossvel! - exclamou. - Seria dar s coisas uma 
importncia que elas no tm.
- Nada  mais importante do que evitar um crime.
- Acredita que chegue a tais extremos?
- No s acredito - disse a viva -, como estou certa de 
que as minhas foras no sero suficientes para
o impedir.
Pouco depois sentaram-se  mesa. Uma servente descala 
ps na mesa arroz com feijes, legumes cozidos e uma travessa 
de almndegas, cobertas com um molho cinzento e espesso. O 
padre Angel serviu-se em silncio. A pimenta picante, o 
profundo silncio da casa e a sensao de desconcerto que lhe 
ocupava o corao naquele momento, transportaram-no de novo 
ao seu esqulido quartinho de padre novato no ardente meio-
dia de Macondo. Num dia como aquele, poeirento e clido, 
tinha recusado dar sepultura crist a um enforcado a quem os 
duros habitantes de Macondo negavam funeral.
Desabotoou o colarinho da sotaina para soltar o 
suor.
- Est bem - disse ele  viva. - Ento faa com 
que Roberto Ass no falte  missa de domingo.
A viva de Ass prometeu.

O doutor Giraldo e a mulher, que nunca dormiam a 
sesta, ocuparam a tarde na leitura de um conto de Dickens. 
Estiveram no terrao interior, ele na rede ouvindo com os 
dedos entrelaados na nuca; ela, com o livro no regao, lendo 
de costas para os espaos de sol onde ardiam os gernios. Fez 
uma leitura desapaixonada, com nfase profissional, sem mudar 
de posio na cadeira.
No levantou a cabea at ao final, mas mesmo assim 
permaneceu com o livro aberto nos joelhos, enquanto o
marido se lavava na bacia do lavatrio.O calor anunciava 
tempestade.
-  um conto comprido? - perguntou ela,depois
de pensar cuidadosamente.
Com os escrupulosos movimentos aprendidos na sala
de cirurgia,o mdico tirou a cabea da bacia.
- Dizem que  uma novela curta - respondeu, diante do 
espelho,amassando a brilhantina.- Eu diria
de preferncia,um conto comprido.- Esfregou,com
os dedos,a vaselina no crnio e concluiu: - Os crticos
diriam que  um conto curto,mas alongado.
Auxiliado pela mulher,vestiu-se de linho branco.Ela
poderia ser confundida com uma irm mais velha,no s 
pela calma devoo com que o atendia,mas tambm pela 
frialdade dos olhos que a faziam parecer uma pessoa de mais 
idade.Antes de sair,o doutor Giraldo forneceu-lhe a lista e a 
ordem das visitas,para a hiptese de se apresentar um caso 
urgente,e moveu os ponteiros do relgio publicitrio na sala 
de espera: O doutor volta s cinco horas."
O calor fervia na rua.O doutor Giraldo seguiu pelo
passeio do lado da sombra,perseguido pelo pressentimento de 
que,apesar da densidade do ar,no choveria
naquela tarde.O canto das cigarras tornava mais intensa 
a solido do porto,mas a vaca tinha sido removida e fora 
arrastada pela corrente,e o cheiro da podrido tinha
deixado na atmosfera um enorme vazio.
O telegrafista,na porta do hotel,chamou por ele:
- Recebeu um telegrama?
O doutor Giraldo no tinha recebido.
- Informe condies do envio,assinado Arcofn"
- citou o telegrafista,de memria.
Foram juntos ao telgrafo.Enquanto o mdico escrevia uma 
resposta,o empregado comeou a dormitar.
-  o cido muritico - explicou o mdico,sem
grande convico cientfica.E apesar do seu 
pressentimento,acrescentou animadamente quando acabou de 
escrever: - Talvez chova esta noite.
O telegrafista contou as palavras. O mdico no prestou 
ateno. Estava pendente de um volumoso livro aberto junto da 
chave morse. Perguntou se era um romance.
- Os Miserveis, Victor Hugo - telegrafou o 
telegrafista. Carimbou a cpia do telegrama e regressou  
varanda com o livro. - Acho que com este demoraremos at 
Dezembro.
Havia anos que o mdico sabia que o telegrafista 
ocupava as horas livres a transmitir poemas  telegrafista de 
San Bernardo del Viento. Ignorava que tambm telegrafasse 
romances.
- Este  a srio - disse o doutor Giraldo, 
folheando o manuseado calhamao que despertou na sua memria 
confusas emoes de adolescente. - Alexandre Dumas seria mais 
apropriado.
- Ela gosta deste - explicou o telegrafista.
-J a conheces?
O telegrafista negou com a cabea.
- Mas d no mesmo - disse. - Era capaz de a 
reconhecer em qualquer parte do mundo pelos saltinhos que d 
sempre no erre.
Tambm naquela tarde o doutor Giraldo reservou uma 
hora para Don Sabas. Encontrou-o na cama, exausto, enrolado 
numa toalha a partir da cintura.
- Eram bons os caramelos? - perguntou o mdico.
-  o calor - lamentou-se Don Sabas, voltando para a 
porta o seu enorme corpo de av. - Tomei a injec o depois 
do almoo.
O doutor Giraldo abriu a maleta em cima de uma mesa 
preparada junto da janela. As cigarras cantavam no ptio e o 
quarto tinha uma temperatura vegetal. Sentado no ptio, Don 
Sabas urinou um manancial lnguido.
Quando o mdico olhou no tubo de vidro a amostra do 
lquido ambarino, o doente sentiu-se reconfortado. Disse, 
observando a anlise:
- Muito cuidado, doutor, que eu no quero morrer 
sem saber como termina este romance.
O doutor Giraldo lanou um comprimido azul no tubo.
- Que romance?
- O dos pasquins.
Don Sabas seguiu-o com um olhar manso at ele ter 
acabado de aquecer o tubo na lamparina de lcool. Cheirou. Os 
descoloridos olhos do doente esperavam-no com uma pergunta:
- Est bem - disse o mdico, enquanto despejava a 
amostra de urina no ptio. Depois examinou Don Sabas: 
- Tambm est pendente disso?
- Eu no - respondeu o doente. - Mas gozo como um preto 
com o medo que as pessoas sentem. 
O doutor Giraldo preparava a seringa hipodrmica. 
- Alm do mais - prosseguiu Don Sabas -, j me puseram o meu 
h dois dias. As mesmas parvoces: as histrias dos meus 
filhos e a histria dos burros. 
O mdico apertou a artria de Don Sabas com uma
borracha. O doente insistiu na histria dos burros, mas 
teve de a contar porque o mdico achava que no a conhecia.
- Foi um negcio de burros que fiz h-de haver uns 
vinte anos - disse. - Deu-se a casualidade de que todos os 
burros que vendia amanheciam mortos dois dias depois sem 
marcas de violncia.
Ofereceu o brao de carnes flcidas para que o 
mdico tirasse a amostra de sangue. Quando o doutor Giraldo 
tapou o furinho com algodo, Don Sabas dobrou o brao.
- Pois sabe o que as pessoas inventaram? 
O mdico negou com a cabea.
- Correu o boato de que era eu mesmo que entrava de 
noite pelas hortas e disparava no interior os burros, 
metendo-lhes o revlver pelo cu.
O doutor Giraldo guardou na bolsa o tubo de vidro 
com a amostra de sangue de Don Sabas. Depois afirmou :
- Essa histria tem todo o aspecto de ser 
verdadeira.
- Eram as cobras - disse Don Sabas, sentado na cama como um 
dolo oriental. - De qualquer modo,  preciso ser-se bem 
estpido para se escrever um pasquim com aquilo que toda a 
gente sabe.
- Essa foi sempre uma caracterstica dos pasquins
- retorquiu o mdico. - Dizem o que toda a gente sabe, e que 
quase sempre  verdade.
Don Sabas sofreu uma crise momentnea.
- Acha? - murmurou, secando com o lenol o suor dos 
olhos inchados. Imediatamente reagiu:O que acontece,  que 
neste pas no h uma s fortuna que no tenha s costas um 
burro morto.
O mdico recebeu a frase inclinado no lavatrio. Viu a 
sua prpria reaco reflectida na gua: um sistema dental to 
correcto que no parecia natural. Olhando o paciente por cima 
do ombro, disse:
- Eu sempre acreditei, meu caro Don Sabas, que a sua 
nica virtude  o descaramento.
O doente entusiasmou-se. As pancadinhas do seu mdico 
produziam-lhe uma espcie de juventude repentina.
- Isso e a minha potncia sexual - disse ele, 
acompanhando as palavras com uma flexo do brao que podia 
ser um estmulo para a circulao, mas que ao mdico pareceu 
de uma insolncia excessiva. Don Sabas deu um saltinho com as 
ndegas. -  por isso que os pasquins me provocam tanto o 
riso - prosseguiu. Dizem que os meus filhos apanham quanta 
raparigumha comea a despontar por esses montes e eu digo: 
so filhos do seu pai.
Antes de se despedir, o doutor Giraldo teve de ouvir uma 
recapitulao espectral das aventuras sexuais de Don Sabas.
-Ditosa juventude! - exclamou finalmente o doente. - 
Tempos felizes em que uma rapariguinha de dezasseis anos 
custava menos do que uma novilha.
- Essas recordaes vo-lhe aumentar a concentrao do 
acar - disse o mdico.
Don Sabas abriu a boca.
- Pelo contrrio - replicou. - So melhor cura do que as 
suas malditas injeces de insulina.
Quando saiu para a rua, o mdico levava consigo a 
impresso de que pelas artrias de Don Sabas tinha comeado a 
circular um caldo suculento. Mas outra coisa o preocupava: os 
pasquins. Rumores chegavam desde h dias ao seu consultrio. 
Nessa tarde, depois da visita a Don Sabas, reparou que na 
realidade no tinha ouvido falar de outra coisa em toda a 
semana. Fez vrias visitas na hora seguinte. Em todas lhe 
falaram dos pasquins. Ouviu os relatos sem fazer comentrios, 
aparentando uma risonha indiferena, mas tentando, na 
realidade, chegar a uma concluso. Estava de regresso ao 
consultrio quando o padre ngel, que saa da casa da viva 
de Montiel, o retirou das suas reflexes.
- Como vo os doentes, doutor? - perguntou o padre 
ngel.
- Os meus vo bem, padre - respondeu. - E os seus ?
O padre mordiscou os lbios. Tomou o mdico pelo brao e 
comearam a atravessar a praa.
- Porque me pergunta isso?
- No sei - respondeu o mdico. - Tenho notcias de que 
h uma epidemia grave entre a sua clientela.
O padre ngel fez um desvio que o mdico pensou ter sido 
deliberado.
- Acabo de falar com a viva de Montiel - disse o padre. 
- A essa pobre mulher, os nervos trazem-na aniquilada.
- Pode ser a conscincia - diagnosticou o mdico.
-  a obsesso da morte.
Apesar de viverem em direces opostas, o padre ngel 
acompanhou-o at ao consultrio.
- Falando srio, padre - recomeou o mdico -, o senhor 
que pensa dos pasquins?
- No penso neles - disse o padre. - Mas se me obrigasse 
a faz-lo, diria que so obra da inveja numa terra exemplar.
- Desse modo no diagnosticava a Medicina, nem sequer na 
Idade Mdia - replicou o doutor Giraldo.
Pararam diante do consultrio. Abanando-se lentamente, o 
padre ngel repetiu, pela segunda vez nesse dia, que no se 
deve dar s coisas a importncia que elas no tm". O doutor 
Giraldo sentiu-se abanado por um desespero recndito.
- Como sabe, padre, que no h nada de verdadeiro no que 
dizem os pasquins?
- Sab-lo-ia pelo confessionrio.
O mdico olhou-o friamente nos olhos.
- Se o no sabe pelo confessionrio ainda  mais grave.
Naquela tarde o padre ngel verificou que tambm em casa 
dos pobres se falava dos pasquins, mas de um modo diferente e 
at com uma saudvel alegria. Comeu sem apetite, depois de 
assistir  orao com uma alfinetada de dor de cabea que 
atribuiu s almndegas do almoo. Procurou depois a 
classificao moral do filme e, pela primeira vez na sua 
vida, experimentou um obscuro sentimento de orgulho quando 
deu as doze badaladas rotundas da proibio absoluta. Por fim 
colocou um banquinho na porta da rua, sentindo que a dor de 
cabea aumentava dolorosamente, e disps-se a verificar 
publicamente quem entrava no cinema apesar das suas 
advertncias.
Entrou o alcaide. Acomodado num canto da plateia, fumou 
dois cigarros antes de comear a sesso. A gengiva estava 
completamente desinflamada, mas o corpo padecia ainda da 
memria das noites passadas e dos estragos dos analgsicos, e 
os cigarros provocaram-lhe nuseas.
A sala do cinema era um ptio cercado por um muro de 
cimento, fechado por cima com chapas de zinco at meio da 
plateia, e com uma erva que parecia reviver em cada manh, 
adubada com pastilhas elsticas e pontas de cigarros. Por um 
momento, o alcaide viu a flutuar os bancos de madeira tosca, 
a grade de ferro que separava a plateia da galeria, e reparou 
numa ondulao de vertigem no espao pintado de branco na 
parede do fundo onde o filme se projectava.
Sentiu-se melhor quando se apagaram as luzes. Ento 
cessou a msica estridente do altifalante, mas tornou-se mais 
intensa a vibrao do gerador elctrico instalado num 
casinhoto de madeira junto do projector.
Antes do filme de fundo, projectaram imagens de 
publicidade. Um tropel de sussurros afogados, passos confusos 
e risos entrecortados removeram a penumbra dos breves 
minutos. Momentaneamente sobressaltado, o alcaide pensou que 
aquela entrada clandestina pelos fundos tinha o carcter de 
uma subverso contra as normas rgidas do padre ngel.
Ainda que tivesse sido apenas pelo odor da gua-de-
colnia, teria reconhecido o proprietrio do cinema quando 
passou junto dele.
- Bandoleiro - murmurou, agarrando-o pelo brao. - Ters 
de pagar um imposto especial.
Rindo entre dentes, o proprietrio sentou-se na cadeira 
ao lado.
- A fita  boa - afirmou.
- Por mim - disse o alcaide -, preferia que fossem todas 
ms. No h nada mais aborrecido do que o cinema moral.
Anos antes ningum tinha tomado muito a srio aquela 
censura de sinos. Mas em cada domingo, na missa principal, o 
padre ngel apontava do plpito e expulsava da igreja as 
mulheres que durante a semana tinham ignorado as suas 
advertncias.
- A salvao foi abrir a portinha das traseirasdisse o 
proprietrio.
O alcaide tinha comeado a seguir o noticirio 
desactualizado. Falou, fazendo uma pausa de cada vez que 
encontrava no ecr algo de interessante:
-  sempre a mesma coisa - disse. - O padre no d a 
comunho s mulheres que andem de manga curta, e elas 
continuam a usar mangas curtas, mas enfiam mangas postias 
antes de entrarem na igreja.
Depois do noticirio passaram o filme-anncio para
a semana seguinte. Viram-no em silncio. Quando terminou, o 
proprietrio inclinou-se para o alcaide.
- Tenente - sussurrou-lhe -, compre-me esta empresa.
- No  negcio - respondeu o alcaide sem afastar os 
olhos do ecr.
- Para mim, no - disse o proprietrio. - Mas para si 
seria uma mina.  evidente: a sI, o padre no lhe viria com a 
histria das badaladas.
O alcaide pensou um pouco antes de responder:
- Poderia ser.
Mas no se deixou levar  concretizao. Colocou os ps 
no banco da frente e perdeu-se nos sobressaltos de um drama 
arrevesado que, para finalizar, segundo pensou, no valia 
quatro badaladas. Ao sair do cinema demorou-se na sala de 
bilhar, onde se jogava o loto. Estava calor e o rdio 
transpirava uma msica pedregosa. Depois de beber uma garrafa 
de gua mineral, o alcaide foi-se deitar.
Caminhou despreocupadamente ao longo da margem, sentindo 
na obscuridade a enchente do rio, as suas entranhas e o seu 
cheiro de animal poderoso.  porta de casa, dando um salto 
para trs, empunhou o revlver.
- Saia para a luz! - disse com voz tensa - ou dis paro.
Uma voz muito suave saiu da escurido:
- No se enerve, tenente.
Permaneceu com a mo no gatilho at que a pessoa 
escondida saiu para a luz. Era Casandra.
- Escapaste por um cabelo - disse o alcaide.
F-la subir ao quarto. Durante um certo tempo 
Casandra falou, seguindo uma trajectria acidentada. Tinha-se 
sentado na rede e enquanto falava tirou os sapatos e olhou 
com certa candura as unhas dos ps pintadas de vermelho-vivo.
Sentado diante dela, abanando-se com o bon, o 
alcaide seguiu a conversa com uma correco convencional. 
Tinha voltado a fumar. Quando bateu a meia-noite, ela 
estendeu-se de bruos na rede, alongou para ele um brao 
adornado com um jogo de pulseiras sonoras e beliscou-lhe o 
nariz.
-  tarde, menino - retorquiu. - Apaga a luz. 
O alcaide sorriu.
- No era para isso - disse.
Ela no compreendeu.
-Sabes deitar as sortes? - perguntou o alcaide. 
Casandra voltou a sentar-se na rede.
- Evidentemente - respondeu. E depois, tendo 
compreendido, calou os sapatos e acrescentou: - Mas no 
trouxe o baralho.
- Quem come terra - sorriu o alcaide - deve carregar 
consigo o seu torro.
Tirou um baralho bastante gasto do fundo da maleta. Ela 
examinou cada carta de frente e de costas, com uma ateno 
concentrada.
- As outras so melhores - concluiu -, mas de todos os 
modos, o que  importante  a comunicao. 
O alcaide puxou uma mesinha, sentou-se diante dela e Casandra 
disps as cartas. 
- Amor ou negcios?perguntou Casandra.
O alcaide secou o suor das mos.
- Negcios - respondeu.
 
Um burro sem dono protegeu-se sob o beiral da casa 
paroquial e esteve toda a noite a dar coices contra a parede 
do quarto. Foi uma noite sem sossego. Depois de ter 
conseguido um sono profundo ao amanhecer, o padre ngel 
acordou com a impresso de estar coberto de poeira. Os nardos 
adormecidos sob a chuvinha, o cheiro da retrete e a seguir o 
interior lgubre da igreja depois de se terem perdido as 
badaladas das cinco, tudo parecia conspirar para tornar 
difcil aquela madrugada.
Na sacristia, onde se vestiu para dizer a missa, sentiu 
Trinidad a fazer a sua colheita de ratos mortos, enquanto 
entravam na igreja as mulheres silenciosas dos dias normais. 
Durante a missa foi notando com crescente exasperao os 
enganos do aclito, o seu latim montanhs, e chegou ao 
momento final com o sentimento de frustrao que o 
atormentava nas horas ms da sua vida.
Avanava para o pequeno-almoo, quando Trinidad lhe saiu 
ao caminho com uma expresso radiante:
- Hoje caram mais seis - disse ela, fazendo saltar os 
ratos mortos dentro da caixa. 
O padre ngel tentou sobrepor-se ao seu descalabro interior.
- Magnfico! - exclamou. - Por este andar bastaria 
encontrar os ninhos para os exterminar completamente.
Trinidad havia encontrado os ninhos. Explicou como tinha 
localizado os buracos em diversos lugares do templo, 
especialmente na torre e no baptistrio, e como os havia 
tapado com asfalto. Naquela manh tinha encontrado uma 
ratazana enlouquecida, batendo contra as paredes depois de 
ter procurado durante toda a noite a porta da sua casa.
Saram para o patiozinho empedrado onde os primeiros 
caules dos nardos comeavam a endireitar-se. Trinidad 
demorou-se a lanar os ratos mortos na latrina. Quando 
regressou, o padre ngel dispunha-se a tomar o pequeno-
almoo, depois de ter afastado o guardanapo debaixo do qual 
aparecia todas as manhs, como que por um passe de mgica, a 
refeio que lhe era enviada pela viva de Ass.
- Tinha-me esquecido de dizer que no pude comprar o 
arsnico - disse Trinidad ao entrar. - Don Lalo Moscote diz 
que no se pode vender sem ordem do mdico.
- No ser necessrio - retorquiu o padre ngel.
- Morrero todos asfixiados na cova.
Aproximou a cadeira da mesa e comeou a dispor a 
chvena, o prato com fatias-douradas e a cafeteira com um 
drago japons, enquanto Trinidad abria a janela.
-  sempre melhor estarmos preparados para o caso de 
voltarem - afirmou ela. 
O padre ngel serviu-se do caf, parou subitamente e olhou 
Trinidad com a sua bata deformada e as suas botinas de 
deficiente a aproximar-se da mesa.
- Preocupas-te demasiado com isso - disse ele. 
O padre Angel no descobriu nem ento, nem antes, qualquer 
indcio de inquietao na apertada selva das sobrancelhas de 
Trinidad. Sem conseguir reprimir um leve tremor dos dedos, 
acabou de encher a chvena, lanou-lhe duas colherinhas de 
acar, e comeou a mexer o lquido com o olhar fixo no 
crucifixo pendurado na parede.
- Desde quando no te confessas?
- Desde sexta-feira - respondeu Trinidad.
- Diz-me uma coisa - perguntou o padre ngel.
- Escondeste-me alguma vez algum pecado?
Trinidad negou com a cabea. O padre ngel fechou os olhos. 
De repente, parou de mexer o caf, pousou a colherzinha no 
pires e agarrou Trinidad por um brao.
- Ajoelha-te - ordenou o padre.
Desconcertada, Trinidad pousou a caixa de carto no cho 
e ajoelhou-se diante dele.
- Reza o Eu Pecador - disse o padre ngel, pondo na sua 
voz o tom paternal do confessionrio. 
Trinidad fechou os punhos contra o peito, rezando num 
murmrio indecifrvel, at que o padre lhe ps a mo no ombro 
e exclamou: 
- Bem !
- Disse mentiras - confessou Trinidad.
- Que mais ?
- Tive maus pensamentos.
Era a ordem habitual da sua confisso. Enumerava sempre 
os seus pecados de um modo genrico e sempre pela mesma 
ordem. Daquela vez, no entanto, o padre Angel no pde 
resistir  vontade de os aprofundar.
- Por exemplo? - perguntou.
- No sei - vacilou Trinidad. - s vezes temos maus 
pensamentos.
O padre ngel endireitou-se.
- Nunca te passou pela cabea a ideia de te matares?
- Ave, Maria Purssima! - exclamou Trinidad sem levantar a 
cabea, batendo ao mesmo tempo com os ns dos dedos na perna 
da mesa. Depois respondeu: - No, padre.
O padre ngel obrigou-a a levantar a cabea e reparou, 
com um sentimento de desolao, que os olhos da rapariga 
comeavam a encher-se de lgrimas.
- Isso quer dizer que o arsnico era realmente para os 
ratos.
- Claro, padre!
- Ento, porque choras?
Trinidad tentou baixar a cabea, mas ele sustentou-lhe o 
queixo com toda a energia. Ela soltou-se em lgrimas. O padre 
ngel sentiu-as correr como um vinagre morno entre os seus 
dedos.
- Trata de serenar - disse-lhe. - Ainda no terminaste a 
confisso.
Deixou-a desafogar-se num pranto silencioso. Quando 
percebeu que tinha acabado de chorar, ordenou-lhe suavemente 
:
- Bem, agora conta.
Trinidad assoou o nariz com a saia e engoliu uma saliva 
grossa e salgada de lgrimas. Ao comear a falar, tinha 
readquirido a sua estranha voz de bartono.
- O meu tio Ambrosio anda a perseguir-me - confessou.
- Como assim?
- Quer que o deixe passar uma noite na minha cama.
- Continua.
- Mais nada - disse Trinidad. - Em nome de Deus, mais 
nada.
- No jures - admoestou-a o padre. Depois perguntou com 
a sua tranquila voz de confessor: - Diz-me uma coisa: com 
quem dormes?
- Com a minha me e as outras - respondeu Trinidad. - 
Sete no mesmo quarto.
- E ele?
- No outro quarto, com os homens - disse Trinidad.
- Nunca foi ao teu quarto? - 
Trinidad negou com a cabea. 
O padre insistiu: 
- Anda, diz-me a verdade, sem receio: nunca tentou passar 
para o teu quarto?
- Uma vez.
- Como foi?
- No sei - respondeu Trinidad. - Quando acordei senti-o 
a meu lado, muito quieto, dizendo que no queria fazer-me 
nada, mas que queria dormir comigo porque tinha medo dos 
galos.
- Que galos ?
- No sei - disse Trinidad. - Foi o que ele disse.
- E tu que respondeste?
- Que se no se fosse embora me punha a gritar para 
acordar toda a gente.
- E ele que fez?
- Cstula acordou e perguntou-me o que estava a 
acontecer e eu respondi que nada, que devia ter estado a 
sonhar, e ento ele ficou quieto como um morto, e quase nem 
reparei quando ele saiu.
- Estava vestido - disse o padre, de um modo afir 
mativo.
- Estava como costuma dormir - retorquiu Trinidad. - S 
com as calas.
- No tentou tocar-te?
- No, padre.
- Diz-me a verdade.
-  verdade, padre - insistiu Trinidad. - Por amor de 
Deus.
O padre ngel voltou a levantar a cabea e enfrentou o 
brilho triste dos olhos humedecidos da rapariga.
- Porque no me contaste?
- Tinha medo.
- Medo de qu?
- No sei, padre.
Colocou-lhe a mo no ombro e aconselhou-a longa mente. 
Trinidad aprovava com a cabea. Quando terminaram, comeou a 
rezar com ela, em voz muito baixa: Senhor meu Jesus Cristo, 
Deus e Homem verdadeiro..." Rezava profundamente, com um 
certo terror, fazendo no decurso da orao uma reviso mental 
da sua vida at onde a memria lhe permitia. No momento de 
dar a absolvio tinha comeado a apoderar-se-lhe do esprito 
um sentimento de desgraa.

O alcaide empurrou a porta, gritando:
- Juiz!
A mulher do juiz Arcadio apareceu, a secar as mos na 
saia.
- H duas noites que no vem - anunciou ela.
- Maldito seja - disse o alcaide. - Ontem no apareceu 
no tribunal. Ando  procura dele por todos os
lados para um assunto urgente e ningum me d notcias dele. 
No faz ideia onde ele possa estar?
- Em alguma casa de putas.
O alcaide saiu sem fechar a porta. Entrou na sala de 
bilhar, onde o gira-discos automtico moa uma cano 
romntica a todo o volume e foi directamente ao aposento do 
fundo, gritando:
- Juiz !
O proprietrio, Don Roque, interrompeu a operao de 
engarrafar rum a partir de um grande garrafo.
- No est, tenente - gritou. 
O alcaide passou para o outro lado da divisria. Grupos de 
homens jogavam as cartas. Ningum tinha visto o juiz Arcadio.
- Caralho - disse o tenente. - Nesta terra sabe-se 
sempre o que toda a gente faz, e agora que preciso do juiz 
ningum sabe onde se meteu.
- Pergunte ao que pe os pasquins - retorquiu Don Roque.
- No me fodam com os papelinhos - disse o alcaide.
O juiz Arcadio tambm no se encontrava no seu gabinete. 
Eram apenas nove horas, mas o escrivo j cabeceava um sono 
no corredor do ptio. O alcaide foi ao quartel da Polcia, 
mandou vestir trs agentes e obrigou-os a procurar o juiz 
Arcadio na sala de baile e nos quartos de trs mulheres 
clandestinas conhecidas de toda a gente. Depois saiu para a 
rua sem seguir uma direco determinada. Na barbearia, 
deitado na cadeira e com a cara envolta numa toalha quente, 
encontrou o juiz Arcadio.
- Maldito seja, juiz - gritou -, h dois dias que ando  
sua procura.
O barbeiro retirou a toalha e o alcaide viu uns olhos 
esbugalhados e o queixo ensombrado por uma barba de trs 
dias.
- Voc anda perdido, enquanto a sua mulher est a parir.
O juiz Arcadio saltou da cadeira:
- Merda!
O alcaide riu ruidosamente, empurrando-o para a cadeira.
- No seja tolo - disse ele. - Estou  sua procura para 
outra coisa. - O juiz Arcadio voltou a estirar-se com os 
olhos fechados. - Acabe com isso e venha ao gabinete - 
acrescentou o alcaide. - Fico  sua espera.
- Sentou-se no escano e perguntou: - Por onde raio andou todo 
este tempo?
- Por a - respondeu o juiz.
O alcaide no frequentava a barbearia. Uma vez tinha 
reparado no letreiro pregado na parede:  proibido falar de 
poltica", mas tinha-lhe parecido natural. Daquela vez, no 
entanto, resolveu dar-lhe uma ateno especial.
- Guardiola - chamou.
O barbeiro limpou a navalha nas calas e permaneceu em 
suspenso.
- O que , tenente?
- Quem te autorizou a pr ali aquele letreiro? perguntou 
o alcaide, apontando o aviso.
- A experincia - respondeu o barbeiro. 
O alcaide levou um banco at ao fundo da sala e subiu nele 
para retirar o papel.
- Aqui s o Governo tem o direito de proibir seja o que 
for - disse. - Estamos numa democracia. 
O barbeiro voltou ao trabalho. 
- Ningum pode impedir que as pessoas expressem as suas 
ideias - prosseguiu o alcaide, rasgando o aviso. 
Deitou os pedaos no cesto do lixo e foi lavar as mos.
- Ests a ver, Guardiola - sentenciou o juiz Arcadio -, 
o que te acontece por seres parvo?
O alcaide procurou o barbeiro no espelho e viu-o 
absorvido no seu trabalho. No o perdeu de vista enquanto 
secava as mos.
- A diferena entre antes e agora,  que antes mandavam 
os polticos e agora manda o Governo.
- Ests a ouvi-lo, Guardiola? - perguntou o juiz Arcadio 
com a cara coberta de espuma.
- Claro - respondeu o barbeiro.
Ao sair, empurrou o juiz Arcadio para o tribunal. 
Sob a chuvinha persistente, as ruas pareciam pavimentadas de 
sabo fresco.
- Sempre acreditei que aquilo  um ninho de 
conspiradores - disse o alcaide.
- Eles falam - retorquiu o juiz Arcadio. - Mas no 
passam da.
- O que me chateia  isso mesmo - disse o alcaide. -  
pareceram demasiado mansos.
- Na histria da humanidade - sentenciou o juiz
- no houve um nico barbeiro conspirador. Em troca, no 
houve um nico alfaiate que o no tenha sido.
No soltou o brao do juiz Arcadio enquanto no o 
instalou na cadeira giratria. O escrivo entrou, a bocejar, 
com uma folha de papel escrita  mquina.
-  isso - disse ele ao alcaide. - Vamos trabalhar. 
Inclinou o chapu para a nuca e mostrou a folha.
- O que  isso?
-  para o juiz - respondeu o escrivo. -  a lista 
das pessoas a quem no puseram pasquins.
O alcaide olhou para o juiz com uma expresso de 
perplexidade.
- Caramba! - exclamou. - Tambm voc est 
dependente desta histria de merda?
-  como ler romances policiais - desculpou-se o 
juiz. 
O alcaide leu a lista.
-  uma boa pista - explicou o escrivo. - O autor 
tem de ser um desses. No  lgico?
O juiz Arcadio tirou a folha ao alcaide.
- Este  maluco de todo - disse ele, dirigindo-se 
ao alcaide. Depois falou ao escrivo: - Se eu ponho os 
pasquins, a primeira coisa que fao  pr um na minha prpria 
casa para evitar qualquer suspeita. - E perguntou ao alcaide: 
- No acha, tenente?
- So jogos das pessoas - respondeu o alcaide -, e 
elas sabero porque o fazem. Ns no temos que suar essa 
camisa.
O juiz Arcadio rasgou a folha, fez com ela uma bola e atirou-
a para o ptio:
- Tem razo - concluiu.
Antes da resposta, j o alcaide tinha esquecido o 
incidente. Apoiou as palmas das mos na secretria e disse:
- Bem, o problema para o qual quero que encontre soluo 
nos seus livros  este: devido s inundaes, a gente da zona 
baixa transportou as suas casas para os terrenos situados 
atrs do cemitrio. Esses terrenos so minha propriedade. Que 
tenho que fazer, neste caso?
O juiz Arcadio sorriu.
- Para tal no tnhamos necessidade de vir aqui - 
respondeu o juiz. -  a coisa mais simples do mundo: o 
municpio adjudica os terrenos aos colonos e paga a 
indemnizao correspondente a quem demonstre possu-los a 
justo ttulo.
- Tenho as escrituras - retorquiu o alcaide.
- Ento resta apenas nomear peritos para fazerem a 
avaliao - disse o juiz. - O municpio paga.
- Quem os nomeia?
- Podem ser nomeados por si.
O alcaide caminhou para a porta, ajustando o coldre do 
revlver. Vendo-o afastar-se, o juiz Arcadio pensou que a 
vida no era mais do que uma sucesso contnua de 
oportunidades para sobreviver.
- No vale a pena ficar nervoso por uma questo to 
simples - disse ele, sorrindo.
- No estou nervoso - respondeu o alcaide, com ar srio 
-, mas no deixa de ser um problema.
- Evidentemente, tem de nomear antes o delegado. 
O alcaide olhou o juiz:
-  assim?
- Em estado de stio no  absolutamente indispensvel - 
disse o juiz -, mas  evidente que a sua posio estaria 
menos vulnervel se, nesse caso, interviesse um delegado, 
dada a casualidade de os terrenos em litgio serem seus.
- Ento  preciso nome-lo - concluiu o alcaide.

O senhor Benjamn mudou o p na caixa do engraxador,sem tirar 
a vista dos galinceos que disputavam entre si uma tripa no 
meio da rua.Observou os movimentos difceis dos 
animais,cerimoniosos,como que a danarem uma dana antiga,e 
admirou a fidelidade representativa dos homens que se 
disfaram de galinceos no domingo da Quinquagsima.O rapaz 
sentado a seus ps untou com xido de zinco o outro sapato e 
deu uma pancada na caixa para significar a ordem de mudar 
novamente de p.
O senhor Benjamn,que em outras pocas vivera de
escrever memoriais,nunca tinha pressa para nada.
O tempo possua uma velocidade imperceptvel dentro
daquela loja que ele tinha comido centavo a centavo,at
a reduzir a um galo de petrleo e um mao de velas de
sebo.
- Apesar de chover,continua a fazer calor - anunciou o 
rapaz.
O senhor Benjamn no concordou.Vestia impecavelmente de 
linho imaculado.O rapaz,em troca,tinha as costas empapadas.
- O calor  uma questo mental - disse o senhor
Benjamn.- Tudo consiste em no lhe prestar ateno.
O rapaz no fez comentrios.Deu outra pancada na
caixa e um momento depois o trabalho estava concludo.
No interior da sua lgubre loja de armrios vazios,o 
senhor Benjamn vestiu o casaco.Depois ps um chapu de palha 
entrelaada,atravessou a rua protegendo-se da chuvinha com o 
guarda-chuva,e bateu na janela da casa em frente.Pela porta 
entreaberta assomou uma rapariguinha de cabelos de um negro 
intenso e pele muito plida.
- Bom dia,Mina - disse o senhor Benjamn.-
Ainda no vais almoar?
Ela respondeu que no e acabou por abrir a janela.
Estava sentada diante de um grande cesto com arames cortados 
e papis coloridos. Tinha no regao um novelo de fio, uma 
tesoura e um ramo de flores artificiais por acabar. Um disco 
tocava, l dentro.
- Fazes-me o favor de deitar um olho para a loja 
enquanto eu no estou? - pediu o senhor Benjamn.
- Demora?
O senhor Benjamn estava atento ao disco.
- Vou at ao dentista - respondeu. - Volto daqui a meia 
hora.
- Est bem - disse Mina. - A cega no quer que eu me 
demore  janela.
O senhor Benjamn deixou de ouvir o disco. 
- Todas as canes de agora so iguais, comentou. Mina 
levantou uma flor terminada no extremo com um comprido arame 
forrado em papel verde. F-la girar com os dedos, fascinada 
com a correspondncia perfeita entre o disco e a flor.
- O senhor no gosta de msica? - perguntou. 
Mas o senhor Benjamn tinha partido, caminhando em bicos de 
ps para no espantar os galinceos. Mina no recomeou o 
trabalho enquanto no o viu bater na casa do dentista.
- Na minha maneira de ver - disse o dentista ao abrir a 
porta-, o camaleo tem a sensibilidade nos olhos.
-  possvel - admitiu o senhor Benjamn. - Mas a que 
propsito vem isso?
- Acabo de ouvir no rdio que os camalees cegos no 
mudam de cor - respondeu o dentista.
Depois de colocar o guarda-chuva aberto na varanda, o 
senhor Benjamn pendurou no mesmo prego o chapu e o casaco e 
ocupou a cadeira. O dentista amassava no almofariz uma pasta 
rosada.
- Dizem-se muitas coisas - disse o senhor Ben jamn.
No s naquele instante, mas em qualquer outra 
circunstncia, falava com uma inflexo misteriosa.
- Sobre os camalees?
- Sobre todas as coisas.
O dentista aproximou-se da cadeira com a pasta 
terminada, para tirar o molde. O senhor Benjamn extraiu a 
velha dentadura postia, envolveu-a num leno e pousou-a numa 
prateleira de vidro junto da cadeira. Sem dentes, com os seus 
ombros estreitos e membros esqulidos, tinha algo de santo. 
Depois de ajustar a pasta no palato, o dentista mandou-o 
fechar a boca.
-  isso - disse, olhando-o nos olhos. - Sou um 
covarde.
 O senhor Benjamn tentou uma inspirao profunda, mas o 
dentista manteve-o de boca fechada. No", respondeu 
interiormente. No  isso." Sabia, como toda a
gente, que o dentista fora o nico condenado  morte que no 
abandonara a sua casa. Tinham-lhe furado as paredes a tiro, 
haviam-lhe dado um prazo de vinte e quatro horas para 
abandonar a terra, mas no conseguiram dobr-lo. Tinha 
transladado o consultrio para um quarto interior, e 
trabalhou com o revlver ao alcance da mo, sem perder as 
estribeiras, at terem passado os longos meses de terror.
Enquanto trabalhava, o dentista viu assomar vrias 
vezes aos olhos do senhor Benjamn a mesma resposta expressa 
em diversos graus de angstia. Mas manteve-lhe a boca 
fechada, esperando que a pasta secasse. Depois retirou o 
molde.
- No me referia a isso - desafogou-se, finalmente.
- Referia-me aos pasquins.
- Ah! - exclamou o dentista. - De maneira que 
tambm ests pendente do caso?
-  um sintoma de decomposio social - disse o senhor 
Benjamn.
Tinha voltado a pr a dentadura postia e iniciava 
o meticuloso processo de vestir o casaco.
-  um sintoma de que tudo se sabe, mais tarde ou 
mais cedo - disse o dentista, com indiferena. 
Olhou o cu turvo atravs da janela e props: 
- Se quiseres, espera que passe.
O senhor Benjamn pendurou o guarda-chuva no brao.
- A loja est sem ningum - disse ele olhando por sua 
vez a pesada nuvem negra de chuva. Despediu-se com o chapu. 
- Tira essa ideia da cabea, Aurelioacrescentou da porta. - 
Ningum tem o direito de pensar que s um covarde por teres 
tirado um dente ao alcaide.
- Nesse caso, espera um segundo. - Avanou at  porta e 
deu ao senhor Benjamn uma folha dobrada.L-a e f-la 
circular.
O senhor Benjamn no teve necessidade de desdobrar a 
folha para saber do que se tratava. Olhou-o, boquiaberto :
- Outra vez?
O dentista afirmou que sim com a cabea e permane ceu na 
porta, at o senhor Benjamn ter sado.
Ao meio-dia a mulher chamou-o para almoar. ngela, a 
filha de vinte anos, cerzia meias na sala de jantar mobilada 
de modo simples e pobre, com coisas que pareciam ter sido 
velhas desde o incio. No peitoril de madeira que dava para o 
ptio, havia uma fila de vasos pintados de vermelho com 
plantas medicinais.
- O pobre Benjamn - disse o dentista no momento de 
ocupar o seu lugar  mesa - est preocupado com os pasquins.
- Todo o mundo est preocupado - retorquiu a mulher.
- As Tovar vo-se embora daqui - interveio ngela.
A me recebeu os pratos para servir a sopa.
- Esto a vender a toda a pressa - disse ela. 
Ao aspirar o aroma clido da sopa, o dentista sentiu-se 
alheado das preocupaes da sua mulher.
- Mais tarde voltaro - disse ele. - A vergonha tem 
fraca memria.
Soprando na colher antes de comer a sopa, esperou o 
comentrio da filha, uma rapariga de aspecto um pouco
rido, como ele, cujo olhar desprendia, no entanto, uma rara 
vivacidade. Mas ela no correspondeu  sua expectativa. Falou 
do circo. Disse que havia um homem que cortava a mulher pelo 
meio com um serrote, um ano que cantava com a cabea metida 
na boca de um leo e um trapezista que dava o triplo salto 
mortal em cima de uma plataforma cheia de facas. O dentista 
ouviu-a, comendo em silncio. No fim prometeu que naquela 
noite, se no chovesse, iriam todos ao circo.
No quarto, enquanto pendurava a rede para a sesta, 
compreendeu que a promessa no tinha alterado a disposio da 
sua mulher. Tambm ela estava disposta a abandonar aquela 
terra se lhe pusessem um pasquim.
O dentista ouviu-a sem se surpreender:
- Seria bonito que no tivessem podido mandar-nos embora 
a tiro - disse ela - e agora nos expulsassem com um papel 
colado na porta.
O dentista tirou os sapatos, deitou-se na rede com as 
meias caladas e afirmou, tranquilizando-a:
- Mas no te preocupes, que no h o menor perigo de 
fazerem isso.
- No respeitam ningum - retorquiu a mulher.
- Depende - disse o dentista. - Comigo sabem que a coisa 
tem outro preo.
A mulher estendeu-se na cama com um ar de cansao 
infinito.
- Se pelo menos se soubesse quem os pe.
- Quem os pe, sabe - concluiu o dentista.

O alcaide costumava passar dias inteiros sem comer. 
Simplesmente, esquecia-se. A sua actividade, febril em certas 
ocasies, era to irregular como as prolongadas pocas de 
cio e aborrecimento em que vagueava pela terra sem qualquer 
propsito, ou se encerrava no gabinete blindado, sem 
conscincia do decurso do tempo. Sempre sozinho, sempre um 
pouco ao acaso, no tinha um interesse especial, nem se 
lembrava de uma poca pautada por costumes regulares. S 
impulsionado por uma necessidade irresistvel aparecia no 
hotel a qualquer hora e comia o que lhe servissem.
Naquele dia almoou com o juiz Arcadio. Ficaram juntos 
toda a tarde, at ter sido legalizada a venda dos terrenos. 
Os peritos cumpriram o seu dever. O delegado, nomeado com 
carcter de interinidade, desempenhou o seu cargo durante 
duas horas. Pouco depois das quatro, ao entrar na sala de 
bilhar, ambos pareciam regressar de uma penosa incurso no 
futuro.
- Ainda bem que este assunto est arrumado - disse o 
alcaide, sacudindo as palmas das mos.
O juiz Arcadio no lhe prestou ateno. O alcaide viu-o 
a procurar s cegas um banquinho e deu-lhe um analgsico.
- Um copo de gua - ordenou a Don Roque.
- Uma cerveja gelada - corrigiu o juiz Arcadio, com a 
testa apoiada no balco.
- Ou uma cerveja gelada - rectificou o alcaide, pondo o 
dinheiro em cima do balco. - Ganhou-a, trabalhando como um 
homem.
Depois de beber a cerveja, o juiz Arcadio esfregou o 
couro cabeludo com os dedos. O estabelecimento agitava-se num 
ar de festa esperando o desfile do circo.
O alcaide viu-o passar da sala de bilhar. Sacudida pelos 
cobres e latas da banda, passou primeiro uma rapariga com um 
trajo prateado, em cima de um elefante ano de orelhas como 
folhas de malanga. Atrs vieram os palhaos e os trapezistas. 
A chuva tinha parado por completo, os ltimos raios de sol 
aqueciam a tarde lavada. Quando a msica parou para que o 
homem em cima das andas lesse o prego, todo o povoado 
pareceu elevar-se do cho num silncio de milagre.
O padre ngel, que viu o desfile da sua salinha, ficou 
com o ritmo da msica na cabea. Aquele bem-estar resgatado 
da infncia acompanhou-o durante o jantar e depois de noite, 
at ter terminado de controlar as entradas no cinema e se 
encontrar novamente consigo mesmo, no seu quarto. Depois de 
rezar, permaneceu num xtase melanclico na cadeira de 
balouo, de verga, sem reparar no bater das nove nem quando o 
altifalante do cinema se calou e em seu lugar ficou o coaxar 
de um sapo. Dali foi para a mesa de trabalho, redigir uma 
nota para o alcaide.
Num dos lugares de honra do circo, que ocupara a 
instncias do empresrio, o alcaide presenciou o nmero 
inicial dos trapzios e uma entrada dos palhaos. Depois 
apareceu Casandra, vestida de veludo negro e com os olhos 
vendados, oferecendo-se para adivinhar o pensamento dos 
espectadores. O alcaide fugiu. Fez uma ronda de rotina pelas 
ruas da terra e s dez foi ao comando. Ali o esperava, em 
carto-de-visita e com letra muito composta, a mensagem do 
padre ngel. Alarmou-o o formalismo da solicitao.
O padre ngel comeava a despir-se quando o alcaide 
bateu  porta.
- Caramba - disse o proco -, no o esperava to 
depressa. - O alcaide descobriu a cabea antes de entrar.
- Gosto de responder a tempo s cartas - retorquiu 
sorrindo.
Lanou o bon, fazendo-o girar como um disco, para a 
cadeira de verga. Sob a prateleira das talhas, havia algumas 
garrafas de gasosa postas a refrescar na gua de um alguidar. 
O padre ngel tirou uma.
- Bebe uma limonada?
O alcaide aceitou.
- Tomei a liberdade de o incomodar - disse o padre, indo 
direito ao seu propsito - para manifestar a minha 
preocupao pela sua indiferena perante os pasquins.
Disse-o de um modo que poderia ser interpretado como uma 
brincadeira, mas o alcaide tomou-o  letra. Perguntou a si 
mesmo, perplexo, como era possvel que a preocupao com os 
pasquins tivesse podido arrastar o padre ngel at quele 
ponto.
-  estranho, padre, que tambm o senhor esteja pendente 
desse caso.
O padre ngel procurava em todas as gavetas, sem o 
encontrar, o abre-latas. Respondeu, um pouco atarantado, sem 
saber o que fazer com a garrafa:
- No so os pasquins em si mesmo aquilo que me 
preocupa. O que me traz apreensivo , digamos, um certo 
estado de injustia que h em tudo isto.
O alcaide tirou-lhe a garrafa da mo e abriu-a na espora 
da bota, com uma habilidade da mo esquerda que chamou a 
ateno do padre ngel. Lambeu no gargalo da garrafa a espuma 
que saa.
- H uma vida privada - comeou a falar, sem conseguir 
uma concluso. Muito a srio, padre, no vejo o que se possa 
fazer.
O padre instalou-se na mesa de trabalho.
- Devia saber - retorquiu o padre. - Ao fim e ao cabo 
no  nada de novo para si. - Percorreu o aposento com um 
olhar impreciso e disse noutro tom: - Seria preciso fazer 
alguma coisa antes de domingo.
- Hoje  quinta-feira - precisou o alcaide.
- Estou consciente da escassez do tempo - respondeu o 
padre. E acrescentou num impulso recndito:Mas talvez no 
seja demasiado tarde para que o senhor cumpra o seu dever.
O alcaide tentou torcer o gargalo  garrafa. O padre 
ngel viu-o passear-se de um extremo ao outro do aposento, 
aprumado e esbelto, sem qualquer sinal de perda fsica, e 
experimentou um definido sentimento de inferioridade.
- Como v - reafirmou -, no se trata de nada de 
excepcional.
Na torre, bateram as onze horas. O alcaide esperou at 
que a ltima ressonncia se desvanecesse e ento inclinou-se 
diante do padre, com as mos apoiadas na mesa. O rosto tinha 
a mesma ansiedade reprimida que a voz iria revelar.
- Olhe uma coisa, padre - comeou. - A terra est 
tranquila, as pessoas comeam a ter confiana na autoridade. 
Qualquer manifestao de fora neste momento seria um risco 
grande de mais para uma coisa sem importncia de maior.
O padre ngel aprovou com a cabea. Tentou explicar-se.
- Refiro-me, de um modo geral, a certas medidas da 
autoridade.
- Em todo o caso - prosseguiu o alcaide sem mudar de 
atitude -, eu tomo em conta as circunstncias. O senhor sabe: 
tenho a seis agentes fechados no quartel a ganhar o seu 
soldo sem fazerem nada. No consegui que os mudassem.
- Bem sei - disse o padre ngel. - No o culpo de nada.
- Actualmente - prosseguiu o alcaide com veemncia, sem 
se preocupar com as interrupes - no  segredo para ningum 
que trs deles so criminosos comuns, tirados das prises e 
disfarados de polcias. Tal como as coisas esto, no vou 
correr o risco de os mandar para a rua caar um fantasma.
O padre ngel abriu os braos.
- Claro, claro - reconheceu com deciso. - Isso  
evidente, est fora de questo. Mas porque no recorre, por 
exemplo, aos bons cidados?
O alcaide esticou-se, bebendo da garrafa a sorvos 
rpidos. Tinha o peito e as costas empapados de suor.
- Os bons cidados, como o senhor diz, riem  gargalhada 
dos pasquins - afirmou o alcaide.
- Nem todos.
- Alm do mais, no  justo alarmar as pessoas por uma 
coisa que ao fim e ao cabo no vale a pena. Francamente, 
padre - concluiu de bom humor -, at esta noite no me tinha 
passado pela ideia que o senhor e eu tivssemos alguma coisa 
a ver com esse assunto.
O padre Angel assumiu uma atitude maternal.
- At certo ponto, sim - respondeu, iniciando uma 
laboriosa justificao, na qual j se encontravam pargrafos 
amadurecidos do sermo que tinha comeado a ordenar 
mentalmente desde o dia anterior ao almoo, em casa da viva 
de Ass. 
- Trata-se, se assim se pode dizer - concluiu -, de um caso 
de terrorismo da ordem moral.
O alcaide sorriu abertamente.
- Bem, bem - quase o interrompeu. - Tambm no  caso 
para gastar filosofia a propsito dos papelinhos, padre. - 
Abandonando na mesa a garrafa por terminar, transigiu com boa 
disposio: - Se me pe as coisas dessa maneira, veremos o 
que se pode fazer.
O padre ngel agradeceu. No era nada grato, segundo 
revelou, subir ao plpito no prximo domingo com uma tal 
preocupao. O alcaide tinha tentado compreend-lo. Mas 
reparara que j era muito tarde e que estava a fazer o proco 
perder a noite.
 
O rufo do tambor reapareceu como um espectro do passado. 
Estalou frente  sala de bilhar, s dez da manh, e susteve a 
terra em equilbrio no seu puro centro de gravidade, at que 
bateram as trs severas advertncias do final e se 
restabeleceu a angstia.
- A morte! - exclamou a viva de Montiel, ao ver 
abrirem-se as portas e as janelas e pessoas surgirem de toda 
a parte em direco  praa. - A morte chegou!
Refeita da impresso inicial, abriu as cortinas da 
varanda e observou o tumulto em torno do agente da Polcia 
que se dispunha a ler o edital. Havia na praa um silncio 
grande de mais para a voz do pregoeiro. Apesar da ateno que 
ps para tentar ouvir, pondo a mo em concha atrs da orelha, 
a viva de Montiel s conseguiu entender duas palavras.
Ningum conseguiu inform-la, na casa. O edital tinha 
sido lido com o mesmo ritual autoritrio de sempre, uma nova 
ordem reinava no mundo, e ela no encontrava ningum que o 
tivesse ouvido. A cozinheira ficou alarmada ao ver-lhe a 
palidez.
- O que dizia o edital?
-  isso que estou a tentar averiguar, mas ningum sabe 
nada. Evidentemente - acrescentou a viva -, desde que o 
mundo  mundo um prego desses nunca trouxe nada de bom.
A cozinheira saiu ento para a rua e voltou com os
pormenores. A partir dessa noite e at terem cessado as 
razes que o motivavam, era restabelecido o recolher 
obrigatrio. Ningum podia sair para a rua depois das oito da 
noite at s cimco da manh, sem um salvo-conduto assinado e 
selado pelo alcaide. A Polcia tinha ordem para dar trs 
vezes voz de alto a qualquer pessoa encontrada na rua nesse 
perodo e disparar no caso de no ser obedecida. O alcaide 
organizaria rondas de civis, designados por ele mesmo para 
colaborarem com a Polcia na vigilncia nocturna.
Mordiscando as unhas, a viva de Montiel perguntou quais 
as causas de uma tal medida.
- No edital no est escrito - respondeu a cozi nheira -
, mas toda a gente o diz: os pasquins.
- O corao j me tinha respondido! - exclamou a viva, 
aterrorizada. - A morte est encarniada contra esta terra.
Mandou chamar o senhor Carmichael. Obedecendo a uma 
fora mais antiga e mais madura que um impulso, mandou 
retirar do depsito e levar para o seu quarto a mala de couro 
com cravos de cobre que Jos Montiel tinha comprado para a 
sua nica viagem, um ano antes de morrer. Tirou do armrio 
alguns vestidos, roupa interior e sapatos, ordenando tudo no 
fundo da mala. Ao faz-lo, comeou a sentir a sensao de 
repouso absoluto com que tantas vezes tinha sonhado, 
imaginando-se longe dali, daquela terra e daquela casa, num 
quarto com um fogo e um terracinho para cultivar orgos, 
onde s ela tivesse o direito de se recordar de Jos Montiel, 
e a sua nica preocupao fosse esperar pelas tardes de 
segunda-feira para ler as cartas das filhas.
Tinha emalado apenas a roupa indispensvel: o 
estojo de couro com tesouras, ligaduras e o frasquinho de 
tintura de iodo, os utenslios de costura e depois a caixa de 
sapatos com o rosrio e os livros de oraes, e j a 
atormentava a ideia de que levava mais coisas do que aquelas 
que Deus podia perdoar. Ento meteu o So Rafael de gesso 
dentro de uma meia, acomodou-o cuidadosamente entre os trapos 
e fechou a mala.
Quando o senhor Carmichael chegou, encontrou-a vestida com as 
suas roupas mais modestas. Naquele dia, como um sinal 
promissor, o senhor Carmichael no trazia o guarda-chuva. Mas 
a viva no reparou. Tirou da carteira todas as chaves da 
casa, cada uma com indicao escrita  mquina num 
cartozinho, e entregou-as, dizendo:
- Coloco nas suas mos o pecaminoso mundo de Jos 
Montiel. Faa com ele o que lhe der na gana.
O senhor Carmichael receava h muito tempo a chegada 
daquele momento.
- Quer dizer - gaguejou - que a senhora pretende sair 
daqui durante um tempo, enquanto estas coisas se passam.
A viva respondeu com voz repousada, mas de um modo 
rotundo :
- Vou-me embora para sempre.
O senhor Carmichael, sem demonstrar o seu alarme, p-la 
ao corrente da situao. Em sntese, a herana de Jos 
Montiel no tinha sido legalizada. Muitos dos bens adquiridos 
de qualquer maneira e sem tempo para se cumprirem 
formalidades encontravam-se numa situao legal indefinida. 
Enquanto no se pusesse em ordem aquela fortuna catica, da 
qual o prprio Jos Montiel no tivera nos ltimos anos de 
vida uma noo aproximada, era impossvel fazer partilhas e 
liquidar o imposto sucessrio. O filho mais velho, no seu 
posto consular na Alemanha, e as suas duas filhas, fascinadas 
pelos delirantes mercados de carne de Paris, tinham de 
regressar ou de nomear procuradores para fazerem valer os 
seus direitos. Antes disso, nada se podia vender.
A momentnea iluminao daquele labirinto, onde estava 
perdida desde h dois anos, no conseguiu desta vez comover a 
viva de Montiel.
- No importa - insistiu. - Os meus filhos so felizes 
na Europa e no tm nada a fazer neste pas de selvagens, 
como eles lhe chamam. Se o senhor quiser, senhor Carmichael, 
faa um pacote com tudo o que se encontrar nesta casa e 
deite-o aos porcos.
O senhor Carmichael no a contrariou. Com o pretexto de 
que seria preciso, de qualquer maneira, preparar algumas 
coisas para a viagem, saiu  procura do mdico.

- Agora vamos ver, Guardiola, em que consiste o teu 
patriotismo. O barbeiro e o grupo de homens que conversava na 
barbearia reconheceram o alcaide antes de o verem  porta. - 
E tambm o de vocs - prosseguiu, apontando os mais novos. - 
Esta noite tero a espingarda que tanto desejaram, vamos a 
ver se so to ordinrios que as voltem contra ns. - Era 
impossvel confundir o tom cordial das suas palavras.
- Era melhor uma vassoura - respondeu o barbeiro. - Para 
caar bruxas, no h melhor espingarda do que uma vassoura.
Nem sequer o olhou. Estava a barbear o primeiro cliente 
da manh, e no tomava o alcaide a srio. S quando o viu a 
averiguar quais do grupo eram reservistas e estavam pois 
capacitados para manobrar uma espingarda, o barbeiro 
compreendeu que de facto era um dos escolhidos.
-  verdade, tenente, que nos vai pr nessa tarefa?
- Caralho! - respondeu o alcaide. - Passam a vida a 
suspirar por uma espingarda e agora que a vo ter no 
conseguem acreditar. - Parou atrs do barbeiro, um lugar de 
onde podia dominar todo o grupo pelo espelho.
- Falo a srio - acrescentou, alterando a voz para um tom 
autoritrio. - Esta tarde, s seis, os reservistas de 
primeira classe apresentam-se no quartel.
O barbeiro enfrentou-o, pelo espelho:
- E se me d uma crise nos pulmes? - perguntou.
- Curamos-te na cadeia - respondeu o alcaide. 
O gira-discos da sala de bilhar distorcia um bolero 
sentimental. A sala estava vazia, mas em algumas mesas havia 
garrafas e copos ainda com bebida por consumir.
- Agora, sim - disse Don Roque, vendo entrar o alcaide. - 
Acabou de se armar nova trapalhada. Teremos de fechar s 
sete.
O alcaide seguiu directamente at ao fundo da sala, onde 
tambm as mesas de jogo estavam desocupadas. Abriu a porta do 
urinol, deu uma olhada ao armazm, e regressou ao balco. Ao 
passar junto do bilhar, levantou inesperadamente o pano que o 
cobria at aos ps, dizendo :
- Bem, devem ser uns poltres.
Dois rapazes saram do esconderijo, sacudindo a poeira 
das calas. Um deles estava plido. O outro, mais novo, tinha 
as orelhas a escaldar. O alcaide empurrou-os suavemente at 
s mesinhas da entrada.
- Ento, j sabem - disse. - s seis da tarde no 
quartel.
Don Roque continuava atrs do balco.
- Com esta nova trapalhada - afirmou - teremos de nos 
dedicar ao contrabando.
- Ser por dois ou trs dias - retorquiu o alcaide. 
O proprietrio do cinema apanhou-o na esquina.
- Era s isto o que me faltava - gritou. - Depois das 
doze badaladas, um toque de corneta. - O alcaide deu-lhe uma 
pancadinha no ombro e disse seguindo o seu caminho :
- Vou expropri-lo.
- No pode - gritou o proprietrio. - O cinema no  um 
servio pblico.
- Em estado de stio - argumentou o alcaide -, at o 
cinema pode ser declarado servio pblico.
S ento parou de sorrir. Subiu dois a dois os degraus 
do quartel e ao chegar ao primeiro andar abriu os braos 
novamente.
- Merda! - exclamou. - Voc tambm? Derrubado numa 
cadeira de dobrar, com a negligncia de um monarca oriental, 
estava o dono do circo. Fumava, extasiado, um cachimbo de 
lobo do mar. Como se fosse ele que estivesse em sua casa, fez 
sinal ao alcaide para se sentar.
- Vamos falar de negcios, tenente.
O alcaide sentou-se diante dele. Sustentando o cachimbo 
com a mo empedrada de cores, o empresrio fez um sinal 
enigmtico.
- Posso falar com toda a franqueza? 
O alcaide fez um sinal de que podia.
- Eu soube-o desde que o vi a barbear-se - disse o 
empresrio. - Pois bem: eu, que estou acostumado a conhecer 
as pessoas, sei que este recolher obrigatrio, para si... - O 
alcaide examinava-o com um definido propsito de se entreter. 
-. . em troca, para mim, que j fiz as despesas de instalao 
e tenho de alimentar dezassete pessoas e nove feras,  
simplesmente um desastre.
- E ento ?
- Proponho - respondeu o empresrio - que altere o 
incio do recolher obrigatrio para as onze e poderemos 
repartir entre os dois o lucro das sesses nocturnas.
O alcaide continuou a sorrir, sem mudar de posio na 
cadeira.
- Suponho - disse ele - que no teve muito trabalho para 
encontrar aqui quem lhe dissesse que sou um ladro.
-  um negcio legtimo - protestou o empresrio. 
No reparou em que momento o alcaide passou a uma expresso 
grave.
- Falamos na segunda-feira - disse o tenente, de um modo 
impreciso.
- Na segunda-feira terei empenhado os trastes replicou o 
empresrio. - Somos muito pobres.
O alcaide levou-o at  escada com palmadinhas suaves no 
ombro.
- No me diga isso a mim - disse o alcaide. - Eu conheo 
o negcio. - Junto da escada, acrescentou em tom consolador: 
- Envie-me a Casandra, esta noite.
O empresrio tentou voltar-se, mas a mo no ombro 
exercia uma presso decidida.
- Evidentemente - respondeu. - Isso  um dado adquirido.
- Mande-a - insistiu o alcaide - e amanh falaremos.

Com a ponta dos dedos, o senhor Benjamn empurrou a 
porta aramada, mas no entrou na casa. Exclamou, com secreto 
desespero:
- As janelas, Nora!
Nora de Jacob, madura e alta, com o cabelo cortado como 
o de um homem, jazia diante do ventilador elctrico na 
penumbra da sala. Esperava o senhor Benjamn para almoar. Ao 
ouvi-lo, levantou-se com esforo e abriu as quatro janelas 
que davam para a rua. Um jorro de calor entrou na sala de 
ladrilhos com o desenho de um mesmo pavo anguloso, 
indefinidamente repetido, e mveis forrados com tecidos 
floridos. Em cada pormenor se observava um luxo pobre.
- Que h de verdade no que dizem as pessoas?perguntou.
- Dizem-se tantas coisas.
- Sobre a viva de Montiel - precisou Nora de Jacob. - 
Andam a dizer que ficou doida.
- Para mim, est doida h muito tempo - disse o senhor 
Benjamn. E acrescentou com um certo desencanto: -  isso 
mesmo: esta manh tentou atirar-se da varanda.
A mesa, inteiramente visvel da rua, estava preparada 
com um talher em cada extremo.
- Castigo de Deus - afirmou Nora de Jacob batendo palmas 
para que servissem o almoo. Levou a ventoinha elctrica para 
a sala de jantar.
- A casa est cheia de gente desde esta manhdisse o 
senhor Benjamn.
-  uma boa oportunidade de a ver por dentro - replicou 
Nora de Jacob.
Uma menina negra, com a cabea cheia de ns coloridos, 
trouxe para a mesa a sopa a ferver. O cheiro do frango 
invadiu a sala e a temperatura tornou-se intolervel. O 
senhor Benjamn ajustou o guardanapo no pescoo, dizendo: 
Sade." Tentou comer com a colher a ferver.
- Sopra, no sejas tolo - disse ela, 
impaciente.Alm disso, tens de tirar o casaco. Os teus 
escrpulos de no entrar em casa com as janelas fechadas vo 
acabar por me matar de calor.
- Agora  mais indispensvel que nunca - retorquiu 
ele. - Ningum poder dizer que no viu, a partir da rua, 
todos os meus movimentos quando me encontro em tua casa.
Ela mostrou o seu esplndido sorriso ortopdico, 
com uma gengiva de lacre para selar documentos.
- No sejas ridculo! - exclamou. - Por mim, podem 
dizer o que quiserem. - Quando conseguiu engolir a sopa, 
continuou a falar durante as pausas. - Poderia preocupar-me, 
isso sim, com o que dissessem da minha filha Mnica - 
concluiu, referindo-se  sua filha de quinze anos que no 
tinha vindo de frias desde que fora pela primeira vez para o 
colgio. - Mas de mim no podem dizer mais do que aquilo que 
j todos sabem.
O senhor Benjamn no lhe dirigiu, desta vez, o seu 
habitual olhar de desaprovao. Comiam a sopa em silncio, 
separados pelos dois metros do comprimento da mesa, a 
distncia mais curta que alguma vez ele se teria
permitido, sobretudo em pblico. Quando ela estava no 
colgio, vinte anos antes, ele escrevia-lhe umas cartas  
longas e convencionais a que ela respondia com papeli nhos 
apaixonados. Numas frias, durante um passeio campestre, 
Nstor Jacob, completamente embriagado, arrastou-a pelos 
cabelos para um extremo do curral e declarou-se-lhe sem 
alternativas: Se no casares comigo dou-te um tiro." Casaram-
se no fim das frias. Dez anos depois tinham-se separado.
- De qualquer modo - disse o senhor Benjamn no se pode 
estimular com portas fechadas a imaginao das pessoas.
Levantou-se ao terminar o caf.
- Vou-me embora - anunciou. - A Mina deve estar 
desesperada: - Da porta, ao pr o chapu, exclamou: - Esta 
casa est a arder!
-  o que eu te digo - respondeu ela.
Esperou at que o viu despedir-se com uma espcie de 
bno, na ltima janela. Depois levou a ventoinha para o 
quarto, fechou a porta e despiu-se completamente. Por fim, 
como todos os dias depois do almoo, entrou no quarto de 
banho e sentou-se na retrete, sozinha com o seu segredo.
Quatro vezes por dia via passar Nstor Jacob diante da 
casa. Toda a gente sabia que estava instalado com outra 
mulher, que tinha tido com ela quatro filhos e que era 
considerado um pai exemplar. Vrias vezes, nos ltimos anos, 
havia passado com as crianas diante da casa, mas nunca com a 
mulher. Ela tinha-o visto enfraquecer, ficar velho e plido, 
e converter-se num estranho cuja intimidade de outros tempos 
lhe parecia inconcebvel. Por vezes, durante as sestas 
solitrias, tinha tornado a desej-lo de um modo premente: 
no como o via passar diante da casa, mas sim como era na 
poca que precedera o nascimento de Mnica, quando o seu amor 
breve e ocasional ainda no se lhe tinha tornado intolervel.

O juiz Arcadio dormiu at ao meio-dia, por isso no teve 
notcia do edital antes de chegar ao tribunal. O escrivo, 
pelo contrrio, estava alarmado desde as oito, hora a que o 
alcaide lhe pediu que redigisse o decreto.
- De qualquer maneira - reflectiu o juiz Arcadio depois 
de se inteirar dos pormenores -, est concebido em termos 
drsticos. No era necessrio.
-  o mesmo decreto de sempre.
-  verdade - admitiu o juiz. - Mas as coisas mudaram, e 
 preciso que os termos mudem igualmente. As pessoas devem 
estar assustadas.
No entanto, segundo comprovou mais tarde a jogar cartas na 
sala de bilhar, o temor no era o sentimento predominante. 
Havia mesmo, de preferncia, uma sensao de vitria 
colectiva por se confirmar o que estava na conscincia de 
todos: as coisas afinal no tinham mudado. O juiz Arcadio no 
iludiu o alcaide quando saa da sala de jogos.
- Ento os pasquins no tinham importncia - disse-lhe. 
- As pessoas esto felizes.
O alcaide tomou-o pelo brao.
- No se est a fazer nada contra as pessoas - 
retorquiu. -  uma questo de rotina. - O juiz Arcadio 
desesperava-se com aquelas conversas ambulantes. O alcaide 
caminhava com passo firme, como se tivesse diligncias 
urgentes, e depois de muito andar reparava que no ia para 
parte alguma. - Isto no vai durar toda a vida - prosseguiu. 
- Daqui at domingo teremos na gaiola o engraadinho dos 
papelinhos. No sei porqu, penso que seja uma mulher.
O juiz Arcadio no acreditava. Apesar da negligncia com 
que aceitava as informaes do seu escrivo, tinha chegado a 
uma concluso geral: os pasquins no eram obra de uma nica 
pessoa. No pareciam obedecer a um plano concertado. Alguns, 
nos ltimos dias, apresentavam uma nova modalidade: eram 
desenhos.
- Pode acontecer que no seja um homem nem uma mulher - 
concluiu o juiz Arcadio. - Pode acontecer que sejam diversos 
homens e diversas mulheres, actuando cada um por sua conta.
- No me complique as coisas, juiz - disse o alcaide. - 
Devia saber que em todos os sarilhos, embora intervenham 
muitas pessoas, h sempre um culpado.
- Isso  o que diz Aristteles, tenente - replicou o 
juiz Arcadio. E acrescentou, convicto: - De todos os modos, a 
medida parece-me disparatada. Quem os pe esperar 
simplesmente que acabe o recolher obrigatrio.
- No importa - disse o alcaide. - Ao fim e ao cabo  
preciso preservar o princpio da autoridade.
Os recrutas tinham comeado a concentrar-se no quartel. O 
pequeno ptio, de muros altos de cimento, manchados de sangue 
seco e com impactes de projcteis, lembrava os tempos em que 
no era suficiente a capacidade das celas e se expunham os 
presos  intemprie. Naquela tarde, os agentes desarmados 
vagueavam em cales pelos corredores.
- Rovira - gritou o alcaide. - Traz alguma coisa de 
beber a estes rapazes.
O polcia comeou a vestir-se.
- Rum? - perguntou.
- No sejas parvo - gritou o alcaide, de passagem para o 
gabinete blindado. - Qualquer coisa gelada.
Os recrutas fumavam, sentados no ptio. O juiz Arcadio 
observou-os da varanda do segundo andar.
- So voluntrios ?
- Imagine! - exclamou o alcaide. - Tive de os tirar de 
debaixo das camas, como se fossem para a tropa.
O juiz no encontrou uma nica cara desconhecida.
- Pois parecem recrutados pela oposio - disse ele.
As pesadas portas de ao do gabinete exalaram, ao 
abrirem-se, um ar gelado.
- Quer dizer que so bons para a luta - sorriu o 
alcaide, depois de acender as luzes da fortaleza privada. Num 
dos extremos havia um catre de campanha, uma caneca de vidro 
com um copo em cima de um banco e um bacio debaixo do catre. 
Encostadas s paredes nuas, de cimento, havia espingardas e 
metralhadoras portteis. A ventilao s se fazia pelas altas 
e estreitas clarabias de onde se dominava o porto e as duas 
ruas principais. No outro extremo havia uma secretria junto 
de um cofre-forte.
O alcaide marcou a combinao de nmeros necessria para 
abrir o cofre.
- E isso no  nada - anunciou. - Vou distribuir 
espingardas a todos eles.
O polcia entrou atrs dos dois homens. O alcaide 
entregou-lhe algumas notas, dizendo:
- Traga tambm dois maos de cigarros para cada um deles. - 
Quando ficaram novamente sozinhos, o alcaide perguntou ao 
juiz Arcadio: 
- Que lhe parece a manobra?
- Um risco intil - respondeu o juiz, pensativo.
- As pessoas vo ficar de boca aberta - disse o alcaide. 
- Parece-me, alm disso, que estes pobres rapazes no sabero 
o que fazer com as espingardas.
- Talvez estejam agora desconcertados - admitiu o juiz -
, mas isso dura pouco. - Fez um esforo para reprimir a 
sensao de vazio no estmago. - Tenha cuidado, tenente - 
reflectiu. - No v deitar tudo a perder. - O alcaide levou-o 
para fora do gabinete com um gesto enigmtico.
- No tenha medo, juiz - soprou-lhe ao ouvido.
- S tero cartuchos de plvora seca.
Quando desceram ao ptio, as luzes estavam acesas. Os 
recrutas bebiam gasosas debaixo das sujas lmpadas elctricas 
contra as quais se esmagavam os moscardos. Passeando de um 
extremo ao outro do ptio, onde permaneciam algumas poas de 
chuva, o alcaide explicou-lhes, num tom paternal, em que 
consistia a misso dessa noite: seriam colocados aos pares 
nas principais esquinas, com ordem de disparar contra 
qualquer pessoa, homem ou mulher, que desobedecesse s trs 
ordens de Alto!". Recomendou-lhes coragem e prudncia. Depois 
da meia-noite levar-lhes-iam de comer. O alcaide esperava, 
com a ajuda do Senhor, que tudo se passasse sem contratempos, 
e que a aldeia soubesse apreciar aquele esforo das 
autoridades em favor da paz social.

O padre ngel ia levantar-se da mesa quando comearam a 
soar, na torre, as badaladas das oito horas da noite. Apagou 
a luz do ptio, meteu o ferrolho e fez o sinal da Cruz sobre 
o brevirio: Em nome de Deus." Num ptio remoto, cantou um 
alcaravo. Dormitando na frescura do corredor, a viva de 
Ass ouviu a segunda badalada e, sem abrir os olhos, 
perguntou: - Roberto j entrou?" Uma servente acocorada 
contra o gonzo da porta respondeu que estava deitado desde as 
sete. Um pouco antes, Nora de Jacob tinha descido o volume do 
rdo e extasiava-se com uma msca tnue que parecia vir de 
um lugar confortvel e limpo. Uma voz demasiado distante para 
parecer real gritou um nome no horizonte e os ces comearam 
a ladrar.
O dentista no tinha acabado de ouvir o noticirio. 
Lembrando-se que ngela decifrava um problema de palavras 
cruzadas sob a lmpada do ptio, ordenou sem a olhar: Fecha o 
porto e vai acabar isso no teu quarto." A mulher acordou 
sobressaltada.
Roberto Ass, que efectivamente se deitara s sete, 
levantou-se para olhar a praa pela janela entreaberta. Viu 
apenas as amendoeiras escuras e a ltima luz que se apagava 
na varanda da viva de Montiel. A esposa de Ass acendeu a 
lmpada da mesinha-de-cabeceira e, com um sussurro abafado 
obrigou o marido a deitar-se. Um co solitrio continuou a 
ladrar mesmo depois da quinta badalada.
No ardente saguo cheio de latas vazias e frascos 
poeirentos, Don Lalo Moscote ressonava com o jornal aberto 
sobre o abdmen e os culos na testa. A sua esposa 
paraltica, estremecida pela recordao de outras noites como 
aquela, espantava mosquitos com um trapo enquanto contava 
mentalmente as badaladas. Depois dos gritos distantes, do 
ladrar dos ces e das correrias sigilosas, comeava o 
silncio.
- Cuida que no falte coramina - recomendava o doutor 
Giraldo  esposa que metia na maleta drogas de urgncia, 
antes de se deitar. Ambos pensavam na viva de Montiel, 
rgida como um morto sob a ltima carga de luminal. S Don 
Sabas, depois de uma longa conversa com o senhor Carmichael, 
tinha perdido o sentido do tempo. Ainda estava no escritrio, 
a pesar na balana o pequeno-almoo do dia seguinte, quando 
soou a ltima badalada e a mulher saiu do quarto com o cabelo 
revolto. O rio parou. Numa noite como esta...", murmurou 
algum na obscuridade, no momento em que soou a oitava 
badalada, profunda, irrevogvel, e alguma coisa que tinha 
comeado a crepitar quinze segundos antes extinguiu-se por 
completo.
O doutor Giraldo fechou o livro at o clarim do recolher 
acabar de vibrar. A esposa colocou a maleta na mesinha-de-
cabeceira, deitou-se com a cara para a parede e apagou o seu 
candeeiro. O mdico abriu o livro, mas no leu nada. Ambos 
respiravam pausadamente, sozinhos numa terra que o silncio 
desmesurado tinha reduzido s dimenses da alcova.
- Em que pensas?
- Em nada - respondeu o mdico.
No se concentrou mais at s onze horas; quando voltou 
a mesma pgina em que estava quando batiam as oito. Dobrou o 
canto da folha e pousou o livro na mesinha. A esposa dormia. 
Noutro tempo, ambos velavam at ao amanhecer, tentando 
descobrir o lugar e as circunstncias dos tiros. Vrias vezes 
o rudo das botas e das armas chegara at quela casa e ambos 
esperaram, sentados na cama, a granizada de chumbo que 
deveria rebentar a porta. Muitas noites, quando j tinham 
aprendido a distinguir os diversos matizes do terror, velaram 
com a cabea apoiada numa almofada cheia de panfletos 
clandestinos para distribuir. Uma madrugada ouviram diante da 
porta do consultrio os mesmos preparativos sigilosos que 
precedem uma serenata e depois a voz do alcaide: A no, esse 
no se mete em nada." O doutor Giraldo apagou a luz e tratou 
de dormir.
A chuvinha recomeou depois da meia-noite. O barbeiro e 
outro recruta, colocados na esquina do porto, abandonaram o 
seu posto e abrigaram-se sob o beiral da casa do senhor 
Benjamn. O barbeiro acendeu um cigarro e examinou a 
espingarda  luz do fsforo. Era uma arma nova.
-  made in USA - disse.
O companheiro acendeu vrios fsforos para procurar a 
marca da sua carabina,mas no o conseguiu.
Uma goteira do beiral rebentou na culatra da arma e
produziu um impacte oco.
- Que coisa to esquisita - murmurou,secando-a
com a manga.- Ns aqui,cada um com uma arma,a
apanhar chuva.- Na escurido que os rodeava s se
	percebiam rudos da gua nos beirais.
- Somos nove - disse o barbeiro.- Eles so sete
contando o alcaide,mas trs esto no quartel.
- H pouco eu estava a pensar o mesmo - afirmou o outro.
A lanterna de pilhas do alcaide tornou-os brutalmente 
visveis,encostados contra a parede,tentando proteger as 
armas das gotas que estalavam nos sapatos como 
chumbos.Reconheceram-no quando apagou a lanterna e
se abrigou tambm sob o beiral.Tinha um impermevel
de campanha e uma metralhadora ligeira a tiracolo.
Acompanhava-o um dos polcias.Depois de olhar o relgio 
que usava no pulso direito,deu ordem ao agente:
- V ao quartel e veja o que se passa com as provises.
Com a mesma energia teria dado ordem de batalha.
O polcia desapareceu debaixo da chuva.O alcaide sentou-se 
ento no cho,junto dos recrutas.
- Que h? - perguntou.
- No h nada - respondeu o barbeiro.
O outro ofereceu um cigarro ao alcaide,antes de
acender o seu.O alcaide recusou.
- At quando nos vai manter nisto,tenente?
- No sei - respondeu o alcaide.- Por agora,at
que termine o recolher.Depois veremos o que se faz 
amanh.
- At s cinco! - exclamou o barbeiro.
- Imagina - disse o outro.- Eu que estou a p
desde as quatro da manh.
Atravs do rudo da chuvinha,chegou at eles um
tropel de ces.O alcaide esperou at terminar o alvoroo 
e s restar um latido solitrio.Voltou-se para o recruta com 
ar deprimido:
- Diga-me isso a mim, que j vivo meia vida desta maneira. 
Estou a cair de sono.
- Para nada - disse o barbeiro. - Isto no tem ps nem 
cabea. Parece coisa de mulheres.
- Eu comeo a acreditar o mesmo - retorquiu o alcaide.
O polcia regressou para informar que estavam  espera 
que estiasse para distribuir a comida. Depois relatou o 
restante: uma mulher surpreendida sem salvo-conduto esperava 
o alcaide no quartel.
Era Casandra. Dormia na cadeira de dobrar, vestida com 
uma capa de oleado, na salinha apenas iluminada pela lmpada 
lgubre da varanda. O alcaide apertou-lhe o nariz com dois 
dedos, ela emitiu um queixume, estremecendo num incio de 
desespero, e abriu os olhos.
- Estava a sonhar - disse.
O alcaide acendeu a luz da sala. Protegendo os olhos com 
as mos, a mulher torceu-se e ele sofreu um instante com as 
suas unhas prateadas e a sua axila rapada.
- s um malvado! - protestou. - Estou aqui desde as 
onze.
- Esperava encontrar-te no quarto - disse o alcaide.
- No tinha salvo-conduto.
O cabelo, de uma cor acobreada duas noites antes, era 
agora cinzento-prateado.
- No me lembrei - sorriu o alcaide. Depois de pendurar 
o impermevel, sentou-se numa cadeira junto dela. - Espero 
que no tenham pensado que eras tu que punhas os papelinhos. 
- A mulher tinha recobrado as suas maneiras fceis.
- Quem dera - replicou. - Adoro as emoes fortes.
De sbito, o alcaide pareceu extraviado na sala. Com ar 
indefeso, fazendo estalar os ns dos dedos, murmurou :
- Preciso que me faas um favor. - Ela examinou-o. - 
Aqui entre ns, preciso que deites as cartas a ver se se 
descobre quem  o autor desta brincadeira.
Ela voltou a cara para o outro lado.
- Entendo - disse ela depois de um curto silncio. 
O alcaide impulsionou-a:
- Acima de tudo, fao-o por vocs.
Ela concordou com a cabea.
-J o fiz - admitiu. 
O alcaide no teria podido dissimular a sua ansiedade. -  
uma coisa muito estranha - prosseguiu Casandra, com calculado 
ar melodramtico. - Os sinais eram to evidentes que senti 
medo depois de os ter em cima da mesa. - At a sua respirao 
se tinha tornado teatral.
- E quem ?
- Toda a gente e ningum.
 
Os filhos da viva de Ass vieram  missa, no domingo. 
Eram sete, alm de Roberto Ass. Todos fundidos no mesmo 
molde: corpulentos e rudes, com qualquer coisa de mula na sua 
capacidade de trabalho violento, e dceis para com a me, com 
uma obedincia cega. Roberto Ass, o mais novo, e o nico que 
se casara, apenas tinha de comum com os irmos um n no osso 
do nariz. Com a sua sade precria e as suas maneiras 
convencionais, era como que um prmio de consolao pela 
filha que a viva de Ass se cansara de esperar.
Na cozinha, onde os sete Ass tinham descarregado os 
animais, a viva passeava entre uma fila de frangos presos 
pelas patas, legumes e queijos e panelas escuras e pedaos de 
carne salgada, dando instrues s criadas. Uma vez despejada 
a cozinha, deu ordem de seleccionar o melhor de cada coisa 
para o padre ngel.
O proco estava a fazer a barba. De vez em quando 
estendia a mo para o ptio, para humedecer a pele com a gua 
da chuva. Preparava-se para terminar, quando duas raparigas 
descalas empurraram a porta sem bater e despejaram diante 
dele abacates maduros, bananas, panelas cheias, queijo e um 
cesto de legumes e ovos frescos.
O padre ngel piscou-lhes um olho.
- Isto parece - disse ele - o sonho do tio coelho.
- A mais nova das raparigas, com os olhos muito abertos, 
apontou-lhe o dedo:
- Os padres tambm fazem a barba!
A outra levou-a at  porta.
- O que  que julgavas? - sorriu o proco, 
acrescentando com seriedade: - Tambm somos humanos.
- Depois contemplou as provises dispersas pelo cho  e 
compreendeu que s a casa de Ass era capaz de tamanha 
prodigalidade. - Digam aos rapazes - quase gritou - que Deus 
lhes agradecer em sade.
O padre ngel, que em quarenta anos de sacerdcio 
no tinha aprendido a dominar a inquietao que precede os 
actos solenes, guardou os instrumentos sem acabar de se 
barbear. Depois recolheu as provises, amontoou-as nas 
prateleiras e entrou na sacristia a limpar as mos  sotaina.
A igreja estava cheia. Em dois bancos de espaldar 
prximos do plpito, doados por eles e com os respectivos 
nomes gravados em plaquetas de cobre, estavam os Ass com a 
me e a cunhada. Quando chegaram ao templo, pela primeira vez 
juntos em vrios meses, teria podido pensar-se que entravam a 
cavalo. Cristbal Ass, o mais velho, que tinha chegado da 
malhada meia hora antes e no tivera tempo de se arranjar, 
levava botas de montar com esporas. Vendo aquele gigante 
bravio, parecia certa a voz pblica, nunca confirmada, de que 
Cesar Montero era filho secreto do velho Adalberto Ass.
Na sacristia, o padre ngel sofreu uma 
contrariedade: os paramentos litrgicos no se encontravam no 
seu lugar. O aclito encontrou-o aturdido, a revolver 
gavetas, enquanto sustentava uma renhida disputa consigo 
prprio.
- Chama a Trinidad - ordenou o padre - e pergunta-
lhe onde ps a estola.
Esquecia-se de que Trinidad estava doente desde 
sbado. Certamente, julgava o aclito, ela teria levado 
algumas coisas para arranjar. O padre ngel vestiu ento os 
paramentos destinados aos ofcios fnebres, mas sem conseguir 
concentrar-se. Ao subir ao plpito, impaciente

Numa manh como aquela, o doutor Giraldo tinha 
compreendido o mecanismo interior do suicdio. Chuviscava sem 
rudo, na casa contgua silvava o verdilho, e a sua mulher 
falava enquanto ele lavava os dentes.
- Os domingos so dias estranhos - disse ela, pondo a 
mesa para o pequeno-almoo. -  como se os pendurassem 
esquartejados: cheiram a animal cru.
O mdico armou a mquina e comeou a barbear- se. Tinha 
os olhos hmidos e inchados.
- Andas a dormir mal - disse-lhe a mulher. E acrescentou 
com suave amargura: - Um destes domingos vais amanhecer 
velho. - Vestira um roupo muito usado e tinha a cabea 
coberta de rolos.
- Faz-me um favor - pediu ele. - Cala-te. 
Ela foi para a cozinha, ps a cafeteira do caf ao lume e 
esperou que a gua fervesse, atenta primeiro ao silvo do 
verdilho e depois ao rudo do duche. Foi ento ao quarto 
para que o marido encontrasse a roupa pronta ao sair do 
banho. Ao transportar o pequeno-almoo para a mesa viu-o 
pronto para sair e pareceu-lhe um pouco mais novo, com as 
calas de caqui e a camisa desportiva.
Tomaram o pequeno-almoo em silncio. Quase no final, 
ele examinou-a com uma ateno afectuosa. Ela bebia o caf 
com a cabea baixa, um pouco trmula de ressentimento.
-  o fgado - desculpou-se ele.
- Nada justifica a sobranceria - replicou ela, sem 
levantar a cabea.
- Devo estar intoxicado - disse ele. - O fgado atasca-
se com esta chuva.
- Dizes sempre o mesmo, mas nunca fazes nada - precisou 
ela. - Se no abres os olhos - acrescentou -, ters de te 
limpar a ti mesmo.
Ele pareceu acreditar.
- Em Dezembro - disse ele - estaremos quinze dias numa 
praia. - Olhou a chuvinha atravs dos rombos da grade de 
madeira que separava a sala do ptio entristecido pela 
persistncia de Outubro, e acrescentou:
- E ento deixar de haver domingos como este, pelo menos 
durante quatro meses.
Ela amontoou a loua antes de a levar para a cozinha. 
Quando voltou, encontrou-o com o chapu de palma tecida a 
preparar a maleta.
- Ento a viva de Ass voltou a sair da igreja - disse 
ele.
A mulher tinha-lhe contado o acontecimento antes de 
comear a lavar os dentes, mas ele no prestara ateno.
- J so trs vezes este ano - confirmou ela. - Pelos 
vistos no achou nada melhor para se entreter.
O mdico mostrou o seu rigoroso aparelho dental.
- Os ricos esto doidos.
Algumas mulheres, no regresso da igreja, tinham entrado 
para visitar a viva de Montiel. O mdico cumprimentou o 
grupo que permanecia na sala. Um murmrio de risos seguiu-o 
at ao patamar. Antes de bater  porta, reparou que havia 
outras mulheres no quarto. Algum lhe disse para prosseguir.
A viva de Montiel estava sentada, com o cabelo solto, 
segurando contra o peito a beira do lenol. Tinha no regao 
um espelho e um pente de corno.
- De modo que tambm a senhora resolveu ir  festa - 
disse-lhe o mdico.
- Est a festejar os seus quinze anos - retorquiu uma das 
mulheres.
- Dezoito - corrigiu a viva de Montiel com um sorriso 
triste. Outra vez estirada na cama, cobriu-se at ao pescoo. 
- Evidentemente - acrescentou satisfeita -, no foi convidado 
nenhum homem. E o senhor doutor ainda menos:  de mau agouro.
O mdico pousou o chapu molhado em cima da cmoda.
- Faz muito bem - disse ele, observando a doente com uma 
complacncia pensativa. - Acabo de reparar que no tenho nada 
para fazer aqui. - Depois, dirigindo-se ao grupo, desculpou-
se: - Do-me licena?
Quando ficou sozinha com ele, a viva de Montiel assumiu 
novamente uma amarga expresso de doente. Mas o mdico no 
pareceu reparar nisso. Continuou a falar no mesmo tom festivo 
enquanto colocava em cima da mesinha-de-cabeceira as coisas 
que ia tirando da maleta.
- Por favor, doutor - suplicou a viva -, mais 
injeces, no. Estou feita um coador.
- As injeces - sorriu o doutor Giraldo - foi o que se 
inventou de melhor para alimentar os mdicos.
Tambm ela sorriu.
- Acredite-me - disse ela, apalpando as ndegas por cima 
do lenol -, tenho tudo isto dorido. Nem as posso tocar.
- No as toque - concordou o mdico. 
Ento ela sorriu francamente.
- Fale a srio, doutor, nem que seja aos domingos.
O mdico subiu-lhe a manga para lhe medir a tenso arterial.
- No posso - disse ele. - O mdico proibiu-me.  mau 
para o fgado.
Enquanto ele media a tenso, a viva observou o 
mostrador do aparelho com uma curiosidade infantil.
-  o relgio mais estranho que vi na minha vidadisse 
ela. O mdico manteve-se concentrado at ter terminado de 
accionar a pra.
-  o nico que marca com exactido a hora de cada um se 
levantar - disse ele.
Ao terminar, enquanto enrolava os tubos do aparelho de 
medir a tenso, analisou minuciosamente o rosto da doente. 
Ps em cima da mesinha um frasco com pastilhas brancas, com a 
indicao de tomar uma em cada doze horas.
- Se no quiser as minhas injeces - disse o mdico -, 
no levar mais injeces. A senhora est melhor do que eu. - 
A viva fez um gesto de impacincia.
- Nunca tive nada - retorquiu ela.
- Acredito - replicou o mdico -, mas era preciso alguma 
coisa para justificar a conta.
Ignorando o comentrio a viva perguntou:
- Tenho de continuar deitada?
- Pelo contrrio - disse o mdico -, proibo-a 
solenemente. Desa  sala e atenda as visitas como deve ser. 
Alm do mais - acrescentou com voz maliciosa -, h muitas 
coisas de que podem falar.
- Meu Deus, doutor - exclamou ela -, no seja to 
brincalho! Deve ser o senhor que pe os pasquins.
O doutor Giraldo registou o dito. Ao sair, lanou um 
olhar furtivo  mala de couro com cravos de cobre pronta para 
a viagem num canto do quarto.
- E traga-me alguma coisa - gritou da porta quando 
regressar da volta ao Mundo. - A viva tinha recomeado o 
paciente labor de desenrolar o cabelo.
- No esquecerei, doutor.
No desceu  sala. Permaneceu na cama at sair a ltima 
visita. Ento vestiu-se. O senhor Carmichael encontrou-a a 
comer diante da varanda entreaberta.
Ela respondeu ao cumprimento sem desviar a vista da 
varanda.
- No fundo - disse ele -, gosto dessa mulher:  
valente.
Tambm o senhor Carmichael olhou a casa da viva de 
Ass, cujas portas e janelas no se tinham aberto s onze.
-  coisa da sua natureza - disse ele. - Com umas 
entranhas como as suas, que s produzem vares, no se pode 
ser de outra maneira. - Dirigindo a ateno para a viva de 
Montiel, acrescentou: - E a senhora tambm est como uma 
rosa.
Ela pareceu confirm-lo com a frescura do seu 
sorriso.
- Sabe uma coisa? - perguntou. E ante a indeciso 
do senhor Carmichael, antecipou a resposta: - O doutor 
Giraldo est convencido de que estou louca.
- No me diga!
A viva concordou com a cabea.
- No ficaria admirada se ele j tivesse falado consigo 
- prosseguiu - para ver a melhor maneira de me enviar para o 
manicmio. - O senhor Carmichael no soube como se desenredar 
daquela confuso. - No sa de casa toda a manh - concluiu.
Deixou-se cair no cadeiro de couro rodo colocado 
junto da cama. A viva recordou Jos de Montiel naquele 
cadeiro, fulminado pela congesto cerebral quinze minutos 
antes de morrer.
- Nesse caso - disse ela afastando a m recordao
- pode ser que lhe fale esta tarde. - E mudou de 
assunto, com um sorriso lcido: - Falou com o meu compadre 
Sabas?
O senhor Carmichael respondeu que sim com a ca bea.
 Realmente, na sexta-feira e no sbado, tinha feito sondagens 
no abismo de Don Sabas para averiguar qual seria a sua 
reaco se se pusesse  venda a herana de Jos Montiel. Don 
Sabas, supunha o senhor Carmichael, parecia disposto a 
comprar. A viva ouviu-o sem dar mostras de impacincia. Se 
no fosse na quarta-feira prxima seria na da outra semana, 
admitiu com uma segurana repousada. De qualquer modo, estava 
disposta a abandonar a terra antes de Outubro acabar.

O alcaide pegou no revlver com um movimento instantneo 
da mo esquerda. Todos os msculos do seu corpo estavam 
prontos para disparar, quando acordou por completo e 
reconheceu o juiz Arcadio.
- Merda!
O juiz Arcadio ficou petrificado.
- Nunca repita isso - protestou o alcaide, guardando o 
revlver. Deixou-se cair novamente na cadeira de lona. - O 
meu ouvido funciona melhor quando durmo.
- A porta estava aberta - disse o juiz Arcadio. 
O alcaide tinha-se esquecido de a fechar ao amanhecer. Estava 
to cansado que se deixara cair na cadeira e adormecera.
- Que horas so?
-Vai ser meio-dia - respondeu o juiz Arcadio. Ainda 
havia na sua voz uma nota trmula.
- Estou morto de sono - disse o alcaide. Torcendo-se num 
longo bocejo, teve a impresso de que o tempo se tinha 
detido. Apesar da sua diligncia, das suas noites em claro, 
os pasquins continuavam. Naquela madrugada havia encontrado 
um papel colado na porta do seu quarto: No gaste plvora com 
galinceos, tenente." Na rua dizia-se em voz alta que os 
prprios membros das rondas colocavam os pasquins para se 
distrarem do tdio da vigilncia. A aldeia, pensava o 
alcaide, estava morta de riso.
- Sacuda-se - disse o juiz Arcadio - e vamos comer 
alguma coisa.
Mas ele no tinha fome. Queria dormir mais uma hora e tomar 
banho antes de sair. O juiz Arcadio, em troca, fresco e 
limpo, regressava a casa para almoar. Ao passar diante do 
quarto e como a porta estava aberta, tinha entrado para pedir 
ao alcaide um salvo-conduto que lhe permitisse transitar 
depois da hora do recolher.
O tenente disse simplesmente que no. Depois, com um 
gesto paternal, justificou-se:
- Convm-lhe ficar em casa, sossegado. - O juiz Arcadio 
acendeu um cigarro. Ficou a olhar a chama do fsforo  espera 
que o rancor declinasse, mas no achou nada para dizer. - No 
tome isso a mal - acrescentou o alcaide. - Acredite que eu 
gostaria de trocar consigo, deitar-me s oito da noite e 
levantar-me quando me desse na gana.
- Claro - disse o juiz. E acrescentou com acentuada 
ironia: - A nica coisa que me faltava era isso: um pap novo 
aos trinta e cinco anos.
Tinha-lhe voltado as costas e parecia contemplar, da 
varanda, o cu carregado de chuva. O alcaide fez um silncio 
duro. Depois disse, de um modo cortante:
-Juiz. - O juiz Arcadio voltou-se para ele e ambos se 
olharam nos olhos. - No lhe darei o salvo-conduto. Entende? 
- O juiz mordeu o cigarro e comeou a dizer algo, mas 
reprimiu o impulso. O alcaide ouviu-o descer lentamente as 
escadas. De repente inclinou-se e gritou: - Juiz! - No houve 
resposta. - Ficamos amigos - gritou o alcaide.
Tambm dessa vez no obteve resposta.
Permaneceu debruado, pendente da reaco do juiz 
Arcadio, at que a porta se fechou e ele ficou novamente 
sozinho com as suas recordaes. No se esforou por dormir. 
Estava sonolento em pleno dia, empantanado numa terra que 
continuava a ser impenetrvel e alheia, muitos anos depois de 
ele se ter encarregado do seu destino. Na madrugada em que 
ali desembarcara furtivamente com uma velha mala de carto 
amarrada com cordas e a ordem de controlar aquela gente a 
qualquer preo, fora ele quem conhecera o terror. A sua nica 
ncora era uma carta para um obscuro partidrio do Governo 
com quem se devia encontrar no dia seguinte sentado em 
cales  porta de uma empilhadora de arroz. Com as suas 
indicaes e as entranhas implacveis dos trs assassinos 
contratados que o acompanhavam, a misso foi levada a cabo. 
Naquela tarde, no entanto, inconsciente da teia invisvel que 
o tempo tinha tecido  sua volta, ter- lhe-ia bastado uma 
instantnea exploso de clarividncia para perguntar a si 
mesmo quem estava submetido a quem.
Sonhou com os olhos abertos diante da varanda aoitada 
pela chuvinha, at pouco depois das quatro. Em seguida tomou 
banho, vestiu o uniforme de campanha e desceu ao hotel para 
comer a sua primeira refeio do dia. Mais tarde fez uma 
inspeco rotineira ao quartel e, de sbito, encontrou-se 
parado numa esquina, com as mos nos bolsos, sem saber o que 
fazer.
O dono da sala de bilhar viu-o entrar ao entardecer, 
ainda com as mos nos bolsos. Cumprimentou-o do fundo do 
estabelecimento vazio, mas o alcaide no lhe correspondeu.
- Uma garrafa de gua mineral - pediu. 
As garrafas provocaram um pequeno estrondo ao serem removidas 
na caixa de gelo.
- Um dia destes - disse o comerciante - vo ter de o 
operar e vo-lhe encontrar o fgado cheio de borbulhinhas.
O alcaide olhou atentamente o copo. Bebeu um trago, 
arrotou, ficou com os cotovelos apoiados na mesa e o olhar 
fixo no copo, e arrotou de novo. A praa estava deserta.
- E ento? - inquiriu o alcaide. - Que acontece por a ?
-  domingo - respondeu o comerciante.
- Ah!
Ps uma moeda no balco e saiu sem se despedir. Na 
esquina da praa, algum que caminhava como se arrastasse uma 
cauda enorme disse-lhe que ele no com preendeu. Reagiu pouco 
depois. De um modo confuso entendeu que alguma coisa se 
estava a passar e dirigiu-se ao quartel. Subiu as escadas 
precipitadamente, sem prestar ateno aos grupos que se 
formavam  porta. Um polcia veio-lhe ao encontro. Entregou-
lhe uma folha de papel e bastou-lhe um olhar rpido para 
compreender do que se tratava.
- Ia coloc-la - disse o polcia.
O alcaide precipitou-se para o corredor. Abriu a 
primeira cela e permaneceu com a mo na porta, perscrutando a 
penumbra, at conseguir ver: era um rapaz de cerca de vinte 
anos, de rosto afilado e citrino, marcado pela varola. Tinha 
um bon de jogador de basebol e culos escuros.
- Como te chamas?
- Pepe.
- Pepe, qu ?
- Pepe Amador.
O alcaide olhou-o por um momento e fez um esforo para 
se recordar. O rapaz estava sentado no estrado de cimento que 
servia de cama aos presos. Parecia tranquilo. Tirou os 
culos, limpou-os com a fralda da camisa e olhou para o 
alcaide de sobrancelhas franzidas.
- Onde  que j nos vimos? - perguntou o alcaide.
- Por a - respondeu Pepe Amador.
O alcaide no deu um passo no interior da cela. 
Continuou a olhar para o preso, pensativo, e depois comeou a 
fechar a porta.
- Bem, Pepe - disse -, acho que te fodeste.
Accionou o ferrolho, meteu a chave no bolso, e foi para 
a sala ler e reler vrias vezes o papel clandestino.
Sentou-se diante da varanda aberta, matando melgas  
palmada, enquanto se acendiam as luzes nas caladas
desertas. Ele conhecia aquela paz crepuscular. Noutro tempo, 
num anoitecer como este, teria encontrado a emoo do poder 
na sua plenitude.
- Ento recomearam - diz em voz alta.
Tinham recomeado. Tal como antes, estavam im pressos a 
stencil de ambos os lados, e teriam podido ser reconhecidos 
em qualquer parte e em qualquer tempo pela indefinvel onda 
de afundamento que a clandestinidade imprime. Pensou muito 
tempo, envolto nas trevas, dobrando e desdobrando a folha de 
papel, antes de tomar uma deciso. Por fim guardou a folha no 
bolso e reconheceu pelo tacto as chaves da cadeia.
- Rovira - chamou.
O seu agente de confiana surgiu da escurido. O 
alcaide deu-lhe as chaves.
- Encarrega-te desse rapaz - disse. - Trata de o 
convencer a dar-te os nomes dos que trazem a propaganda 
clandestina para aqui. Se no o conseguires a bem
-	precisou -, consegue-o de qualquer maneira. 
O polcia lembrou-o que estava de turno nessa noite.
- Esquece - disse o alcaide. - No te ocupes com mais 
nada, at nova ordem. E outra coisa - acrescentou, como que 
obedecendo a uma inspirao: -, despacha esses homens que 
esto no ptio. Esta noite no h rondas.
Chamou ao seu gabinete blindado os trs agentes 
que, por sua ordem, se mantinham inactivos no quartel. 
Mandou-os vestir os uniformes que estavam guardados  chave 
no armrio. Enquanto o faziam, guardou na mesa os cartuchos 
de plvora seca que nas noites anteriores tinham sido 
distribudos aos homens das rondas, e tirou do cofre um 
punhado de balas.
- Esta noite, vo vocs fazer as rondas - disse-lhes, 
escolhendo as espingardas, para lhes entregar as melhores. - 
No tm nada a fazer, apenas fazer com que as pessoas vejam 
que so vocs que esto na rua. 
Uma vez todos armados, entregou-lhes as munies. Plantou-se 
diante deles. 
- Mas ouam bem uma coisa - advertiu. - O primeiro que fizer 
um disparate, mando-o fuzilar contra a parede do ptio.- 
Esperou uma reaco que no veio.- Entendido?
Os trs homens - dois de tipo ndio, de aspecto
vulgar,e um loiro,com tendncia para gigantismo e
olhos de um azul-transparente - tinham escutado as ltimas 
palavras enquanto forneciam as cartucheiras.Puseram-se os 
trs em sentido.
- Entendido,meu tenente.
   	- E outra coisa - disse o alcaide,mudando para
um tom informal.- Os Ass esto c todos e no seria
anormal que encontrassem esta noite algum deles com
copos a mais e vontade de armar sarilhos.Acontea o
que acontecer,no se metam com nenhum deles.-
Tambm desta vez no houve a reaco esperada.- 
Entendido?
- Entendido, meu tenente.
- Ento j sabem - concluiu o alcaide.- Ponham
os cinco sentidos em alerta.

Ao fechar a igreja, depois do rosrio, que tinha 
adiantado uma hora por causa do toque de recolher, o 	 padre 
ngel sentiu um cheiro a podrido. Foi uma baforada 
momentnea que no conseguiu intrig-lo. Mais tarde, fritando 
fatias de banana verde e aquecendo leite para a refeio 
achou a causa do cheiro: Trinidad. Doente desde sbado, no 
tinha recolhido os ratos mortos. Ento voltou  igreja e 
limpou as ratoeiras. Depois foi a casa de Mina, a dois 
quarteires do templo.
O prprio Toto Visbal lhe abriu a porta. Na sala 
mergulhada na penumbra, onde havia vrios bancos de couro em 
desordem e litografias penduradas nas paredes,  a me de Mina 
e a av cega bebiam chvenas de uma bebida aromtica e 
ardente. Mina fabricava flores artificiais.
- H quinze anos - disse a cega - que o no va mos nesta 
casa, padre.
Era verdade. Todas as tardes passava diante da janela onde 
Mina se sentava para fazer as flores, mas nunca se dispunha a 
entrar.
- O tempo passa sem fazer barulho - disse o padre. E 
depois, dando a entender que estava com pressa, dirigiu-se a 
Toto Visbal: - Venho pedir-lhe que deixe ir a Mina, a partir 
de amanh, tratar das ratoeiras. Trinidad
-	explicou a Mina - est doente desde sbado. 
Toto Visbal deu o seu consentimento.
- J  vontade de perder tempo - interveio a cega.
- Ao fim e ao cabo, o mundo acabar este ano. 
A me de Mina ps-lhe a mo no joelho, para que se calasse. A 
cega afastou- lhe a mo.
- Deus castiga a superstio - disse o proco.
- Est escrito - retorquiu a cega. - O sangue correr 
pelas ruas e no haver poder humano capaz de o deter.
O padre enviou-lhe um olhar de comiserao: era muito 
velha, de uma palidez extrema e os olhos mortos pareciam 
penetrar no segredo das coisas.
- Tomaremos banho em sangue - ironizou Mina. O padre 
ngel voltou-se ento para ela. Viu-a surgir, com o seu 
cabelo de um negro intenso e a mesma palidez da cega, de 
entre uma confusa nuvem de fitas e papis coloridos. Parecia 
um quadro alegrico numa festa escolar.
- E tu - disse-lhe. - A trabalhar ao domingo?
- Eu bem lhe disse - interveio a cega. - Chover cinza a 
arder sobre a sua cabea.
- A necessidade tem focinho de co - sorriu Mina. Como o 
proco se mantinha de p, Toto Visbal puxou um assento e 
voltou a convid-lo a sentar-se. Era um homem frgil, de 
gestos sobressaltados pela timidez.
- Obrigado - recusou o padre. - O toque de recolher vai-
me apanhar na rua. - Prestou ateno ao profundo silncio do 
povoado e comentou: - At parece que j bateram as oito.
Ento soube-o. Depois de quase dois anos de celas
vazias, Pepe Amador estava na cadeia e a aldeia  merc de 
trs criminosos. As pessoas tinham-se recolhido logo depois 
das seis.
-  estranho. - O padre ngel pareceu estar a falar 
consigo mesmo. - Uma coisa assim resulta desatinada.
- Tarde ou cedo tinha de acontecer - disse Toto 
Visbal. - O pas inteiro est remendado com teias de aranha.
Acompanhou o padre at  porta.
- No viu os panfletos clandestinos?
O padre ngel deteve-se, perplexo.
- Outra vez?
- Em Agosto - interps-se a cega - comearo os 
dias de escurido.
Mina esticou o brao para dar  cega uma flor 
iniciada.
- Cala-te - disse-lhe -, e acaba isso. - A mulher 
reconheceu a flor pelo tacto.
- Ento recomearam - admitiu o padre.
- H-de haver uma semana - disse Toto Visbal. Aqui 
puseram um, sem que ningum soubesse quem o trouxe. Sabe como 
! - O proco confirmou com a cabea. - Dizem que continua 
tudo como antes - prosseguiu Toto Visbal. - Mudou o Governo, 
o novo prometeu paz e garantias, e a princpio toda a gente 
acreditou.
Mas os funcionrios continuam a ser os mesmos.  
- E  verdade - interveio a me de Mina. - Aqui
estamos, novamente com o recolher obrigatrio, e esses 
trs criminosos na rua.
- Mas h uma novidade - disse Toto Visbal. Dizem 
que se esto a organizar outra vez guerrilhas contra o 
Governo, no interior do pas.
- Tudo isso est escrito - retorquiu a cega.
-  absurdo - disse o proco, pensativo. - Temos , de 
reconhecer que a atitude das autoridades mudou. Ou
pelo menos tinha mudado, at esta noite.
Horas depois, meditando no calor do leito, perguntou a si 
mesmo, se na realidade o tempo tinha transcorrido nos 
dezanove anos que levava j naquela parquia. Ouviu, mesmo na 
frente da sua casa, o rudo das botas e das armas de fogo. S 
que desta vez as botas afastaram-se, voltaram a passar uma 
hora depois, para de novo se afastarem sem que se ouvissem 
tiros. Pouco depois, atormentado pela fadiga da viglia e do 
calor, reparou que os galos j estavam a cantar h algum 
tempo.
 
Mateo Ass tentou calcular as horas pela posio dos 
galos. Finalmente, aceitou a realidade.
- Que horas so?
Nora de Jacob esticou o brao na penumbra e pegou no 
relgio de algarismos fosforescentes que estava do seu lado 
na mesinha-de-cabeceira. A resposta que ainda no tinha dado 
acordou-a por completo.
- Quatro e meia - respondeu.
- Merda!
Mateo Ass saltou da cama. Mas a dor de cabea e depois 
o sedimento mineral na boca obrigaram-no a moderar o impulso. 
Procurou os sapatos com os ps, na obscuridade.
- Por pouco que o dia me apanhava - disse.
- Que bom! - exclamou ela. Acendeu a luz e reconheceu a 
sua nodosa espinha dorsal e as suas ndegas plidas. - Terias 
de ficar aqui fechado at amanh.
Estava completamente nua, o sexo apenas coberto com uma 
ponta do lenol. Com a luz acesa, at a voz perdia o seu 
clido atrevimento.
Mateo Ass calou os sapatos. Era alto e macio. Nora de 
Jacob, que o recebia ocasionalmente havia j dois anos, 
sentia uma espcie de frustrao perante a fatalidade de ter 
em segredo um homem que lhe parecia feito para que uma mulher 
o divulgasse.
- Se no tiveres cuidado, vais engordar - disse.
-  a boa vida - respondeu ele, procurando ocultar o mal-
estar. E acrescentou, sorrindo: - Devo estar grvido.
- Quem dera - disse ela. - Se os homens parissem, teriam 
mais considerao.
Mateo Ass recolheu do cho o preservativo, foi para o 
quarto de banho e lanou-o na retrete. Lavou-se, tentando no 
respirar fundo: qualquer cheiro, ao amanhecer, era um cheiro 
dela. Quando voltou ao quarto, encontrou-a sentada na cama.
- Um dia destes - admitiu Nora de Jacob - cansar-me-ei 
destes esconderijos e contarei tudo a todo o mundo. - Ele no 
a olhou enquanto no ficou completamente vestido. Ela teve 
conscincia dos seus seios macilentos, e sem deixar de falar 
cobriu-se com o lenol at ao pescoo. - No vejo a hora - 
prosseguiu - de estarmos a tomar o pequeno-almoo na cama e 
ficarmos at  tarde. Sou capaz de pr um pasquim a mim 
mesma.
Ele riu abertamente:
- O velho Benjaminzinho ia morrer. Como  que anda isso? 
- perguntou.
- Imagina!  espera que Nstor Jacob morra - respondeu.
Viu-o despedir-se, da porta, com um gesto da mo.
- Trata de vir para a Noite de Natal - disse ela. 
Ele prometeu. Atravessou o ptio em bicos de ps e saiu para 
a rua pelo porto. Ao chegar  praa, saiu-lhe um grito ao 
seu encontro:
- Alto !
Uma lanterna de pilhas iluminou-lhe os olhos. Ele voltou 
a cara.
- Ah, caralho! - ouviu a voz do alcaide, invisvel atrs 
da luz. - Olhem o que ns encontrmos. Vais ou vens?
Apagou a lanterna e Mateo Ass viu-o, acompanhado por 
trs homens. Tinha a cara fresca e lavada e a metralhadora a 
tiracolo.
- Venho - respondeu Mateo Ass.
O alcaide deslocou-se para ver as horas  luz do poste. 
Faltavam dez minutos para as cinco. Com um sinal feito aos 
agentes, mandou terminar a hora do recolher. Permaneceu em 
suspenso at se ter esvado o toque de clarim, que ps no 
amanhecer uma nota triste. Depois mandou os homens embora e 
acompanhou Mateo de Ass atravs da praa.
-J est! - exclamou. - Acabou-se o problema dos 
papelinhos.
Mais do que satisfao, havia cansao na sua voz.
- Apanharam quem os fazia?
- Aimda no - respondeu o alcaide. - Mas acabo de fazer 
a ltima ronda e posso garantir que hoje, pela primeira vez, 
no houve no amanhecer um nico papelinho. Era uma questo de 
amarrar bem as calas.
Ao chegar ao porto da casa, Mateo adiantou-se para 
prender os ces. As mulheres de servio espreguiaram-se na 
cozinha. Quando o alcaide entrou, foi recebido por um 
alvoroo de ces acorrentados que um momento depois foi 
substitudo por passos e suspiros de animais pacficos. A 
viva de Ass encontrou-os a tomar caf, sentados no varandim 
da cozinha. O dia estava mais claro.
- Homem madrugador - disse a viva -, bom esposo, mas 
mau marido.
Apesar da boa disposio, o rosto revelava a 
mortificao de uma intensa viglia. O alcaide correspondeu 
ao cumprimento. Apanhou a metralhadora do cho e pendurou-a 
ao ombro.
- Tome todo o caf que quiser, tenente - disse a viva -
, mas no me traga espingardas para dentro de casa.
- Pelo contrrio - sorriu Mateo de Ass. - Devias pedi-
la emprestada para ir  missa. No te parece?
- No preciso de trastes desses para me defender - 
replicou a viva. - A Divina Providncia est do nosso lado. 
Os Ass - acrescentou com seriedade - foram sempre gente de 
Deus, antes de haver padres em muitas lguas em redor.
O alcaide despediu-se.
-  preciso dormir - disse ele. - Isto no  vida para 
cristos. - Abriu passagem entre as galinhas, os patos e 
perus que comeavam a invadir a casa. A viva espantou os 
animais. Mateo de Ass foi para o seu quarto, tomou banho, 
mudou de roupa e saiu novamente para aparelhar a mula. Os 
irmos timham partido ao amanhecer.
A viva de Ass tratava das gaiolas quando o filho 
apareceu no ptio.
- Recorda-te - disse-lhe - que uma coisa  tratar da 
vida e outra coisa saber manter as distncias.
- Ele s entrou para tomar caf - protestou Mateo Ass. 
- Viemos a falar, quase sem nos darmos conta.
Estava no extremo do corredor, a olhar para a me, mas 
ela no se tinha voltado para falar. Parecia dirigir-se aos 
pssaros.
- S te digo isto - replicou. - No me tragas assassinos 
para casa. - Tendo acabado de arranjar as gaiolas, perguntou 
ao filho: - E tu, onde estavas?

Naquela manh, o juiz Arcadio acreditou descobrir sinais 
aziagos nos episdios minsculos que fazem a vida de todos os 
dias. Provoca dores de cabea", disse, tentando explicar  
mulher aquilo que sentia. Era uma manh de sol. O rio, pela 
primeira vez em vrias semanas, tinha perdido o seu aspecto 
ameaador e o seu cheiro a couro cru. O juiz Arcadio foi  
barbearia.
- A justia - disse o barbeiro, para o receber - coxeia, 
mas acaba por chegar.
O estabelecimento tinha sido polido com petrleo e os 
espelhos estavam cobertos com pinceladas de alvaiade. O 
barbeiro comeou a poli-los com um trapo enquanto o juiz 
Arcadio se acomodava na cadeira.
- No devia haver segundas-feiras - disse o juiz. 
O barbeiro tinha comeado a cortar-lhe o cabelo.
- So culpa do domingo. Se no fossem os domingos, as 
segundas-feiras no existiriam - precisou.
O juiz Arcadio fechou os olhos. Desta vez, depois de dez 
horas de sono, de um acto de amor turbulento e de um banho 
prolongado, no havia nada a censurar ao domingo. Mas era uma 
segunda-feira densa. Quando o relgio da torre bateu as nove 
e, em lugar das badaladas, ficou no ar o rudo de uma mquina 
de costura na casa contgua, outro sinal fez estremecer o 
juiz Arcadio: o silncio das ruas.
- Esta  uma terra-fantasma - disse o juiz.
- Vocs assim o quiseram - retorquiu o barbeiro. - 
Antes, numa segunda-feira pela manh, j tinha atendido pelo 
menos cinco clientes a esta hora. Hoje, fao consigo o nome 
de Deus.
O juiz Arcadio abriu os olhos e por um momento 
contemplou o rio no espelho.
- Vocs - repetiu. E perguntou: - Quem somos ns ?
- Vocs - vacilou o barbeiro. - Antes de vocs, esta era 
uma terra de merda, como todas as outras, mas agora  a pior 
de todas.
- Se me dizes essas coisas - replicou o juiz -  por 
saberes que nada tive a ver com elas. Terias coragem - 
perguntou, sem agressividade - de dizer o mesmo ao tenente ?
O barbeiro admitiu que no:
- O senhor no sabe o que  levantar-se todas as manhs 
com a certeza de que o mataro e passarem dez anos sem que 
isso acontea.
- No sei - admitiu o juiz -, nem quero saber.
- Faa tudo o que puder para que nunca o saiba disse o 
barbeiro.
O juiz dobrou a cabea. Aps um prolongado siln cio, 
perguntou :
- Sabes uma coisa, Guardiola? - Sem esperar resposta, 
prosseguiu: - O tenente est-se a afundar com o povoado. E 
cada dia se afunda mais, porque descobriu um prazer do qual 
no se regressa: pouco a pouco, sem fazer muitas ondas, est 
a ficar rico. - Como o barbeiro o escutava sem dizer nada, 
concluiu: - Aposto contigo que no haver nem mais um morto 
por sua conta.
- Acredita nisso ?
- Aposto cem contra um - insistiu o juiz Arcadio.
- Para ele, neste momento, no h maior negcio do que a 
paz.
O barbeiro acabou de lhe cortar o cabelo, inclinou 
a cadeira para trs, e mudou a toalha sem falar. Quando 
finalmente o fez, havia na sua voz um fio de desconcerto :
-  estranho que seja o senhor a dizer isso e que o diga 
a mim.
Se a posio o tivesse permitido, o juiz Arcadio teria 
encolhido os ombros.
- No  a primeira vez que o digo - garantiu.
- O tenente  o seu melhor amigo - disse o barbeiro.
Havia baixado a voz, e era uma voz tensa e confidencial. 
Concentrado no seu trabalho, tinha a mesma expresso em que 
uma pessoa que no tem o hbito de escrever faz a sua 
assinatura.
- Diz-me uma coisa, Guardiola - perguntou o juiz Arcadio 
com certa solenidade. - Que ideia fazes de mim ?
Guardiola tinha comeado a barbe-lo. Pensou um momento, 
antes de responder:
- At agora, tinha pensado que o senhor  uma pessoa que 
sabe que se vai e pretende ir.
- Podes continuar a pens-lo - sorriu o juiz. Deixava-se 
barbear com a mesma passividade sombria com que se teria 
deixado degolar. Manteve os olhos fechados enquanto o 
barbeiro lhe passava no rosto uma pedra de almen, punha p-
de- arroz e sacudia o p com um pincel de cerdas mwto suaves. 
Ao tirar-lhe a toalha do pescoo, meteu-lhe um papel no bolso 
da camisa, e disse-lhe:
- S est enganado numa coisa, juiz. Neste pas vai
haver sarilhos.
O juiz Arcadio assegurou-se de que continuavam sozinhos na 
loja. O sol ardente, o rudo da mquina de costura no 
silncio das nove e meia, a segunda-feira iniludvel 
indicaram-lhe algo mais: parecia que estavam sozinhos no 
povoado. Ento tirou o papel do bolso e leu. O barbeiro 
voltou- lhe as costas para pr em ordem os objectos na 
prateleira. Dois anos de discursos, citou de memria. E ainda 
o mesmo estado de stio, a mesma censura de imprensa, os 
mesmos funcionrios." Ao ver no espelho que o juiz Arcadio 
tinha terminado a leitura, disse-lhe:
- Faa circular.
O juiz voltou a guardar o papel no bolso.
- s corajoso! - exclamou.
- Se alguma vez me tivesse enganado com alguma pessoa - 
disse o barbeiro -, h anos que estaria furado com chumbo. - 
Depois acrescentou com voz sria:E lembre-se de uma coisa, 
juiz: j ningum pode deter o que se vai passar.
Ao sair dali, o juiz Arcadio sentia a boca seca. Na sala 
de bilhar pediu dois duplos e, depois de os tomar, um atrs 
do outro, compreendeu que ainda lhe faltava muito tempo para 
acabar. Na Universidade, um sbado de glria, tentou aplicar 
uma cura de burro  incerteza: entrou no urinol de um bar, 
perfeitamente sbrio, lanou plvora num dos reservatrios e 
chegou-lhe fogo.
Ao quarto pedido, Don Roque moderou a dose.
- Por este andar - sorriu - ser levado em om bros, como 
os toureiros. - O juiz tambm sorriu com os lbios, mas os 
olhos permaneceram apagados. Meia hora depois foi urinar. 
Urinou e antes de sair lanou a folha clandestina na retrete.
Quando voltou ao balco encontrou a garrafa junto do 
copo, com uma linha de tinta a assinalar o nvel do contedo.
- Tudo isso  seu - disse-lhe Don Roque, abanando-se 
lentamente. Estavam sozinhos no estabelecimento. O juiz 
Arcadio serviu-se de meio copo e comeou a beber sem pressas.
- Sabe uma coisa? - perguntou. E como Don Roque no deu 
mostras de ter compreendido, disse-lhe: - Vai haver sarilhos.

Don Sabas estava a pesar na balana o seu almoo de 
passarinho quando lhe anunciaram uma nova visita do senhor 
Carmichael.
- Diz-lhe que estou a dormir - sussurrou ao ouvido da 
mulher. E, efectivamente, dez minutos depois estava a dormir. 
Ao acordar, o ar tinha ficado seco e a casa estava paralisada 
pelo calor. Passava do meio-dia.
- O que  que sonhaste? - perguntou-lhe a mulher.
- Nada.
Tinha esperado que o marido acordasse, sem o chamar. Um 
momento depois ferveu a seringa hipodrmica e Don Sabas 
injectou insulina na coxa.
- H-de haver trs anos que nunca sonhas nada - disse a 
mulher, com um desencanto tardio.
- Porra! - exclamou ele. - Que queres? No se pode 
sonhar  fora.
Anos antes, no seu curto sono do meio-dia, Don Sabas 
tinha sonhado com um carvalho que em vez de flores produzia 
navalhas de barba. A mulher dele interpretava o sonho e 
ganhara uma fraco da lotaria.
- Se no  hoje, ser amanh - disse ela.
- No foi hoje nem ser amanh - replicou Don Sabas, 
impaciente. - No vou pr-me a sonhar s para tu jogares a 
tua sorte.
Estendeu-se novamente na cama enquanto a esposa punha 
ordem no quarto. Toda a espcie de instrumentos, cortantes e 
perfurantes, tinham sido desterrados do aposento. Passado 
meia-hora, Don Sabas acordou em vrias etapas, tentando no 
se agitar, e comeou a vestir-se.
- Ah - perguntou -, que disse Carmichael?
- Que volta mais tarde.
No voltaram a falar at estarem sentados  mesa. Don Sabas 
picava a sua pouco complicada dieta de doente. Ela serviu-se 
de um almoo completo, aparentemente demasiado abundante para 
o seu corpo frgil e a sua expresso lnguida. Tinha j 
pensado muito, quando decidiu perguntar:
- Que  que ele quer, o Carmichael?
Don Sabas nem sequer levantou a cabea.
- Que mais pode ser? Dinheiro.
- J imaginava - suspirou a mulher. E prosseguiu 
piedosamente: - Pobre Carmichael: rios de dinheiro a 
passarem-lhe pela mo durante tantos anos, e vivendo da 
caridade pblica. -  medida que falava, perdia o entusiasmo 
pelo almoo.
- D-lhe, Sabitas - suplicou. - Deus te pagar. Cruzou 
os talheres em cima do prato e perguntou, intrigada: - Quanto 
precisa?
- Duzentos pesos - respondeu Don Sabas, imperturbvel.
- Duzentos pesos !
- Imagina!
Ao contrrio dos domingos, que eram dias mais ocupados, 
Don Sabas tinha s segundas uma tarde tranquila. Podia passar 
muitas horas no escritrio, dormitando diante da ventoinha 
elctrica, enquanto o gado crescia, engordava e se 
multiplicava nas suas malhadas. Naquela tarde, no entanto, 
no conseguiu um instante de sossego.
-  o calor - disse a mulher.
Don Sabas deixou transparecer uma chispa de exasperao 
nas pupilas descoloridas. No escritrio acanhado, com uma 
secretria de madeira, quatro cadeires de couro, um em cada 
canto, as persianas tinham sido fechadas e o ar era morno e 
espesso.
- Pode ser - admitiu ele. - Nunca fez tanto calor em 
Outubro.
- H quinze anos, com um calor como este, houve um 
tremor de terra - disse a mulher. - Lembras-te?
- No me lembro - respondeu Don Sabas, distrado. - Tu sabes 
que nunca me lembro de nada. Alm disso - acrescentou de mau 
humor -, esta tarde no estou para falar de desgraas. - 
Fechou os olhos, cruzou os braos no ventre e fingiu dormir. 
- Se Carmichael vier - murmurou - diz-lhe que sa. - Uma 
expresso de splica alterou o rosto da esposa.
- Tens m ndole - disse a mulher.
Mas ele no voltou a falar. Ela saiu do escritrio, sem 
fazer o menor rudo ao fechar a porta forrada de rede de 
arame. Pelo entardecer, depois de ter realmente dormido, Don 
Sabas abriu os olhos e viu diante dele, como no prolongamento 
de um sonho, o alcaide sentado  espera que ele despertasse.
- Um homem como o senhor - sorriu o tenente - no devia 
dormir com a porta aberta.
Don Sabas no fez qualquer gesto que denunciasse o seu 
espanto :
- Para si, as portas da minha casa esto sempre abertas. 
- Esticou o brao para tocar a campainha, mas o alcaide 
impediu-o com um gesto. - No quer um caf? - perguntou Don 
Sabas.
- Agora no - respondeu o alcaide, olhando o aposento 
com um olhar nostlgico. - Estava-se aqui muito bem, enquanto 
dormia. Era como estar noutra terra.
Don Sabas esfregou os olhos com as costas da mo.
- Que horas so?
O alcaide olhou para o relgio.
- So quase cinco - respondeu. Depois, mudando de 
posio no assento, entrou suavemente nos seus propsitos: - 
Ento, vamos falar?
- Suponho - respondeu Don Sabas - que no o posso 
evitar.
- No valeria a pena - disse o alcaide. - Ao fim e ao 
cabo, isto no  segredo para ningum. - E com a mesma 
repousada fluidez, sem forar em nenhum momento o gesto ou as 
palavras, acrescentou: - Diga-me uma coisa, Don Sabas: 
quantas reses da viva de Montiel mandou retirar e remarcar 
com o seu ferro desde que ela se props vender-lhas?
Don Sabas encolheu os ombros:
- No fao a menor ideia.
- Mas recorda - afirmou o alcaide - que isso tem um 
nome.
- Recordo.
- Muito bem. Digamos, por exemplo - prosseguiu o alcaide 
-, que tiraram duzentas reses em trs dias.
- Quem dera - disse Don Sabas.
- Duzentas - confirmou o alcaide. - Sabe quais so as 
penalidades merecidas por esse acto: cinquenta pesos de 
imposto municipal por cada rs.
- Quarenta.
- Cinquenta.
Don Sabas fez uma pausa de resignao. Estava encostado 
no espaldar da cadeira de molas, fazendo girar com o dedo o 
anel de pedra negra e polida, com os olhos fixos num xadrez 
imaginrio. O alcaide observava-o com uma ateno 
inteiramente desprovida de compaixo.
- Desta vez, no entanto, as coisas no terminam a
- prosseguiu. - A partir deste momento, em qualquer lugar 
onde se encontre, todo o gado da viva de Montiel est sob a 
proteco do municpio. - Depois de esperar inutilmente uma 
reaco, explicou: - Essa pobre mulher, como o senhor sabe, 
est completamente louca.
- E Carmichael?
- Carmichael - disse o alcaide - est h duas horas sob 
controlo.
Don Sabas examinou-o ento com uma expresso que tanto 
podia ser de espanto ou de admirao. E sem qualquer anncio, 
descarregou sobre a secretria o corpo mole e volumoso, 
sacudido por um incontvel riso interior.
- Que maravilha, tenente - disse Don Sabas. - Isto deve 
parecer-lhe um sonho.

O doutor Giraldo teve a certeza, ao entardecer, de ter ganho 
muito terreno ao passado. As amendoeiras da praa voltavam a 
estar cheias de p. Um novo Inverno passava, mas o seu passo 
silencioso deixava na recordao uma marca profunda. O padre 
ngel regressava do seu passeio vespertino quando encontrou o 
mdico tentando meter a chave na fechadura do consultrio.
- Est a ver, doutor - disse o padre, sorrindo.At para 
abrir uma porta  necessria a ajuda de Deus.
- Ou de uma lanterna - retorquiu por sua vez o mdico. 
Fez girar a chave na fechadura e depois ocupou-se 
inteiramente do padre ngel. Viu-o tenso e cor de malva ao 
crepsculo. - Espere um momento padre. Creio que alguma coisa 
no anda bem no seu fgado - acrescentou retendo-o pelo 
brao.
- Acha que sim?
O mdico acendeu a lmpada do vestbulo e examinou, com 
uma ateno mais humana do que profissional, o semblante do 
proco. Depois abriu a porta forrada de rede de arame do 
consultrio e acendeu a luz.
- No seria nada excessivo consagrar cinco minutos ao 
seu corpo, padre - disse o mdico. - Vamos medir essa tenso 
arterial.
O padre ngel estava com pressa. Mas perante a 
insistncia do mdico, entrou para a salinha e preparou o 
brao.
- Nos meus tempos - disse o padre - no existiam essas 
coisas.
O doutor Giraldo colocou uma cadeira diante dele e 
sentou-se a preparar o aparelho.
- Os seus tempos so estes, padre - disse o mdico, 
sorrindo. - No lhes negue o corpo.
Enquanto o mdico estudava o mostrador, o proco 
examinou o aposento com aquela curiosidade ingnua que 
costumam inspirar as salas de espera. Pendurados nas paredes 
estavam um diploma amarelecido, a litografia de uma menina 
arroxeada com uma face carcomida em azul e o quadro de um 
mdico a disputar  morte uma mulher despida.No fundo,atrs 
da caminha de ferro,pintada de branco,havia um armrio com 
frascos
rotulados.Ao lado da janela,uma prateleira com 
instrumentos e outras duas abarrotadas de livros.O nico
cheiro definido era o do lcool a noventa graus.Quando
acabou o exame,o rosto do doutor Giraldo nada revelou.
- Neste lugar faz falta um santo - disse o padre.
O mdico examinou as paredes.
- No s aqui - retorquiu o mdico. - Tambm
faz falta no povoado.- Guardou o aparelho num estojo de 
couro,que fechou com um puxo enrgico do fecho clair,e 
disse: - Saiba uma coisa,padre: a sua tenso est muito bem.
-J desconfiava - disse o proco.E acrescentou
com uma perplexidade lnguida: - Nunca me tinha
sentido to bem em Outubro.
Comeou lentamente a desenrolar a manga.Com a
sotaina de beiras esfiapadas,os sapatos em pssimo 
estado e as mos speras cujas unhas pareciam de corno 
chamuscado,prevalecia nele,nesse instante,a sua condio
essencial: era um homem extremamente pobre.
- No entanto - prosseguiu o mdico -,estou
preocupado consigo: temos de reconhecer que o seu regime 
de vida no  o mais adequado para um Outubro como este.
- Nosso Senhor  exigente - disse o padre.
O mdico voltou-lhe as costas para olhar o rio escuro pela 
janela:
- Pergunto a mim mesmo at que ponto.No parece coisa de 
Deus isto de se esforar durante tantos anos para tapar com 
uma couraa o instinto das pessoas,tendo plena conscincia de 
que por baixo tudo continua na mesma.- E depois de uma longa 
pausa,perguntou: 
- Nestes ltimos dias no teve a impresso de que o seu
trabalho implacvel tinha comeado a desmoronar-se?
- Todas as noites,ao longo da minha vida,tive essa
impresso - respondeu o padre ngel.- Por isso sei
que devo comear o dia seguinte com mais vontade.
Disps-se a abandonar o consultrio, dizendo: Vo dar as 
seis." Sem se afastar da janela, o mdico pareceu estender um 
brao ao seu encontro para lhe dizer:
- Uma noite destas, ponha a mo no corao e pergunte a 
si mesmo se no est a tentar colocar pensos na moral.
O padre ngel no conseguiu disfarar uma terrvel 
sufocao interior.
-  hora da morte - disse ele - saber quanto pesam 
essas palavras, doutor. - Deu as boas-noites e fechou 
suavemente a porta ao sair.
No conseguiu concentrar-se na orao. Quando fechava a 
igreja, Mina aproximou-se para lhe dizer que em dois dias s 
tinha sido apanhado um rato. Ele tinha a impresso de que na 
ausncia de Trinidad os ratos haviam proliferado a ponto de 
ameaarem derruir o templo. No entanto, Mina tinha montado as 
ratoeiras. Havia envenenado o queijo, perseguido o rastro das 
crias e tapado com asfalto os novos ninhos que ele prprio a 
ajudava a descobrir.
- Pe um pouco de f no teu trabalho - dissera-lhe - e 
os ratos viro at s ratoeiras como cordeirinhos.
Deu muitas voltas na sua esteira pelada antes de 
adormecer. No enervamento da viglia teve plena conscincia 
do obscuro sentimento de derrota que o mdico lhe tinha 
inculcado no corao. Essa inquietao e depois o tropel dos 
ratos no templo e a espantosa paralisia do recolher 
obrigatrio, tudo se confabulou para que uma fora cega o 
arrastasse at  turbulncia da sua mais temida recordao.
Recm-chegado ao povoado, tinham-no acordado  meia-
noite para dar os ltimos sacramentos a Nora de Jacob. Tinha 
recebido uma confisso dramtica, exposta de um modo sereno, 
pormenorizado e rigoroso, num quarto preparado para receber a 
morte: havia apenas um crucifixo na cabeceira da cama e 
muitas cadeiras vazias encostadas s paredes. A moribunda 
tinha-lhe revelado que o seu marido, Nstor Jacob, no era o 
pai da filha que acabava de nascer. O padre ngel havia 
condicionado a absolvio ao acto de ela repetir a confisso 
e terminar o acto de contrio na presena do marido.
 
Obedecendo s ordens rtmicas do empresrio, os homens 
arrancaram as estacas e o toldo desinchou numa catstrofe 
solene, com um silvo que parecia um queixume semelhante ao do 
vento entre as rvores. Ao amanhecer estava dobrado e as 
mulheres e as crianas tomavam o pequeno-almoo sentadas nos 
males, enquanto os homens embarcavam as feras. Quando as 
lanchas apitaram a primeira vez, as marcas das fogueiras no 
solo pelado eram o nico indcio de que um animal pr-
histrico tinha passado pela aldeia.
O alcaide no tinha dormido. Depois de observar da 
varanda o embarque do circo, misturou-se ao bulcio do porto 
ainda com o uniforme de campanha, os olhos irritados pela 
falta de sono e a cara endurecida pela barba de dois dias. O 
empresrio descobriu-o no tejadilho da sua lancha.
- Viva, tenente - gritou. - A lhe deixo o seu reino.
Estava enfiado num camisolo amplo e pudo que lhe 
imprimia ao rosto rotundo um ar sacerdotal. Tinha a chibata 
enrolada no punho. O alcaide aproximou-se da margem.
- Sinto muito, general - gritou por sua vez de bom 
humor, com os braos abertos. - Espero que tenha a 
honestidade de dizer porque se vai embora. - Voltou-se para a 
multido e explicou em voz alta: - Cancelei-lhe a licena 
porque no quis dar um espectculo grtis para as crianas.
A sereia final das lanchas e, em seguida, o rudo dos 
motores afogaram a resposta do empresrio. A gua exalou um 
relento de lama removida. O empresrio esperou que as lanchas 
dessem a volta no centro do rio. Ento apoiou-se na borda e, 
utilizando as mos como altifalante, gritou com todo o poder 
dos seus pulmes.
- Adeus, polcia-filho-da-puta.
O alcaide no se mexeu. Esperou, com as mos nos bolsos, 
at que o rudo dos motores se desvanecesse. Depois 
atravessou a multido, sorridente, e entrou no armazm do 
srio Moiss. Eram quase oito horas. O srio tinha comeado a 
guardar a mercadoria exposta na porta.
- Ento o senhor tambm vai - disse o alcaide.
- Por pouco tempo - admitiu o srio olhando o cu. - Vai 
chover.
- s quartas-feiras no chove - garantiu o alcaide. 
Esteve de cotovelos no balco a olhar as grossas nuvens que 
flutuavam por cima do porto, at que o srio acabou de 
recolher a mercadoria e pediu  mulher para trazer caf.
- Por este andar - suspirou como que para si mesmo - 
teremos de pedir gente emprestada a outras terras.
O alcaide bebia o caf em sorvos espaados. Mais trs 
famlias haviam partido. Com elas, segundo as contas do 
srio, eram cinco as que tinham ido embora no decurso de uma 
semana.
- Mais tarde ou mais cedo voltaro - disse o alcaide. 
Perscrutou as manchas enigmticas deixadas pelo caf no fundo 
da chvena e comentou com um ar ausente:
- Para onde quer que partam, sempre recordaro que tm o 
umbigo enterrado nesta terra.
Apesar dos seus prognsticos, teve de aguardar no 
armazm que passasse uma violenta btega que afundou, por 
breves minutos, a terra num dilvio. Depois dirigiu-se ao 
quartel e encontrou o senhor Carmichael ainda sentado num 
banquinho, no centro do ptio, encharcado pela btega. No se 
preocupou com ele. Depois de receber o relatrio do polcia 
de servio, mandou abrir a cela onde Pepe Amador parecia 
dormir profundamente, deitado de bruos no cho de mosaico. 
Voltou-o com o p e, por um momento, observou com comiserao 
o rosto desfigurado pelos golpes.
- Desde quando  que no come? - perguntou.
- Desde anteontem  noite.
Mandou-o levantar. Agarrando-o pelas axilas, trs 
agentes arrastaram-no atravs da cela e sentaram-no no 
estrado de cimento incrustado na parede a meio metro de 
altura. No lugar onde o corpo tinha estado, ficou uma sombra 
hmida.
Enquanto dois agentes o mantinham sentado, outro 
segurava-o pelo cabelo para lhe manter a cabea alta. Poderia 
pensar-se que estava morto, se no fsse a respirao 
irregular e a expresso de infinito esgotamento dos lbios.
Ao ser abandonado pelos agentes, Pepe Amador abriu os 
olhos e agarrou-se  beira de cimento. Em seguida, deitou-se 
de bruos na plataforma, com um queixume rouco. O alcaide 
saiu da cela e deu ordem para lhe darem de comer e o deixarem 
dormir um bocado.
- Depois - prosseguiu - continuem a trabalh-lo at 
cuspir tudo o que sabe. No creio que possa resistir muito 
tempo. - Da varanda viu de novo o senhor Carmichael no ptio, 
com o rosto entre as mos, encolhido no banquinho. - Rovira - 
chamou. - V a casa de Carmichael e diga  mulher dele que 
lhe envie roupa. Depois - acrescentou de um modo peremptrio 
- traga-o ao meu gabinete.
Tinha comeado a adormecer, apoiado na secretria
quando bateram  porta. Era o senhor Carmichael, vestido de 
branco e completamente seco, exceptuando os sapatos que 
estavam inchados e moles como os de um afogado. Antes de se 
ocupar dele, o alcaide ordenou ao polcia que lhe fosse 
buscar um par de sapatos.O senhor Carmichael levantou um 
brao para o agente.
- Deixe-me assim - pediu.E depois,dirigindo-se
ao alcaide com u olhar de severa dignidade,explicou:
- So os nicos que tenho.
O alcaide mandou-o sentar.Vinte e quatro horas antes o senhor 
Carmichael havia sido conduzido ao aposento blindado e 
submetido a um intenso interrogatrio acerca da situao dos 
bens de Montiel.Tinha feito uma exposio pormenorizada.No 
final,quando o alcaide revelou os seus propsitos de comprar 
a herana pelo preo que viessem a estabelecer os peritos 
municipais, anunciara a sua firme determinao de o no 
permitir enquanto a sucesso no estivesse liquidada.
Naquela tarde,depois de longas horas de fome e de
exposio  intemprie,a resposta do senhor Carmichael
revelou a mesma inflexibilidade.
- s uma mula,Carmichael - disse o alcaide.- Se
esperas que a sucesso esteja liquidada,esse bandido do
Don Sabas acabar por sobrepor o seu ferro a todo o gado 
de Montiel.
O senhor Carmichael encolheu os ombros.
- Est bem - disse-lhe o alcaide aps uma longa
pausa.- Sabe-se que s um homem honesto.Mas lembra-te de uma 
coisa: h cinco anos,Don Sabas deu a Jos Montiel a lista 
completa das pessoas que estavam em contacto com as 
guerrilhas,e por isso foi o nico chefe da oposio que pde 
permanecer aqui.
- Ficou outro - retorquiu o senhor Carmichael,
com uma ponta de sarcasmo.- Ficou o dentista.
O alcaide deixou passar a interrupo.
- Acreditas que por um homem assim,capaz de
vender por tuta-e-meia a sua prpria gente,vale a pena
estares sentado vinte e quatro horas ao sol e ao relento?
O senhor Carmichael baixou a cabea e ps-se a
olhar as unhas.O alcaide sentou-se na secretria.
- Alm disso - disse finalmente num tom amvel -,
pensa nos teus filhos.
O senhor Carmichael ignorava que a sua mulher e os seus dois 
filhos mais velhos tinham visitado o alcaide, na noite 
anterior, e este lhes havia prometido que antes de vinte e 
quatro horas o poria em liberdade.
- No se preocupe - retorquiu o senhor Carmichael. - 
Eles sabem como se defender. - No levantou a cabea enquanto 
no sentiu o alcaide a andar de um extremo ao outro da sala. 
Ento soltou um suspiro e disse: - Ainda lhe resta outro 
recurso, tenente. - Antes de prosseguir, olhou-o com terna 
mansido: - Liquidar-me com um tiro.
No recebeu qualquer resposta. Um pouco depois o alcaide 
estava profundamente adormecido no seu quarto e o senhor 
Carmichael tinha regressado ao seu banquinho.
 distncia de apenas dois quarteires do quartel, o 
escrivo era feliz. Timha passado a manh a dormitar no fundo 
do gabinete e, sem o ter podido evitar, vira os seios 
esplndidos de Rebeca de Ass. Foi como um relmpago ao meio-
dia: tinha-se aberto subitamente a porta do quarto de banho e 
a fascinante mulher, sem nada mais do que uma toalha enrolada 
na cabea, lanou um grito silencioso e apressou-se a fechar 
a janela.
Durante meia hora, o escrivo continuou a suportar, na 
penumbra do gabinete, a amargura daquela alucinao. Por 
volta do meio-dia ps o cadeado na porta e foi dar  sua 
recordao alguma coisa de comer. Ao passar diante do posto 
telegrfico, o delegado dos correios fez-lhe um sinal.
- Vamos ter padre novo - disse-lhe. - A viva de Ass 
escreveu uma carta ao nncio apostlico.
O escrivo afastou-o:
- A melhor virtude do homem  saber guardar um segredo.
Na esquina da praa encontrou-se com o senhor Benjamn, 
que pensava duas vezes antes de saltar os charcos diante da 
sua loja.
- Se o senhor soubesse, senhor Benjamn - comeou o 
escrivo a dizer.
- Se soubesse o qu?
 - Nada - disse o escrivo. - Levarei este segredo
para o tmulo.
O senhor Benjamn encolheu os ombros.Viu o escrivo saltar 
por cima dos charcos com uma agilidade to juvenil que tambm 
ele se lanou na aventura.
Na sua ausncia,algum tinha colocado no fundo da
loja um armrio de comida de trs seces,pratos e talheres e 
uma toalha dobrada.O senhor Benjamn estendeu a toalha na 
mesa e disps as coisas de modo a poder almoar.Fez tudo com 
extrema organizao.Primeiro comeu a sopa,amarela,com grandes 
crculos de gordura flutuante e um osso descarnado.Noutro 
prato comeu arroz branco,carne guisada e um pedao de 
mandioca
`	frita.Comeava o calor,mas o senhor Benjamn no lhe
prestava ateno.Quando acabou o almoo,empilhou os 
pratos,colocou no seu lugar as seces do porta-comidas e 
bebeu um copo de gua.Dispunha-se a colocar a rede,quando 
sentiu que algum entrava na loja.
Uma voz sonolenta perguntou:
- O senhor Benjamn est?
Esticou a cabea e viu uma mulher vestida de preto,
com uma toalha a tapar o cabelo,e a pele cor de cinza.
Era a me de Pepe Amador.
- No estou - respondeu o senhor Benjamn.
-  o senhor - disse a mulher.
- Bem sei - admitiu ele -,mas  como se no fosse,porque 
sei o que quer de mim.
A mulher hesitou diante da porta dos fundos,enquanto o 
senhor Benjamn acabava de colocar a rede.
A cada inspirao escapava-lhe dos pulmes um silvo
tnue.
- No fique a - disse o senhor Benjamn com dureza.- 
V-se embora ou entre.
A mulher ocupou a cadeira diante da mesa e comeou a soluar 
em silncio.
 	- Desculpe - disse ele.- Tem de compreender que me 
compromete ficando a, vista de toda a gente.
A me de Pepe Amador descobriu a cabea e secou os olhos com 
a toalha. Por puro hbito, o senhor Benjamn experimentou a 
resistncia das cordas ao acabar de pendurar a rede. Depois 
voltou-se para a mulher:
- De modo que a senhora quer que eu lhe faa um 
requerimento. - A mulher concordou com a cabea. 
- Quer dizer - prosseguiu o senhor Benjamn -, continua a 
acreditar em requerimentos. Nos tempos que correm, a justia 
- explicou, baixando a voz - no se faz com papis, faz-se a 
tiro.
- Toda a gente diz o mesmo - replicou ela -, mas d-se o 
caso de eu ser a nica que tenho o meu rapaz na cadeia.
Enquanto falava, desfez os ns do leno que at ento 
tinha apertado no punho e dele tirou vrias notas 
amarrotadas: oito pesos. Ofereceu-os ao senhor Benjamn.
-  tudo o que tenho - disse.
O senhor Benjamn olhou para o dinheiro. Ergueu os 
ombros e pegou em duas notas, colocando-as em cima da mesa:
- Sei que  intil. Mas vou fazer o que pede s para 
provar a Deus que sou um homem pertinaz. - A mulher agradeceu 
em silncio e recomeou a soluar. - De qualquer modo - 
aconselhou-a -, trate de fazer com que o alcaide a deixe ver 
o rapaz e convena-o a dizer o que sabe. Fora disso,  o 
mesmo que alimentar porcos com papis.
Ela limpou o nariz com a toalha, cobriu novamente a 
cabea e saiu da loja sem voltar a cara. O senhor Benjamn 
fez a sesta at s quatro. Quando foi ao ptio lavar-se, o 
tempo estava limpo e o ar cheio de formigas-voadoras. Depois 
de mudar de roupa e de pentear os poucos fios de cabelo que 
lhe restavam, saiu para ir ao telgrafo comprar uma folha de 
papel selado.
Voltou para a loja para fazer o requerimento quando 
compreendeu que algo estava a acontecer. Ouviu gritos 
distantes. A um grupo de rapazes que passava a correr
junto dele perguntou o que era e eles responderam-lhe sem 
parar. Ento regressou ao posto telegrfico e devolveu a 
folha de papel selado que comprara.
- J no  precisa - disse ele. - Acabam de matar 
Pepe Amador.

Ainda meio adormecido, com o cinturo na mo e 
abotoando o dlman com a outra, o alcaide desceu em dois 
saltos a escada do quarto. A cor da luz transtornou-lhe o 
sentido do tempo. Antes de saber o que se passava, 
compreendeu que devia dirigir-se ao quartel.
As janelas fechavam-se  sua passagem. Uma mulher 
aproximava-se, correndo com os braos abertos, pelo meio da 
rua, em sentido contrrio. Havia formigas de asas no ar 
lmpido. Ainda sem saber o que acontecia, o alcaide sacou o 
revlver do coldre e comeou a correr.
Um grupo de mulheres tentava forar a porta do 
quartel. Vrios homens tentavam impedi-las  fora. O alcaide 
afastou-os com violncia, colocou-se de costas
contra a porta e apontou a arma.
- Quem avanar um passo leva um tiro. 
Um agente, que tinha estado a refor-la por dentro, abriu 
ento a porta, com a espingarda armada, e fez soar um apito. 
Dois outros agentes apareceram na varanda,
deram alguns tiros para o ar, e o grupo dispersou para 
os extremos da rua. Nesse momento, uivando como um lobo, a 
mulher apareceu na esquina. O alcaide reconheceu a me de 
Pepe Amador. Deu um salto para o interior do quartel e 
ordenou ao agente:
- Encarregue-se dessa mulher.
Dentro havia um silncio total. Na realidade, o alcaide 
no soube o que se tinha passado enquanto no afastou os 
agentes que tapavam a entrada da cela e viu Pepe	Amador. 
Deitado no cho, encolhido sobre si mesmo,  tinha as mos 
entre as coxas. Estava plido, mas no havia manchas de 
sangue.
 Depois de se convencer de que ele no tinha nenhuma ferida, 
estendeu o corpo de costas no cho, meteu-lhe a fralda da 
camisa dentro das calas e abotoou-lhe a
braguilha. Por fim, apertou-lhe o cinto.
 Quando se levantou tinha recobrado o aprumo, mas a 
expresso com que enfrentou os agentes revelava um princpio 
de cansao.
- Quem foi?
- Todos - respondeu o gigante louro. - Tentou 
fugir.
O alcaide olhou-o, pensativo, e por alguns segundos 
pareceu no ter mais nada a dizer.
- Essa histria j ningum a engole - afirmou. Avanou 
para o gigante loiro com a mo estendida:' D-me o revlver.
O polcia tirou o cinturo e entregou-lho. Tendo 
trocado por projcteis novos as duas cpsulas disparadas, o 
alcaide guardou-as no bolso e entregou o revlver a outro 
agente. O gigante loiro, que visto de perto parecia iluminado 
por uma aurola de puerilidade, deixou-se conduzir  cela 
vizinha. Ali despiu-se por completo e entregou a roupa ao 
alcaide. Tudo foi feito sem pressas, sabendo cada qual a 
funo que lhe correspondia, como numa cerimnia. Finalmente 
o prprio alcaide fechou a cela do morto e saiu para a 
varanda do ptio. O senhor Carmichael permaneaa no banquinho.
Ao ser conduzido  sala onde se encontrava o 
alcaide, no correspondeu ao convite para se sentar. Ficou em 
p, diante da secretria, outra vez com a roupa molhada, e 
mal moveu a cabea quando o alcaide lhe perguntou se tinha 
dado conta do que se passara.
- Pois bem - disse o alcaide. - Ainda no tive 
tempo de pensar o que vou fazer, nem sequer sei se vou fazer 
alguma coisa. Mas seja o que for que faa lembra-te disto: 
queiras ou no ests metido no sarilho. O senhor Carmichael 
continuou absorto diante da secretria, a roupa colada ao 
corpo e um princpio de tumefaco na pele, como se ainda no 
tivesse vindo  tona da sua terceira noite de afogado. O 
alcaide esperou i	nutilmente um sinal de vida.


169
 

;	-Repara ento nesta situao,Carmichael: agora
'	somos parceiros.
Disse-o gravemente e at com algum dramatismo.
;	Mas o crebro do senhor Carmichael no pareceu regis-
?	t-lo.Permaneceu imvel diante da secretria,inchado e
`'	triste,mesmo depois de a porta blindada se ter fechado.
! 	Diante do quartel,dois agentes seguravam pelos pul-
1	sos a me de Pepe Amador.Os trs pareciam repousar.
=	A mulher respirava com um ritmo normal e os seus
olhos estavam secos.Mas quando o alcaide apareceu na
porta,lanou um uivo rouco e sacudiu-se com tal vio-
 	lncia que um dos agentes teve de a soltar e o outro
imobilizou-a no solo com um golpe de artes marciais.
0alcaide no olhou para ela.Fazendo-se acompanhar
!	por outro agente,enfrentou o grupo que,na esquina,
;I
presenciava a luta.No se dirigiu a ningum em espe-
;
cial:
-Um qualquer de vocs.Se querem evitar algo
pior,levem essa mulher para a casa dela.
I	Sempre acompanhado pelo agente,abriu passagem
atravs do grupo e dirigiu-se ao tribunal.No encontrou
ningum.Ento foi a casa do juiz Arcadio e,empurran-
do a porta sem bater,gritou:
- Juiz!
A mulher do juiz Arcadio,afligida pelo humor den-
so da gravidez,respondeu da penumbra:
,	- Foi-se.
0alcaide no se moveu do umbral.

- Para onde?
- Para onde havia de ser? - retorquiu a mulher.-
Para alguma puta de merda.
0alcaide fez ao agente um sinal para prosseguir.
Passaram ao lado da mulher,sem a olhar.Depois de re-
volverem o quarto e verificarem que no havia coisa de
homem em stio algum,regressaram  sala.
- Quando  que partiu? - perguntou o alcaide.
- H duas noites - respondeu a mulher.
0alcaide necessitou de uma longa pausa para pensar.

170
 

- Filho da puta - gritou de repente. - Poder esconder-
se a cinquenta metros debaixo da terra; poder enfiar-se 
outra vez na barriga da puta da me, que da mesmo o 
sacaremos, vivo ou morto. O Governo tem o

brao comprido.
A mulher suspirou.
- Deus o oia, tenente.
Comeava a escurecer. Ainda se viam grupos.mantidos em 
respeito pelos agentes da polcia nas esqumas do quartel, mas 
tinham levado a me de Pepe Amador e a terra parecia 
tranquila.
O alcaide dirigiu-se directamente  cela do morto. 
Mandou vir uma lona e, com a ajuda de um agente, colocou o 
bon e os culos no cadver, envolvendo-o nela. Depois 
procurou em diferentes stios do quartel pedaos de fibra de 
piteira e arames, amarrando o corpo em espiral desde o 
pescoo at aos tornozelos. Quando acabou estava a suar, mas 
tinha um ar restabelecido. Era como se fisicamente tivesse 
tirado o peso do cadver de cima de si.
S ento acendeu a luz da cela.

- Procura a p, a picareta e uma lanterna - ordenou ao 
agente. - Depois chamas o Gonzlez, cavam um buraco bem fundo 
na parte de trs do ptio das traseiras, que  mais seco. - 
Disse-o como se tivesse concebido palavra a palavra,  medida 
que falava. - E lembrem-se de uma coisa para toda a vida: 
este rapaz no morreu - disse em concluso.
Duas horas mais tarde ainda no tinham acabado de 
cavar a sepultura. Da varanda, o alcaide verificou que no 
havia ningum na rua, salvo um dos seus agentes que montava a 
guarda de esquina a esquina. Acendeu a luz da escada e 
deixou-se ficar a descansar no canto mais escuro da sala, 
ouvindo apenas os gritos espaados de um alcaravo distante.
A voz do padre ngel arrancou-o  sua meditao. 
Ouviu-a primeiro a dirigir-se ao agente que se encontrava de 
guarda, depois a algum que o acompanhava e, por

171
 

fim, a outra voz. Permaneceu inclinado na cadeira des-
dobrvel,at ouvir de novo as vozes,agora j no interior
do quartel,e os primeiros passos na escada.Estendeu
' ento o brao esquerdo na obscuridade e agarrou a 
cara-
bina.
Ao v-lo aparecer no topo da eseada,o padre ngel
deteve-se.Dois degraus abaixo estava o doutor Giraldo,
com uma bata curta e engomada e a maleta na mo.
 " ,	Mostrou-lhe os dentes afilados.
.
'   i	- Estou muito desiludido,tenente - disse o mdi-
;	co,com aparente bom humor.- Passei toda a tarde 
'	espera que me mandasse chamar para fazer a autpsia.
'	0padre ngel fixou nele os seus olhos transparentes
I	e mansos,voltando-os depois para o alcaide.Tambm o
i	alcaide sorriu.
- No h autpsia - disse o alcaide -,uma vez
que no h morto.
`	- Queremos ver Pepe Amador - protestou o p-
 	roco.
Com a carabina na mo,o cano apontado para baixo,
 : 
'	o alcaide continuou a dirigir-se ao mdico:
- Eu tambm gostaria.Mas no h nada a fazer.-
E deixou de sorrir ao dizer: - Fugiu.- O padre ngel
avanou um degrau.O alcaide levantou a carabina na
sua direco.- Fique a quieto,padre - advertiu.Por
sua vez o mdico avanou um degrau.
;	- Diga-me uma coisa,tenente - disse,ainda a sor-
rir.- Nesta terra no se podem guardar segredos.Toda
a gente sabe,desde as quatro da tarde,que fizeram com
esse rapaz o mesmo que Don Sabas fazia com os burros
  	que vendia.
- Ele fugiu - repetiu o alcaide.
Vigiando o mdico,mal teve tempo de se pr em
guarda quando o padre ngel subiu de uma vez dois de-
graus com os braos no ar.O alcaide soltou o co da ar-
ma com um movimento seco da mo e ficou plantado
com as pernas abertas.


.:.;  1 72
 

- Alto a! - gritou.
 O
mdico agarrou o proco pela manga da sotaina. O 
padre ngel comeou a tossir.
- Faamos jogo limpo, tenente - disse o mdico. A 
sua voz endureceu pela primeira vez em muito tem o
-  preciso fazer essa autpsia. Vamos agora esclarePer 
o mistno das sncopes que os presos sofrem nesta cadeia.
- Doutor - disse o alcaide. - Se se mover do lugar 
onde est, abato-o. - Desviou ligeiramente a mira para o 
proco. - E a si tambm, padre. - Os trs permaneceram 
imveis. - Alm disso - prosseguiu o alcaide dirigindo-se ao 
sacerdote - o senhor devia estar
suinseito, padre: esse rapaz era aquele que punha os 
pas- Por amor de Deus... - comeou o padre a dizer. Mas a 
tosse convulsiva impediu-o de prosseguir. O alc	ide esperou 
que a crise passasse.
- Ouam uma coisa - disse ento. - Vou comear a contar. 
Quando chegar a trs, disparo com os olhos fechados contra 
essa porta. Saiba-o desde a ora e sempre - falou 
explicitamente p g para
ara o mdico. - Acabaram-se as piadinhas. Estamos em 
guerra, doutor. . O mdico arrastou o padre ngel pela manga. 
Ini aou a descida sem voltar as costas ao alcaide e de 
sbito, comeou a rir com vontade. ,
-  assim que eu gosto, general - disse o mdico.
- Agora sim, comeamos a entender-nos.
- Um - contou o alcaide.
No ouviram o nmero seguinte. Quando se separaram na 
esquina do quartel, o padre Angel estava cabisbaixo e teve de 
virar a cara porque tinha os olhos hmidos. O doutor Giraldo 
deu-lhe uma palmadinha no ombro sem parar de sorrir:
- No se surpreenda, padre. Tudo isto  a vida.Ao dobrar 
a esquina da sua casa, olhou o rel io  luz do poste de 
iluminao: eram oito menos u gq
uarto.

173
 

0padre ngel no conseguiu comer.Depois do to-
que de recolher sentou-se a escrever uma carta.Ficou
inclinado sobre a secretria at depois da meia-
noite,en-
quanto a chuva miudinha ia desfazendo os contornos do
mundo  sua volta.Escreveu de um modo implacvel,
desenhando letras iguais,com tendncia ao preciosismo,
1 e fazia-o com tanta paixo que no molhava a pena se-
" no depois de ter traado duas palavras 
invisveis,ferin-
do o papel com o aparo seco.
No dia seguinte,depois da missa,ps a carta no cor-
reio apesar de saber que no seria expedida at sexta-
_	-feira.Durante a manh,o ar esteve hmido e enevoado,
`r"	mas por volta do meio-dia tornou-se difano.Um pssa-
ro extraviado apareceu no ptio e esteve uma meia hora
a dar saltinhos de invlido entre os nardos.Cantou uma
nota progressiva, subindo de cada vez uma oitava, at
.	 que se tornou to ajuda que foi necessrio imagin-la.
"	 No seu passeio vespertino,o padre ngel teve a cer-
.: 	teza de que durante toda a tarde o tinha perseguido uma
fragrncia outonal.Em casa de Trinidad,enquanto man-
."..
tinha com a convalescente uma conversa triste acerca das
,
doenas de Outubro,julgou identificar o odor como
aquele que uma noite Rebeca de Ass exalara no seu es-
critrio.
r 	No regresso tinha visitado a famlia do senhor Car-
*	michael.A esposa e a filha mais velha estavam desconso-
h	ladas e sempre que se referiam ao preso emitiam uma
 	nota falsa.Mas as crianas estavam felizes sem a severi-
dade do pap,tentando fazer beber gua num copo um
easal de coelhos que a viva de Montiel lhes tinha 
envia-
 n
  '`	do.De repente,o padre ngel interrompeu a conversa
""	e,traando com a mo um sinal,disse:
-J sei:  acnito.
Mas no era acnito.
Ningum falava dos pasquins.No fragor dos ltimos
acontecimentos,estes eram apenas uma pitoresca hist-
" ria do passado.O padre ngel teve ocasio de o com-
provar durante o passeio vespertino e depois das vspe-

174
 

ras, conversando na sacristia com um grupo de senhoras 
catlicas.
Ao ficar sozinho, sentiu fome. Preparou fatias fritas de 
banana verde e caf com leite e acompanhou-as com um pedao 
de queijo. A satisfao do estmago f-lo esquecer a dor. 
Enquanto se despia para se deitar, e depois dentro do toldo 
que envolvia a cama, matando os mosquitos que tinham 
sobrevivido ao insecticida, arrotou vrias vezes. Tinha azia, 
mas o seu esprito estava em paz.
Dormiu como um justo. Ouviu, no silncio do recolher 
obrigatrio, os sussurros emocionados, as tentativas 
preliminares das cordas temperadas pelo frio da madrugada e, 
por fim, uma cano de outros tempos. s cinco menos dez 
reparou que estava vivo. Levantou-se, num esforo solene, 
esfregando os olhos com os dedos, e pensou: Vinte e um de 
Outubro, sexta- feira." Depois recordou em voz alta: Santo 
Hilario.,
Vestiu-se sem se lavar e sem rezar. Tendo rectificado a 
longa abotoadura da sotaina, calou as botas gretadas pelo 
uso dirio, cujas solas comeavam a ganhar bocas. Ao abrir a 
porta que dava para os nardos, lembrou-se das palavras de uma 
cano.
- Ficarei no teu sonbo at  morte" - suspirou. Mina 
empurrou a porta da igreja enquanto ele dava o primeiro 
toque. Dirigiu-se ao baptistrio onde encontrou o queio 
intacto e as ratoeiras montadas. O padre ngel acabou de 
abrir a porta que dava para a praa.
- Pouca sorte - disse Mina, abanando a caixa de carto, 
vazia. - Hoje no apanhmos nenhum.
Mas o padre ngel no lhe prestou ateno. Estava a 
despontar um dia brilhante, com um ar ntido que parecia um 
anncio de que tambm naquele ano, apesar de tudo, Dezembro 
sena pontual. Nunca lhe pareceu mais definido o silncio de 
Pastor.
- Ontem  noite houve serenata - disse ele.
- De chumbo - confirmou Mina. - Ouviram-se tiros at h 
pouco.


I 75
 

O padre olhou-a pela primeira vez. Tambm ela, 
extremamente plida como a av cega, usava a faixa azul de 
uma congregao laica. Mas, ao contrrio de Trinidad, que 
tinha um humor masculino, nela comeava a amadurecer uma 
mulher.
- Onde?
- Por todos os lados - respondeu Mina. - Parece que 
ficaram doidos  procura de panfletos clandestinos. Dizem que 
levantaram o soalho da barbearia, por casua lidade, e 
encontraram armas. A cadeia est cheia, mas dizem que os 
homens esto a ir para os montes para se organizarem nas 
guerrilhas.
O padre ngel suspirou:
- No me dei conta de nada.
Foi at ao fundo da igreja. Ela seguiu-o em silncio at 
ao altar-mor.  
- E isso no  nada - disse Mina. - Ontem  noite, 
apesar do toque de recolher e apesar do tiroteio...
O padre ngel deteve-se. Voltou para ela os seus olhos 
tristes, de um azul inocente. Mina tambm se deteve, com a 
caixa vazia debaixo do brao, e esboou um sorriso nervoso 
antes de acabar a frase.
 

O Autor e a Obra


 Gabriel Garca Mrquez, escritor colombiano, nasceu em 
Aracataca, Magdalena, a 6 de Outubro de 1928. Depois dos 
estudos universitrios, enveredou pelo jornalismo, actividade 
que ainda hoje conserva. Escreveu para diversas publicaes e 
mais tarde tornou-se cronista regular em El Espectador.
Em 1959 colaborou na criao da Prensa Latina, a 
agncia noticiosa da jovem Repblica de Cuba, que viria a 
abandonar em 1961 para se instalar no Mxico, participando 
cada vez mais activamente na vida poltica do continente. O 
regresso ao seu pas seria entrecortado por numerosas viagens 
at nova sada em 1980.
A sua intensa e riqussima carreira de escritor, 
com incio em 1947, ao publicar os seus primeiros contos em 
EI Espectador, culminou com o romance Cem Anos de Solido 
(1967) e mereceu-lhe a atribuio do Prmio Nobel da 
Literatura de 1982.
Da vasta produo do mais clebre escritor da 
Amrica Latina, salienta-se ainda: A Revoada (1955), Ningum 
Escreve ao Coronel (1961), Os Funerais da Nlam Grande 
(1962), Horas rLls (1962), A Incrivel e Triste Histria da 
Cndida Erndira e da Sua Av Desalmada (1972), Olhos de Co 
Azul (1974), O Outono do Patriarca (1975), Crnic de Uma 
Nlorte Anunciada (1981),
 

O Amor nos Tempos de Clera (1985), A Aventura de Nliguel 
Littin, Clandestino no Chile (1986), O General no Seu 
Labirinto (1990), Doze Contos Peregrinos (1992), Do Amor e 
Outros Demnios (1994), Noticia de Um Sequestro (1996).
 


Fim
